Entrevistas

À conversa com Gisela Casimiro

por Filipa Gonçalves

Gisela Casimiro, escritora e artista portuguesa, nasceu em 1984 na Guiné Bissau e vive em Portugal desde os seus quatro anos de idade.

Desde que se lembra, soube que queria contar histórias. É isso que faz, através da sua escrita, que podemos ler nas crónicas publicadas no “Hoje Macau” e no seu primeiro, que esperamos de muitos, livro de poesia, “Erosão” (Urutau, 2018), e através da fotografia, em projectos como o seu “Museu Pessoal”.

Foi num soalheiro dia 10 de Junho que nos sentamos à beira do Tejo para ouvir Gisela descrever o seu itinerário profissional, profundamente pessoal.

Mulher do seu tempo, reflexiva e frontal, falou-nos das questões que a inquietam e a movem e que se reconduzem, na essência, à condição humana.

Nasceste na Guiné Bissau mas vieste muito pequena para Portugal. Onde situas as tuas memórias de infância entre essa mudança?

As minhas lembranças de infância são as daqui. Quando vim para cá já falava, completei quatro anos aqui. Essas memórias são muito esbatidas no tempo e, claro, passa também pela primeira língua não ser o português mas o crioulo. Mas na verdade não se nota pois é outra língua que eu sei mas normalmente não falo. Em termos de infância, como memória, é aqui.

As minhas memórias são de passar tempo na biblioteca. Ficar muito tempo na biblioteca, horas, trazer livros da biblioteca. Brincar com a minha irmã horas. Passávamos muito tempo em casa quando éramos miúdas. Não viajávamos praticamente. Era sempre a imaginação, a leitura, a televisão, via muita…

A leitura proporciona muitas viagens.

Sim, mas naquele caso era a televisão. Deixei de ver tanta televisão nos últimos anos, vejo cada vez menos, sou mais selectiva mas sempre gostei muito e queria escrever para televisão. Apreciava vários tipos de conteúdos porque também queria ser jornalista, além de querer ser escritora. Por isso era importante para mim também

E dessa relação com o espaço da biblioteca, como surge a tua primeira memória sobre escrita? Alguma vez tiveste um pensamento consciente de que querias escrever ou foi algo mais orgânico?

O orgânico não tem de ser contrário ao consciente. Foi muito consciente mas também muito visceral. Foi logo quando li o primeiro livro sozinha – Os Contos Completos dos Irmãos Grimm – quando cheguei ao fim pensei isto é o que quero fazer. Mas isto: contar histórias. Reflecte-se em tudo o que faço. Primeiro há sempre uma história para contar, há sempre um pormenor delicioso ou macabro, o que for, e depois é a minha maneira.

Mas em termos de escrita foi a escola, escrever diários, cartas, e depois passar, para além do que me era pedido na escola e das coisas que inventava, cartas, diários e depois poesia na adolescência.

O que fez com que passasses da prosa para a poesia? A poesia é um género mais difícil, diria eu.

Gosto de escrita em qualquer uma das suas formas. Como passava muito tempo na biblioteca, fui lendo tudo o que me aparecia à frente, coisas diferentes e depois achei que também seria uma forma válida para expressar o que tinha para expressar. Depois, também tive uma fase sem escrever poesia, durante muito tempo e até tive uma fase em que não escrevi praticamente nada. Acontece, nem prosa, nem poesia nem nada.

E depois o teu curso em Línguas, Literatura e Cultura surge…

Surge depois de ter ido para Ciências da Comunicação, neste caso a variante seria Jornalismo, mas infelizmente não foi uma experiência muito feliz. Não pela universidade em si mas por mim, questões pessoais, e acabei por mudar de curso. Fui para Estudos Portugueses e Ingleses, um curso de que gostei bastante mas também andei a entrar e sair muitas vezes por questões profissionais e pessoais. Sempre trabalhei desde a adolescência mas houve várias situações que não me permitiram ter a disponibilidade mental para fazer as coisas de uma vez só como sempre tinha feito.

Em que momento entraste nos circuitos literários, de festivais? Recebeste o convite, em 2017, para o International Young Writers Meeting, na Turquia.

