Sociedade

Pequim – Setembro de 2014

por Paulo Maia e Silva*

Este curto texto tem apenas por objetivo retratar algumas impressões de um diplomata, que foi colocado (temporariamente) na Embaixada de Portugal em Pequim e que procura descrever os primeiros contactos efetuados.

Duas semanas após ter chegado, resolvo visitar a Praça Tiananmen, bem como o contíguo Museu da Cidade Proibida.

Tanto a Praça como Museu só podem refletir uma grande cultura, uma grande civilização.

Após cirandar na maior praça do mundo, decido explorar o museu da Cidade Proibida. Um espaço grandioso. Contudo, alguns interiores encontram-se desguarnecidos, parecendo ao visitante que algo falta (soube mais tarde que a belíssima coleção de obras de arte, que outrora havia ocupado o seu devido lugar, foi levada por Chang-Kai-shek para a Formosa, nomeadamente para o Museu Nacional de Taipé). Porém, não fiquei minimamente dececionado, porquanto a arquitetura e o local são soberbos. Reconstituem uma época passada, garante da história milenar desta cidade e deste país maravilhosos; não constitui um acaso o facto de largos milhares de pessoas afluírem diariamente a estes locais, repletos de história, que as sucessivas dinastias legaram.

(Cidade Proibida, imagens do autor)

No fim-de-semana seguinte, resolvi explorar o mercado de Pan Jia Yuan, um mercado, onde, até há cerca de vinte anos, segundo me haviam asseverado, se podiam encontrar boas peças de coleção.

Foi o meu primeiro contacto com as pessoas, algo que não tinha acontecido na semana passada, na altura em que visitei o coração histórico da capital chinesa.

Muitas pessoas a circularem ao longo da rua, que conduz ao mercado. Essa é a “verdadeira” Pequim! Entro no mercado e começo a tirar fotografias. Há quem me olhe com alguma graça, o que se pode compreender: não é frequente ver-se uma pessoa com uma máscara (contra a poluição) como aquela que usava! No entanto, numa determinada parte do mercado, mais vocacionada para a venda de antiguidades e de pseudoantiguidades, sinto uma certa hostilidade. Algumas caras de poucos amigos. Será por estar a tirar fotografias? Não é certo, mas alguém recusa-se a que eu tire uma fotografia da loja onde trabalha ou de que é proprietário. Respeito, principalmente porque é um direito, e tendo em conta que o requerente é uma pessoa que já não é jovem; na China, como em todo no Oriente, a idade é um estatuto, sinónimo de respeito, principalmente perante os mais novos.

Uma pletora de cores. Um mar de pessoas, onde, contudo, não parece reinar um ambiente confuso. Vende-se de tudo. Pedras e todo o tipo de objetos, que nem sempre nos são familiares, a nós ocidentais, mas que nem por isso deixam de despertar a nossa curiosidade. Aproveito para tirar mais fotografias e dar azo à minha imaginação fotográfica. Exploro o momento e deixo aos sentidos a tarefa de recolherem mais impressões.

Chego a uma zona, dedicada à venda de livros: assalta-me uma pena de não ler mandarim! Pena essa que se intensifica perante a disposição de livros antigos, muito provavelmente do século XIX. Ainda é visível o respeito dedicado a Mao Zedong (“Mao-Tsé-Tung”, na grafia a que fomos habituados), o grande timoneiro. Encontram-se numerosos exemplares e edições do livro vermelho, que tanto interesse representam para um bibliófilo (mesmo tratando-se de um amante de livros, que não fale mandarim).

No meio de tanta coisa à venda, consegui encontrar alguns livros de arte em inglês…a bom preço, espero eu…num ótimo estado…! O problema foi negociar! Se não fossem as novas tecnologias (leia-se “os telemóveis”), que nos ajudam a fazer traduções rápidas!

(Mercado de Pan Jia Yuan, imagens do autor)

Viver em Pequim e circular por esta cidade equivale a viver em dois mundos, que não são distintos, pois estão a cruzar-se de forma tão pacífica como paulatina. É impossível não constatar a existência de dois mundos ou duas épocas, que convivem no quotidiano. Lojas luxuosas, e carros de alta cilindrada convivem com bicicletas, que pertencem a um tempo anterior a esta modernização tão célere quanto espetacular. Um contraste, que não deixa de encerrar uma característica positiva: apesar destas diferenças geracionais, o convívio entre pessoas mais novas e mais velhas não reflete nenhuma desarmonia. Por outro lado, a segurança não é minimamente afetada, pois Pequim é uma cidade muito segura.


* Sobre Paulo Maia e Silva

Paulo Maia e Silva tem 48 anos. Entrou para a carreira diplomática em 1998. No Ministério dos Negócios Estrangeiros, esteve em diversas Direções, entre as quais a Comissão de Limites e Bacias Hidrográficas entre Portugal e Espanha, na Cifra, no Protocolo de Estado, na Direção de Serviços da Ásia e Oceânia. Desempenhou igualmente funções na Direção Geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas. Esteve colocado em Kinshasa, Londres, México, Pequim, Díli. Atualmente, é Cônsul-Geral em Zurique.