Livros

Balzac e a “Comédia Humana”: uma longa leitura

por João Pedro Baptista

844 dias depois do seu início, a 15 de Fevereiro de 2017, chegou ao fim a mais ambiciosa empreitada de leitura a que alguma vez me propus: a leitura integral da “Comédia Humana” [La Comédie Humaine].

Não é fácil voltar a ler depois de Balzac, depois de se ter estado imerso durante tantos meses no vasto e variado universo que o autor criou e fez viver ali, em frente dos nossos olhos. Parece que já conheço algumas das personagens desde sempre; via-as e convivi com elas em tantas ocasiões, assisti aos seus sucessos e à sua decadência, às diferentes fases da sua vida. Habituei-me a uma forma de escrever inconfundível: um estilo realista, pormenorizado, por vezes prolixo, com longas e minuciosas descrições e caracterizações, de evolução lenta e assente frequentemente numa estrutura narrativa de analepses sucessivas. E rico em aforismos, em ideias expostas pelo autor sobre as mais variadas matérias. É impossível deixar de sentir uma certa sensação de vazio, quase de perda.

Muito haveria a escrever sobre este monumento literário ímpar e muito fui escrevendo, para mim, ao longo da sua leitura. Mas, neste momento, queria apenas partilhar com os estimados leitores algumas impressões e notas sobre esta obra verdadeiramente colossal, mas sem qualquer preocupação de sistematização ou completude.

Como ponto de partida importa notar que, numa obra com esta magnitude – cerca de 9.000 páginas na edição portuguesa, distribuídas por cerca de 90 romances, novelas, contos, estudos e alguns fragmentos deixados incompletos – a qualidade e o interesse não são uniformes. Mas aquilo com que me deparei foi com um nível literário excepcionalmente alto, assente num estilo de escrita de uma vivacidade, de uma verve extraordinárias, com uma atenção ao pormenor, com uma mestria e finura nos diálogos, com uma capacidade de criação de ambientes e de recorte de personagens, a todos os títulos notável.

Um dos aspectos que mais fascina em Balzac é a sua invulgar penetração psicológica, a capacidade de sondar a natureza humana em todas as suas dimensões através dos tipos que cria e que coloca em cena. Naturalmente que, descrevendo a sociedade francesa da primeira metade do século XIX, numa época de grandes mudanças sociais e económicas (rescaldo da Revolução de 1789, final do Império, restauração bourbónica e monarquia orleanista de 1830), assente num modelo já tão distante da nossa realidade, há infalivelmente arquétipos pessoais e sociais datados e cujo principal interesse, neste momento, é histórico. Ainda assim, é impressionante como encontramos na “Comédia Humana” uma galeria de personagens e de situações que, nos seus traços essenciais, continuam tão actuais como o eram à época e que, afinal, apresentam aqueles traços que são perenes na Humanidade. As relações amorosas, o dinheiro, a ânsia de poder, a inveja, o cinismo, mas também a crença no progresso, a busca da verdade, a bravura, a lealdade, tudo isso encontramos caracterizado e estudado de forma superior neste universo. Mas Balzac é um cronista tão fascinante quanto impiedoso quando se trata de vivissecar as paixões e os vícios humanos. Munido do seu escalpelo, Balzac expõe todas as camadas sociais, desde o bas-fonds do capitalismo parasitário até aos camponeses ainda enterrados no antigo regime; desde os salões aristocráticos falidos e nostálgicos até uma burguesia emergente e sequiosa de honras e poder, à província beata e entorpecida no marasmo; do torpor e penumbra das repartições públicas e corredores ministeriais ao mundo extravagante e venal dos artistas e das cortesãs; da babilónica Paris à edénica Touraine e à reaccionária Vendeia, toda a escala social é exibida. Nada escapa a Balzac, tudo lhe serve, tudo vale a pena ser pintado, dito e recreado. «Tout est vrai», como reivindica Balzac no início do Pai Goriot [Le Père Goriot].

Outro dos aspectos que sinalizam a genialidade de Balzac é a forma como cultivou, de forma consistente, uma variedade enorme de formas e temáticas literárias. Na “Comédia Humana” encontramos o romance convencional, o romance epistolar, o modelo memorialista, o estilo romanesco à la Dumas, a novela fantástica e exotérica, os grandes quadros militares, o conto moral, o ensaio filosófico, o compêndio aforístico, etc. Tudo se conjuga num todo harmonioso, pois a variedade de registos espelha bem a heterogeneidade da realidade retratada, assim contribuindo, pela própria forma da obra, para uma maior aproximação ao seu objecto.