Esse foi muito especial. Na altura não tinha nada publicado. Tinha publicado um texto numa revista em Portugal e quando fui lá tinha coisas traduzidas para turco antes de ter um livro ou grandes publicações em português. Mas uma coisa levou a outras. Claro que a publicação de um livro (Erosão, 2018) tornou as coisas mais fáceis e o ter começado a escrever crónicas para o “Hoje Macau”, se bem que já escrevia crónicas há muito tempo, mas tendo essa colaboração tornou-se mais simples. De resto, essa visibilidade é uma coisa recente.

Entrar no círculo é uma coisa muito curiosa porque não sei se estou no círculo. Acho que sou mais um satélite, porque não faço parte de nenhum grupo.

Isso tem que ver com as tuas histórias?

Não, tem a ver com pequenas sociedades dentro da sociedade. Tem a ver com questões minhas também, claro. Como é que a pessoa se decide expor, de que forma, as tentativas que faz para ser publicada. Tem a ver com as pessoas. Eu conheço muitas pessoas mas isso não é necessariamente uma garantia de que haverá colaboração, crítica ou incentivo. Temos que fazer por nós. Também é preciso que algumas pessoas nos ajudem, nos dêem a sua opinião, nos aconselhem, nos dêem oportunidades, abram algumas portas. Mas grande parte do trabalho passa por criar essas oportunidades e escrever o melhor possível.

Mas não sinto que faça parte de um grupo nem acho que vá fazer. É uma coisa à parte.

Faço parte de uma minoria porque sou uma mulher negra que escreve e estou num país em que os negros não são a maioria e em que, se as coisas já são difíceis para quem não é negro, para mim são mais.

Agora há uma fase, que eu chamo do “privilégio negro” – não digo isto sem alguma ironia – mas em que toda a gente quer hastear a bandeira de: “olha, tenho aqui um escritor que é Angola, de Moçambique ou da Guiné”. Então, acabo por ser convidada para essas coisas, por mérito próprio, mas vamo-nos apercebendo disso pela maneira como somos apresentados ou como somos conotados. Isso é um jogo que se tem que fazer às vezes porque o meu propósito aqui é o da representatividade. É importante. Eu não a vi muito ao longo da minha vida então poder criá-la, sinto que é uma responsabilidade e um privilégio que tenho.

A esse propósito, li num perfil sobre ti que fazias voluntariado social e cultural e que eras uma activista. Em que se reflectem estas características?

Há vários tipos de activismo. Falo disso na escrita e quando faço teatro. Mas quando faço voluntariado não estou a pensar “olha, é preciso estarem aqui negros a fazer voluntariado”. É preciso toda a gente fazer voluntariado. Quando é social, cada um tem a sua vocação e há várias formas de dar com o que as pessoas quiserem. Em relação ao voluntariado cultural é uma coisa que faço também para mim, egoisticamente, porque assisto a filmes e espetáculos, mas é trabalho à mesma. Tento vê-lo de outra forma, como ganho de experiência. E, às vezes, surgem oportunidades assim. Já me aconteceu a mim, a outras pessoas que conheço. Também podemos descobrir uma vocação, um talento, uma missão.

Será uma forma de se abrir ainda mais ao mundo, conhecer e receber outras coisas?

Sim, tem a ver com a forma como fui educada. Gosto sempre de estar envolvida em cultura e acção social, gosto de aprender com e dar aos outros. Também é uma forma de consumir cultura e de ver o backstage, ver como as coisas funcionam e as dificuldades das instituições.

Em relação ao activismo, há várias formas de activismo. Faço isso na escrita, na fotografia, sou parte, muito recentemente, do INMUNE[i], ainda não fiz muitas acções com elas mas o que tenho feito tem sido bastante importante para mim. Mas no voluntariado não acho que tenha a ver com etnia.

Em relação ao activismo na escrita, o teu poema, que integra o “Erosão”, “Quando For Grande”, parece-me claramente um poema activista. Quando escreves, ponderas o impacto externo do que estás a produzir? Pensas como será lida a obra quando se desprender de ti?

Não posso calcular isso. Este poema em si, se caísse só assim era uma coisa, mas como, na verdade, o foram buscar quando ocorreu a situação no Bairro da Jamaica, ganhou outra dimensão. Várias pessoas… O Samuel Úria escreveu um artigo e transcrevia esse poema.

É inevitável lembrar-se desse poema quando situações desta natureza acontecem.

Sim, mas ele já foi escrito há muito tempo. A questão é que podemos associar a esse bairro como a outras situações que têm acontecido aqui e noutros países. Foi escrito com base numa notícia de jornal, há uns anos. Talvez agora haja um pouco menos de impunidade, mas continua a acontecer. Não consigo pensar nesse impacto porque estou a reflectir em primeiro lugar.

