Ficções

Caderno de viagem. De Nairobi a Nakuru – Parte II

por Isabella Voltinhas

A minha infância foi bombardeada por imagens de África. A fome, a seca, as guerras civis, rostos de crianças esfomeadas. Foi a época do Band Aid, e o seu projecto de angariação de fundos para a luta contra a fome, com o singleDo They Know It’s Christmas?”. Quando uma criança portuguesa desdenhava o jantar, era habitual coagi-los – vá, incentivá-los – a comer tudo o que estava no do prato, lembrando-lhes, a cada colherada, todos os meninos a morrer à fome em África.

Na escola católica onde andava quando era criança, contribuíamos mensalmente, através dos missionários, com pequenas quantias para a aquisição de capulanas, destinadas a cingir o corpo de mulheres africanas e permitir-lhes, também, transportar os seus bebés. Assim demonstravam as fotografias que víamos na revista da missão. Em troca, recebíamos uma estrela dourada a adornar-nos diligentemente a caderneta. Era isto e achávamos, na nossa ignorância do mundo e da vida real, que seria alguma coisa.

Talvez tenho sido isto, penso agora, que me afastou durante tanto tempo de África. Tanta imagem de sofrimento.

De manhã, terminadas as tarefas de preparar pequeno-almoço – S. conseguiu a proeza de garantir ovos e fatias douradas para todos – lavar e arrumar loiça, desmontar tendas, enrolar colchões e tudo o mais exigido por essa actividade extenuante também conhecida por campismo, pomo-nos a caminho para conhecer algumas das pessoas de comunidade e seu modo de vida, especialmente as mulheres de uma organização feminina dedicada à angariação de fundos para a compra de tanques de água potável, inexistente na região.

M. vem ao nosso encontro e serve de ponte entre nós e a comunidade. É uma mulher firme, enérgica e risonha. Entabula conversa, perguntando-me se assisti à actuação dos dois artistas circenses, obviamente amadores, que visitaram o nosso acampamento na noite anterior. Quando lhe respondo afirmativamente, questiona-me se vi um deles a “queimar o mato”, enquanto mimetiza o gesto de enfiar uma tocha no interior das calças, entre as pernas. Quando lhe digo que sim, rimo-nos às gargalhadas. Nada une tanto aos pessoas como rir das mesmas coisas, ainda que não falem a mesma língua.

Seguimos pela aldeia, em caminhos de terra batida por entre campos onde se apanha o painço e enquanto as crianças apascentam cabras e vacas. A., bonita, feições elegantes e ombros cobertos com um manto rosa pálido a rasgar o céu azul, segue-nos com curiosidade. Só enquanto falo com ela, percebo que, bem agasalhado e pendurado às suas costas, está o seu bebé. Tem três meses, diz-me ela orgulhosa na sua voz juvenil.

As mulheres da associação mostram-nos os seus trabalhos manuais, confeccionados para angariar fundos. Antes, porém, cantam e puxam-nos para dançar no meio do terreiro, fingindo ignorância pelo nosso embaraço. São persistentes. E lá dançamos, desajeitadamente, enquanto as crianças delas, que nos tinham visitado no acampamento na tarde anterior, se riem com vontade de nós e da nossa falta de ritmo.

Compramos o que podemos, tendo de escolher com dificuldade a quem comprar. Compro um desenho, bastante ingénuo, de flamingos à beira do lago que guardo cuidadosamente no meu caderno. Achei-o bonito na simplicidade infantil do traço. É difícil recusar algo a quem apenas quer dinheiro para beber água.

Quando lhes é perguntado qual foi o critério usado para decidir quem seria a beneficiária do primeiro tanque adquirido, a J. cuja casa havíamos visitado, a resposta foi clara e simples: “era ela quem mais precisava”.

Sigo para Naivasha pensando nelas.

Vou, sobretudo, inspirada com a força e determinação destas mulheres que, relegadas para segundo plano em quase todas as questões, nesta, e noutras, suspeito, não se deixam ficar.

Apanha do painço.
A bela A. e, bem escondido nas suas costas, o seu bebé.
Os filhos de M. a troçarem de mim enquanto a mãe e eu nos ríamos.

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