Mas a sua grande invenção, só possível numa obra com esta extensão, é a técnica do regresso das personagens. Muitas das personagens Balzaquianas correspondem a tipos sociais, mais ou menos representativos de personagens históricas ou de ideias, que vão reaparecendo ao longo de toda a obra, em diversos estágios da sua vida, com diferentes importâncias em cada obra, mas que permitem ao autor conferir uma enorme unidade e profundidade ao seu mundo. Cada volume é uma janela aberta sobre o mesmo universo, mas segundo perspectivas diferentes; cada romance é um fragmento de um enorme e único romance, onde centenas de histórias e de destinos se entrecruzam. Os protagonistas fulcrais de um romance aparecem de forma longínqua e secundária noutros. Muitas vezes não chegam sequer a ser verdadeiras personagens, servindo o seu aparecimento apenas como elemento de uma rede ou estrutura da qual constituem um sinal ou um indício. Aos olhos do leitor, cada personagem, na medida em que reaparece noutros momentos para além daquele em que lhe surgiu pela primeira vez, parece ter uma vida própria, parece estar animada mesmo fora daquelas ocasiões em que o leitor sobre ela deita o seu olhar. A recordação que se retém do universo balzaquiano é a de um mundo a três dimensões, um mundo vivo e fervilhante.

À data, Balzac foi criticado por alguns membros do meio literário pela aparente incongruência e desordem que tal dispositivo provocava, pois que sucede amiúde que o leitor venha a conhecer determinados aspectos ou eventos da vida de um personagem por uma ordem cronológica incoerente, que uma personagem surja num romance mais nova, depois de já ter surgido mais velha ou mesmo depois de já ter morrido. Mas, como Balzac bem notou, não é isso que se passa na vida real? Com excepção daqueles que nos estão muito próximos, não é de forma cronologicamente descontínua e desordenada que conhecemos a história das pessoas? Não é muitas vezes já em momentos avançados das suas vidas que tomamos conhecimento de eventos da sua juventude? Como Balzac salienta no prefácio a “Uma Filha de Eva” [Une fille d’Ève], não se pode contar cronologicamente senão a história dos tempos passados, sistema inaplicável a um presente em movimento.

É desta forma que Balzac cria um universo vivo e quase tangível, é assim que nos transporta para aquela sociedade, para aquele mundo fictício, mas cujas personagens subsistem ainda nos seus livros, nos seus leitores, muito tempo depois dos respectivos modelos estarem mortos e porventura esquecidos.

Outros dos aspectos inovadores da “Comédia Humana” assenta na própria arquitectura da obra, que não tem paralelo na história da literatura. Num dos prefácios a uma das publicações intercalares do ciclo, Balzac apresenta-se como o secretário da sociedade do seu tempo. Toda uma sociedade da sua própria criação deveria nascer e tomar forma no seio mesmo do mundo real, erguer-se sobre as bases da autenticidade e rivalizar com aquela entre a qual e da qual surge. É nessa medida que Balzac afirma pretender rivalizar com o registo civil! Ao gizar esse universo povoado de personagens ficcionais, mas decalcadas das reais, Balzac constrói uma outra realidade, contraposta ao registo civil mas registada por si na Comédia Humana. E, com as suas cerca de 2400 personagens, poucos autores terão estado tão perto desse objectivo!

A par de personagens históricas reais, encontramos nesse universo balzaquiano figuras inolvidáveis. É o caso de Rastignac, o jovem faz a sua aprendizagem da vida, dos amores, dos mecanismos sociais e que parte à conquista do sucesso; de Lucien de Rubempré, o provinciano ambicioso chegado a Paris, iludido com o seu génio e desprovido de escrúpulos, onde qualquer leitor de Eça de Queiroz encontrará o modelo do Artur Corvelo de “A Capital!”; de Gobseck, o tenebroso agiota que, nas sombras, domina todas as grandes figuras da belle société; da infeliz Eugénie Grandet representando as consequências associadas à avareza extrema; o Père Goriot enquanto retrato do pai infeliz, vítima da ganância e ingratidão das filhas; o fascinante Vautrin, facínora de vida rocambolesca, partidário de uma ética niilista, animado de uma vontade de se colocar acima de uma humanidade vulgar e desprezível, entre muitas outras.

Mas não é apenas pela quantidade de personagens que a obra se destaca, é também pela pretensão de se constituir uma panorâmica total da sociedade, dos seus membros mas também das suas leis internas. De mostrar o que existe, mas não está à vista.