Estes poemas expandem-se muito no tempo. Agora estão a ser descobertos pelas pessoas, e eu estou a redescobri-los também mas já estou noutra fase. A fase em que eles estão cá é diferente da fase em que os vivi ou a fase em que tive muito tempo para meditar sobre eles. As coisas que estou a escrever agora são diferentes, se vão ser mais conscientes disso não sei, mas penso que isso é algo que nos limita. O impacto é quando é uma coisa para denunciar uma situação, se calhar para fazer pensar, mas não é tanto para isso que escrevo, é porque estou a pensar. O impacto não é decidido por mim, é decidido pelo leitor, pelas circunstâncias.


Quando for grande

Quando for grande quero ser polícia
para bater nos pais de outros meninos
em frente aos outros meninos.

O meu pai sempre me disse:
cuidado a quem dás bastonadas.
Nunca dês bastonadas a um preto
senão vão achar que és racista.
Se deres bastonadas a um branco
estarás apenas a ser polícia.

Ainda bem que não somos pretos.
Imaginem se fôssemos pretos.
Já não podia ser polícia.


Quando editaste o “Erosão” como escolheste os poemas que os integrariam?

Tinha três conjuntos de poemas diferentes. Ali tenho poemas recentes, mais antigos, outros que retirei para outro livro e há coisas de que já desisti. É como tudo, há coisas das quais abdiquei e não quero que estejam em lado nenhum e há outros que não estão no “Erosão”, não propus para o “Erosão”, mas que quero publicar. Talvez neste próximo livro, que já vai bem avançado, mas que ainda não quero largar. Estou mais focada em dois livros de crónicas que quero publicar já.

O próprio título “Erosão” tem um significado de desgaste, e como leitora, encontro uma melancolia que perpassa os poemas…

Sim, sim. Melancolia, tristeza, dificuldades.

Porém, nalguns deles, por exemplo “o Meu Corpo” ou o “2015” parece-me haver também uma ideia de renascimento, de reconstrução.

Sim… estamos a falar de ter passado por situações que me fizeram repensar a minha vida desde o início, ponderar bem cada momento e parar. Há muitas coisas que estão aí resumidas e que estarão de forma mais descritiva noutros livros.

Esses dois poemas têm a ver com uma cirurgia à qual fui submetida em 2015, um “sleeve” bariátrico, e às vezes falo nisto aqui e ali mas foi um processo muito longo, e quis esperar que ele passasse porque dentro desse processo há outros paralelos. Há uma fase hospitalar, por assim dizer, e às vezes pensamos que ela já acabou mas não acabou, mesmo depois de termos alta. Quero tratar isso com mais calma.

Há um livro ou outro. Ainda não li o da Isabela Figueiredo, “A Gorda”, mas está na lista. São coisas que vêm de experiências muito profundas, pessoais. A minha será certamente diferente da dela – terá pontos de contacto – mas queria falar nisso porque acho que não vejo esse lado a ser tão falado na comunidade negra, o que é curioso tendo em conta que a maior parte da cultura negra vem dessa importância do corpo e de como é representado; de como mais significa melhor; de tudo ser celebrado com comida farta mas não se falar desse efeito sobre o corpo.

A esse propósito, vem-me à cabeça o “Hunger”, da Roxanne Gay. Ela é uma mulher negra, obesa e lésbica que vive nos Estados Unidos, com todos os desafios inerentes a estas características, e penso que vai ao encontro do que dizes a respeito de serem experiências pessoais vividas de uma forma tão diferente…

É porque não é só aquilo. Estamos a passar por aquilo mas outras coisas da nossa vida estão a acontecer ao mesmo tempo e vão influenciar esse processo. Eu fiz essa cirurgia, fiz uma grande amizade por causa disso, com uma pessoa que tinha feito essa mesma cirurgia, e um amigo meu que não queria fazer a cirurgia, depois, já bastante tempo depois de mim, acabou por fazer, e falávamos muito sobre isto. São situações diferentes, se foste obesa a vida toda, nasceste obesa, se nunca foste obesa e chegaste a uma altura da tua vida adulta e tiveste uma tristeza tão grande que descontaste na comida.

