Música

Harmonia

por Pedro Faria

Berlim. O voo, do Porto, via Bruxelas, foi pacífico. Saio do terminal de Tegel para um fim de dia quente e abafado. Do aeroporto até ao hotel são cerca de 20 minutos de carro. A paisagem periférica é a habitual: fábricas, armazéns, torres estéreis de escritórios, desfilam como contas de um rosário industrial. Não é visível nenhum dos pontos de referência que, em 1988, um ano antes de o muro cair, guardei da cidade. O condutor, de origem árabe e que não fala inglês, é sereno, delicado e eficaz. Ao longe vejo finalmente a Fernsehturm na Alexanderplatz, onde, muitos anos antes, jantei pessimamente, no restaurante que girava sobre si mesmo, numa paródia da lei do eterno retorno. Há um certo conforto nesta aparição. É Berlim, de facto.

Saí do hotel com o álbum novo do Dev Haynes, aka Blood Orange, Angel’s Pulse. Guardei-o para as férias, quando o tempo se distende e nada há nada entre mim e o exato momento e lugar onde estou.

Cem metros depois tiro os auscultadores dos ouvidos: caminhar com eles postos não está a funcionar, preciso identificar os sons do percurso. Bicicletas que zunem, o Straßenbahn, o crocitar das gralhas que abundam na zona residencial que estou a atravessar e que é tão bloco de leste de outrora.

Passam-se alguns dias sem que a música me tente. Gosto do burburinho dos museus, da emulação das línguas que se cruzam, da ocupação efémera da voz humana em contraste com a permanência dos objetos que se sujeitam à exposição, do roçagar das roupas e dos passos abertos uns sobre os outros. Tolhido e levado pelo verdazul vidrado das portas de Ishtar no Pergamon, não me ocorre qualquer banda sonora que se adeque. Aqui não há lugar para outra música que não seja a que se cria pelo pela ocupação do espaço.

Torstrasße. Paro num café cuidadosamente neutro e peço um “americano”. Enrolo bem o “r” em jeito de aviso: não falo alemão.

Sento-me numa mesa corrida que é, no fundo, um balcão que separa a janela aberta do passeio público. Dois Mac abertos em frente a dois clientes que aparentam estar para ficar longamente naquele casulo de alheamento. O café escalda.

Was the hummingbird that gave you the word or the father of three that poured the tea?”

A música é Receipts de serpentwithfeet, persona musical de Josiah Wise, single novo, posto cá fora a 26 de junho.

As serpentes não têm pés, fatalidade que decorre de não terem pernas. Não há pé que não seja o termo da perna. Uma serpente que tivesse pés, a rematar frágeis pernitas, era um lagarto muito esguio e, portanto, não era uma serpente. Sofisma.

Um bicho assim é coisa para aparecer num quadro do Bosch, que delirava como mais ninguém delirou, ou uma presença empalhada num bestiário do Córtazar. Uma coisa esdrúxula.

Vai bem, naquele café semiadormecido, a voz fugidia de Josiah Wise que reverbera pelas paredes despidas, a circular pelas traves do teto, sustentado numa estrutura depurada de piano e cordas. Há uma alma eletrónica, por vezes pungente, que atravessa a música. Who taught you how to love me, pergunta.

Tomo nota mental: voltar a esta música.

Algures, num dos percursos erráticos, guiado pelo milagre da tecnologia (tenho o sentido de orientação de uma criança de meses), uma placa de sinalização leva-me à Tiergarten do Rufus Wainwright: “Won’t you walk me through the tiergarten?/ Won’t you walk me through it all, darling?/ Doesn’t matter if it is raining/ Won’t you walk me through it all?”

Saio do Museum fur Gegenwart na Hamburgh Bahnhofe e atravesso a cidade para a Gemaldegalerie . Do Bruce Nauman ao Piero de la Francesca é uma hora e meia a pé, mais passo menos passo. A cidade abafa.

Da Gemaldegalerie atravesso para o Tiegarten. Deito-me na relva a comer frutos secos e a beber toda a água que consigo, como um camelo que se prepara para atravessar o deserto. Seria bom adormecer ali.

Está na altura dos auriculares e de descascar uma laranja sanguínea (Blood Orange, certo?), ou seja, ouvir Angel’s. Tenho tempo. Afinal não há outro lugar onde queira estar que não este.

Como o disco anterior (Negro Swan), também este é construído como uma mixtape, palavra apropriada dos filmes americanos para adolescentes, em que o rapaz ou a rapariga gravava uma coletânea musical em cassete, como prova do seu amor e da sua inteligência emocional.

As músicas sucedem-se praticamente sem hiatos e por vezes são grosseiramente interrompidas, cortadas por uma tesoura cega e definitiva.

O disco soa como uma manta de retalhos cosidos numa harmonia improvável, os tecidos e padrões parecem aleatórios, fragmentos de hip hop, lo-fi, um toque de r&b, apontamentos melancólicos, batidas discretamente compulsivas, vozes que oscilam entre o grave e o falsete, tudo como se fossem restos de um magnífico jantar servidos no dia seguinte.

Há vozes distantes de conversas casuais como introdução de Benzo (Open the door, leave me with arms exposed, oh / Outside, I saw where I belong), apelos amorosos, embrulhados em melodias frágeis e inocentes (I wanna C U: I wanna see you, And keep it in your home) e biografias de dias intoxicados e sucessivamente interrompidos, como na magnífica Dark and Handsome, em parceria com Toro y Moi (Ridin’ out to Venice with a nosebleed/ I stood before the waves and prayed to be clean/ But dirty in my mind, I don’t turn green, uh/ This is everything you ever wanted/ Cryin’ for the ones I lost in ’18/ IG3, 2-0-1-4, unhappy/ Nothing ever makes you get past it/ Thirty-three and stuck stop thinkin’/ Fine with this and I keep on spendin’, uh/ Shower my beliefs with ice melting).

A cassete que vou ouvindo deitado na relva do parque tem um fio condutor: todos os referentes que sustentam o músico Blood Orange estão ali, tecidos magistralmente, fluidos e indestrinçáveis.

Magnífico.


  • Serpentwithfeet, Receipts (feat. Ty Dolla $ign), 2019, Secretly Canadian/Tri Angle Records
  • Rufus Wainwright, Release The Stars, 2014, Warner Records
  • Blood Orange, Angel’s, 2019, Domino Recording