Mas este projecto ciclópico não surgiu a Balzac de forma acabada antes do início da escrita. Ele foi tomando forma no seu espírito com o avanço da sua produção literária, de início como um ideal, uma fantasia mesmo. Em “A Rapariga dos Olhos de Ouro” [La Fille aux yeux d’or], Balzac refere-se a Paris como o inferno que terá talvez um dia o seu Dante. Em 1830, depois de publicar uma colectânea de obras unificadas sob o título “Cenas da Vida Privada” [Scènes de la vie privée], começou a materializar-se a ideia de reunir todas as personagens dos seus romances e recriar com elas uma “sociedade completa”. Mas foi em 1841 que um amigo, regressado de uma viagem a Itália e talvez influenciado por leituras de Dante, lhe sugeriu um título: “A Comédia Humana”. Já não seria apenas a sociedade parisiense a ser representada, seria toda a do século XIX enquanto paradigma do género humano. No fundo, a Humanidade é a verdadeira protagonista da obra, cujos abalos, por mais leves e subtis que sejam, são registados por Balzac como um verdadeiro sismógrafo social.

Para levar a cabo o seu projecto, Balzac dividiu a “Comédia Humana” em três grandes secções: os Estudos de Costumes, os Estudos Filosóficos e os Estudos Analíticos. Na primeira e mais longa (dividida em Cenas da Vida Privada, Cenas da Vida de Província, Cenas da Vida Parisiense, Cenas da Vida Política, Cenas da Vida Militar e Cenas da Vida do Campo), propôs-se representar os efeitos sociais, isto é, pintar a sociedade tal como ela é, com os seus vícios e suas virtudes segundo cada grupo social; na segunda propôs-se analisar as causas desses efeitos, nomeadamente as consequências do estilo de vida e das opções que cada homem toma; na terceira procurou extrair as leis que regem esses efeitos, buscando as grandes sínteses que permitam captar a própria natureza humana. Trata-se de um projecto titânico, desmesurado, fruto do espírito de uma época e que culminará no projecto naturalista de Zola, com o seu ciclo “Os Rougon-Macquart”. Infelizmente, Balzac não o conseguiu terminar, tendo morrido com pouco mais de 50 anos, exaurido por um ritmo de trabalho insuportável e sempre acossado pelos credores, mercê dos catastróficos negócios em que se envolveu e dos gastos que se permitia.

Nos anos finais da sua vida, numa carta àquela que foi, porventura, o seu grande amor, a aristocrata polaca Ewelina Hańska (história que, pelo seu interesse, mereceria um artigo próprio) o grande demiurgo deixou um desabafo que resume bem o projecto a que dedicou a sua vida: «Créer, toujours créer! Dieu n’a créé que pendant six jours!»

Infelizmente, a “Comédia Humana” não está, actualmente, disponível no mercado literário português. Pelo menos em versão integral. Alguns dos romances mais conhecidos encontram-se sem grande dificuldade nas livrarias comuns, outros é necessário procurar em alfarrabistas. Com bastante persistência e alguma sorte, consegue-se encontrar a edição completa editada pela Civilização Editora entre 1978 e 1981 (16 volumes) ou volumes avulsos. No entretanto, a Relógio D’Água começou a publicar alguns títulos, embora sem garantia de vir a publicar integralmente todo o ciclo. Faço votos para que, um dia, este estado de coisas se modifique e que o público português que não queira ou não possa fazer a leitura em francês, tenha à sua disposição este monumento que tanto marcou a história da literatura universal.

“Balzac l’entomologiste”, Gustave Doré, 1855.

Bibliografia:

François Taillandier, Balzac, Éditions Gallimard, col. Folio biographies, Paris, 2005.

Owen Heathcote, Andrew Watts (Ed.), The Cambridge Companion to Balzac, Cambridge University Press, Londres, 2017.

Pierre Barbéris, Le Monde de Balzac, Éditions Kimé, Paris, 1999.

2 thoughts on “Livros

  1. Excelente súmula, João Pedro Baptista. Inolvidável experiência, essa tua, assim mergulhar num autor e sua obra! É o que amo na literatura, o mundo em que ingressamos pelo senso e a lógica da linguagem. Assim nos habilitamos a inteligir o mundo, com a palavra articulada compreender a existência, a própria, a dos nossos semelhantes, e as relações unem ou não os objectos e os fenómenos entre si. -:) Parabéns, João Pedro!

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