Quero falar nisto nos meus próximos livros, depois das crónicas e do de poesia. Estou a trabalhar em três ensaios diferentes de questões que me são muito queridas. Uma delas é a questão do cabelo, ligada a questões raciais mas não será só sobre a minha experiência, um livro sobre maternidade, um aspecto específico da maternidade, e depois essa questão do corpo e do peso. Será aquilo em que me focarei depois de resolver estes que já estão escritos e têm que vir cá para fora pois não foram escritos para ficar ali.

“Estou fodida” é um poema de amor ou de desamor?

É um poema de amor não correspondido como na verdade na “Erosão” há muitos poemas de amor não correspondido. Depois há um de amor correspondido mas que terminou, que deixou de o ser. Não sei… é mesmo erosão. É desgaste, é ruína, é queda, é perder partes, ter que colmatar falhas. Há momentos em que é literal, visceral. Estamos a falar de órgãos internos: o coração, o estômago que dizem ser o nosso segundo cérebro. E tem mesmo a ver com isso, está ligado, porque essa tristeza causada por stress, situações afectivas, também influencia a maneira como nós lidamos com a nossa comida. Há pessoas que deixam de comer, há pessoas que comem as suas emoções, que foi o meu caso. Mesmo o poema que abre o livro “Raízes” é um poema de amor. Há muitos poemas de amor. Sim, sou uma apaixonada (risos) mas que não foi muito feliz no amor na grande, grande maioria das vezes e isso reflecte-se também no livro.

Depois há a questão do amor-próprio, de que estou sempre a falar, porque realmente é importante. Não foi algo que tivesse tido durante a minha vida e, quando passei por essa cirurgia, apercebi-me. Antes tinha um corpo que pode ser considerado um corpo perfeito. Não fiz nada para o ter, era o que tinha e pronto. Achava que gostava dele e depois percebi que não gostava desse corpo pois se gostasse não teria chegado ao ponto que cheguei. Mas embora preferisse não ter passado por isso, todas estas coisas de que falo no livro estão aqui. São aquilo que sou, ou parte daquilo que sou, e dão sempre boas histórias e poemas. Podem ser bons ou maus, depende da opinião do leitor.

Outra coisa que não posso deixar de abordar, e que penso ter a ver também com a questão da representatividade, é o teu projecto “Museu Pessoal”.

Isso começou por ser uma brincadeira, na verdade. A “Pietá” foi a primeira. Estava a atravessar a estrada e pensei que queria fazer uma fotografia como a “Pietá” mas com um filho branco. Depois quando tive oportunidade, agarrei no filho de uma amiga minha, a Liliana, que foi quem me tirou a foto da reinterpretação da Frida Khalo, aliás aqueles peluches são dos filhos dela, a t-shirt é do marido dela, o cigarro é dela – eu não fumo – aquela casa é a dela. Estávamos para ir à piscina mas chovia imenso e eu pensei no que iríamos fazer: “vamos fazer um quadro”. Comecei a ver os livros dela, ela estudou arte e fotografia e pensei vamos fazer este – tentei fazer um da Patty Smith mas não correu muito bem – e fizemos essa Frida Khalo. Mas começou pela “Pietá” e o filho é o filho mais velho dela, o Diogo. Quando comecei a ter muitas fotografias, algumas pessoas iam-me perguntando quando faria uma exposição, um catálogo, mas já havia muitos americanos que fazem estas coisas, que imitam celebridades, até miúdos. Quando comecei acho que não havia Instagram ou eu não tinha, e vê-se recriações inteligentíssimas, sobre as quais penso “que ideia tão boa!”. Lembro-me muito bem da primeira vez que achei que isto poderia ser algo, porque conheci um artista, o Diogo Barros Pires, director criativo do Studio Astolfi, pintor, e ele foi a primeira pessoa que me disse “mas isto é arte, tu és uma artista”. Eu acreditei e agora estamos aqui (risos).

E de facto, era uma coisa que eu fazia para me colocar no lugar do outro e também porque sempre fui muito interessada por História mas havia essa falha: eu não me via lá. Mesmo a questão do jornalismo. Via o telejornal a toda a hora, depois via o Pedro Pinto da CNN e depois eram todos jornalistas portugueses. Os jornalistas negros estavam na RTP África, ponto final.

Pietá de Michelangelo, 1498/9, por Gisela Casimiro, Museu Pessoal, 2016, Tumblr.
Eu e meus papagaios de Frida Kahlo, 1941, por Gisela Casimiro, 2016, Museu Pessoal, Tumblr.

