Música

Autodefesa

por Pedro Faria

Menorca, 22 de julho.

“Gabriel, anda pôr o creme!”, grita a avó com um forte e desesperado sotaque transmontano para o robusto pré púbere netinho, que a ignora olimpicamente enquanto trepa por um arremedo de rocha.

A senhora insiste no apelo. Ele persiste na sua ostensiva ignorância.

Do meu lado esquerdo um “Andrea!” a que se segue e um chorrilho nórdico que paralisa o infante loiro que chega.

Em 20 minutos o paraíso turquesa é tomado pelo apocalipse: às onze horas, a praia, que três horas antes era o lugar da harmonia na terra, é agora uma babel de apelos e de corpos dispostos como num jogo de Tetris que sabemos que vamos perder daí a nada.

A família do Andrea monta o estaminé ali ao lado, se esticar o braço toco no balde do puto.: Have you left space for me in this life? (…) Do you have faith to feel/ In this world?/ ‘Cause it gets hard to see /In this world  – Melody of Love, Hot Chip)

A cantiga é uma arma, diz o José Mário Branco, e eu respeitosamente acrescento, de defesa pessoal.

Senhoras e senhores, aplausos para os Hot Chip e para o seu novo opulento muro musical, A Bath Full of Ecstasy.

Fecho os olhos contra o sol e vou por ali fora. O Gabriel e o Andrea dissolvem-se.

Tenho um amor fundo e inabalável pelos Hot Chip porque, acima de tudo, me divertem e elevam a um estado de euforia dançante, mesmo quando sacam uma balada elétrica com o sabor frutado de um rebuçado coreano (do Sul, claro).

O álbum novo, escreve Jonah Bromwich para o Pitchfork, é tão Hot Chip que chega a ser caricatural. É imersivo, compulsivo, circular, labiríntico e contundente. não será à toa que decidiram chamar-lhe um banho de “êxtase”.

No meio da algazarra que me rodeia, de que sinto uma ténue vibração transmitida pelos grãos de areia, só existe a renda rítmica do house eletrificado dos Hot Chip, pontuado por abordagens metafísicas (No God: We’re dancing in circles while we’re playing dead, playing dead/ Don’t know if you heard me or the voices in my head) e apelos calmantes (Spell: Give me your hand and your command/ And mark my word, you’ll find your world/ There is enough, there is in love/ A lot to learn, a lot to earn).

Abençoados Hot Chip e a sua muralha defensiva que permitem que sinta, citando La Terremoto de Alcorcón, que Times go by so louly, time goes by con Loli.


  • Hot Chip, A Bath Full of Ecstasy, 2019, Domino Recording

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