A propósito do que falas e de forma mais imediata, há dias passou-me pelas mãos “Os Negros em Portugal”[ii], do José Ramos, em que ele aborda a falta de representatividade e relaciona-a com um certo pudor ou vergonha de Portugal em olhar para o seu passado colonialista e assumi-lo enquanto tal. Isto faz algum sentido para ti?

Hoje é 10 de Junho (risos). Se Portugal continua a glorificar o colonialismo não pode, em consciência, sentir vergonha. É preciso assumir as coisas para depois ultrapassar e reconstruir. Trabalhar a partir delas. E cada um tem o seu papel. Hoje vemos como estão as coisas pelas redes sociais. Um ex-colega de trabalho, brasileiro, estava a celebrar o 10 de Junho porque agora “é o país onde estou e vivo bem”. Ele está a celebrar isso e eu entendo. E, para outras pessoas, hoje é um dia para repensar: o que vamos fazer com este dia, com estes monumentos que ainda são sinónimo de coisas que não foram tão limpas. A celebração de uns é o luto de outros.

Fala-se muito da questão da descolonização mas eu não consigo estar tão focada nisso porque estou aqui agora. Por mais que me interesse por História, e entenda essas lutas, estou no meu tempo. Tenho dificuldades e problemas de agora, com as quais tenho que lidar agora. Foram causadas por situações de séculos atrás, é verdade. Mas não vou fazer muito com isso, a não ser que use como uma ferramenta para alterar o que está errado e criar algo novo no futuro.

Eu própria tenho que me educar, estou em constante processo de descolonização. Há muitas visões, muitas pessoas que sentem as coisas de maneira diferente da minha, e estamos do mesmo lado, não sei se é correcto dizer que são mais radicais, o que acontece quer dentro da comunidade negra quer fora. Quando conseguirmos passar essa subjectividade talvez consigamos fazer algo mais prático. Está-se a fazer muita coisa mas eu não vejo a representatividade. O pudor também existe do outro lado. Por exemplo, eu tenho determinadas ambições mas neste país não vejo pessoas da minha cor na maior parte dos sítios, então, esta ambição que eu tenho, talvez seja melhor que seja diferente: uma ambição mais dentro daquilo que é esperado de mim. Por isso é importante fazer as coisas, e ter pessoas negras em todo o lado. Cada um pode fazer aquilo que souber ou puder. Nem todas as pessoas têm a mesma ambição. Empregados da limpeza há de todas as cores mas o importante é que a pessoa faça porque está consciente: pronto, eu não estudei estou mais limitada; ou estou mais limitada mas posso fazer aquilo, também posso sonhar. O importante é que não seja porque alguém nos está a impedir, porque há um sistema feito para não termos sucesso. A partir daí cada um tem a responsabilidade sobre a sua vida. Não se pode ser oito ou oitenta. Hoje as pessoas são muito acusadas de vitimização. Não acho que seja essa a questão, mas também ninguém precisa que os outros sejam condescendentes. Quando estou nos espaços e não há negros, eu questiono-me “então, não há africanos ou negros que escrevam? que queiram ser jornalistas, fazer isto ou aquilo?”. É claro que há.

Sentes desconforto, tristeza ou surpresa?

Surpresa já não sinto. Já não me espanto. É apenas uma constatação. Sinto é que tem de mudar. Tento fazer a minha parte e quando vou aos sítios é claro que há uma tendência. Estive num festival aqui em Portugal, recentemente, onde, em termos de negros, estava eu e três pessoas de Angola. Quando chegou a hora de jantar, em vez de nos misturarmos todos, eles juntaram-se numa mesa. Eu queria sentar-me com eles mas eles escolheram uma mesa pequena, onde ficaram os três, e depois sentou-se mais um senhor. Achei que estavam a fazer uma segregação que não fazia sentido. Se queriam estar juntos podiam ter-se sentado noutra mesa onde também pudessem sentar-se outras pessoas. Mas penso que, às vezes, por toda essa memória que temos, essa coisa de estar a viver em estado de alerta permanente e não se sentir à vontade, cria mecanismos de defesa mesmo quando não são precisos. Até porque nós estamos ali, somos todos iguais, vamo-nos todos sentar e estar todos misturados. Isso aconteceu mas não sei se era por ser a primeira noite, depois as pessoas começaram a ficar mais à vontade.

Eu estaria tramada quando vou e sou a única, ou quase, o que vou fazer? Vou ficar no quarto de hotel escondida? É claro que não, tenho que misturar, estar ali, e não é sempre fácil. Também as coisas estão muito no início em termos da minha carreira, ninguém está à espera de que eu vá salvar o mundo – eu já tive essas expectativas sobre mim própria – mas do pouquinho que posso fazer versus a pouca presença que tenho tento criar algo que seja significativo. O propósito não é “eu” estar lá. É hoje estar eu e amanhã estarem mais pessoas porque elas estão aqui, têm talento, escrevem. Mas agora há uma procura – e é disso que falava ao referir-me ao “privilégio negro” – do mercado brasileiro e asiático, em que há uma apetência por escritores e literatura africana.

Julgo que no Brasil também há uma tentativa, por parte dos intelectuais, de procurar fazer justiça à cultura negra que sentem como tendo sido maltratada.

No Brasil há muito racismo mas já há consciência. Há esse assumir, o trabalhar sobre, um enfoque maior sobre estudos africanos, literatura e cultura africanas. Também em termos de activismo são mais organizados. Tanto que aqui, em muitas marchas, se não fossem os brasileiros não haveria muita expressão. Não sei se é uma questão de desinteresse, misturada com achar que não se pertence ou não vale a pena porque as situações não são feitas para nós. Mas se nós não aparecemos por nós quem é que vai aparecer?

Apesar da tenra idade com que vieste para Portugal sentes essa dualidade entre africanidade e europeidade?

Claro que sim. É algo que está em mim, não é algo a que possa escapar. Tenho uma pele. E tenho essas raízes, essa cultura. Até a questão da língua, dos meus pais, de crenças, hábitos, formas de pensar. Nunca esteve em causa a preservação disso. Aquilo que não fiz ao longo da vida, como viagens à Guiné, é algo que está para ser feito no futuro. Sempre quis ir, não tanto por uma questão de férias mas para estar com tempo. Olhar para as coisas, ouvir e ver o que encontro. Mas vou encontrar-me a mim, aquilo que já sei, aquilo que foi a minha vida inteira. Por isso é que terra é terra.

É curioso porque li uma entrevista da Isabela Figueiredo, na qual ela dizia que quando voltou a África descobriu que não era africana. Isso não me vai acontecer, eu de facto sou africana.

A minha irmã nasceu aqui, não faz questão de ir à Guiné. Nós percebemos o crioulo, comemos a comida da Guiné, ouvimos a música da Guiné toda a vida. Enquanto vivemos com os nossos pais, eles falam crioulo entre eles, com os nossos familiares. Como poderia eu isolar-me de tal forma disso ao ponto de deixar de ser a minha personalidade, a minha identidade? Não posso. Não é preciso estarmos a marcar presença num lugar. Se tivesse passado lá a minha adolescência e só depois vindo para cá seria diferente mas a minha experiência é válida à mesma porque eu venho do mesmo sítio.

Eu não tenho um conflito de identidade. Sei quem sou, sempre soube quem era, nunca questionei esse lado. Estou aqui, nasci lá. Eu não vim para cá e cresci com uma família portuguesa. Vim com os meus pais, adultos, por isso era impossível que isso não passasse para mim. A questão é qual é a minha identidade? A minha nacionalidade, que é portuguesa? É o lugar onde nasci, o lugar onde vivo? São todos? Se calhar são todos e eu não tenho que escolher. Sou uma privilegiada porque não unidimensional. Há uma frase da Maya Angelou que é “ninguém é mais ser humano que outro ser humano” e eu digo “não há um português que é mais português que outro ou um guineense que é mais guineense que outro”. Não, sou o que sou. Há coisas que não conseguimos fugir delas, estão no nosso sangue. Há coisas que são africanas e só os africanos entendem, não vale a pena. E há coisas portuguesas que entendo porque vivi aqui toda a vida mas há coisas que, entendo-as, mas não padeço delas porque não sou de uma família portuguesa. E depois há coisinhas, aquelas subtilezas, aquele filtrozinho muito peculiar que pertencem a cada sítio, a cada origem, a cada povo.

Convivo muito bem com essa dualidade. Para mim, sou só eu.


[i] INMUNE – Instituto da Mulher Negra em Portugal.

[ii] “Os Negros em Portugal – Uma presença silenciosa”, José Ramos Tinhorão, (1.ª ed. 1988, Caminho).


Pode também acompanhar o trabalho da autora na plataforma Tumblr: https://giselacasimiro.tumblr.com/

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