No radar

Michel de Montaigne na Le Point

por João Pedro Baptista

A revista francesa Le Point costuma,frequentemente, publicar números especiais, dedicados aos grandes pensadores da Humanidade. Neles encontramos sempre uma abordagem rica e interessante sobre a figura visada, através de ensaios sobre a sua vida e obra, entrevistas com especialistas na matéria e com outros pensadores, iconografia variada e sugestões bibliográficas. Sempre cativando o leitor interessando e sem descurar o rigor informativo, mas dispensando o aparato académico incompatível com o formato de uma revista para o público em geral.

Chegou recentemente às bancas nacionais o seu n.º 25 (Junho-Julho de 2019), dedicado exclusivamente a Michel de Montaigne. Para quem queira conhecer melhor este pensador singular ou, ao invés, aproveitar a ocasião para o descobrir, trata-se, a meu ver, de uma proposta irrecusável.

Raramente algum autor é tão indissociável de uma só obra, como Montaigne. Os seus Essais fascinaram toda uma plêiade de leitores e filósofos desde a sua publicação no século XVI até à actualidade, continuando ainda hoje a constituir um manancial inesgotável de reflexão, descoberta e inspiração.

«Je suis moi-même la matière de mon livre», previne Montaigne no Avis au lecteur. Uma prevenção que é rapidamente apercebida, pois os ensaios não se definem por uma qualquer temática específica, um método determinado, uma ordem lógica. Ao invés, reflectem a personalidade fascinante do autor e o seu humanismo cintilante, a sua curiosidade insaciável, assente num cepticismo bem justificado, numa ética da modéstia, num gosto pela aprendizagem. Uma aprendizagem que não é apenas uma acumulação de conhecimentos, é também um aprender a morrer.

Para além de deitar inúmeros focos de luz sobre a obra e respectiva recepção ao longo dos tempos, este número especial explora também aspectos menos conhecidos da vida de Montaigne. Associamos normalmente o seu nome à imagem do sábio encerrado na sua torre, rodeado dos seus livros. Mas a sua vida foi muito mais rica e variada do que isso e todos esses aspectos são amplamente explorados na primeira parte da revista.

A segunda parte é dedicada aos retratos das figuras mais importantes que povoaram o seu mundo e, essencialmente, à sua obra, aos seus Ensaios. Destacaria aqui um interessante texto de Jean Balsamo (o co-editor da edição de referência na canónica Bibliothèque de la Pléiade) sobre a estrutura ondulante do pensamento de Montaigne, tal como vertido na obra; uma reflexão de Sophie Viguier-Vinson sobre o benefício da prevalência da sabedoria sobre a ciência em Montaigne e o artigo mais aprofundado de Olivier Millet acerca da forma como o novo estilo de escrita do sábio da Aquitânea suscitou reacções algo díspares aos seus primeiros leitores.

Encontramos também uma interessante secção com o testemunho e a opinião de diversas personalidades, entre as quais salientaria Madame de Sévigné, Diderot, Zola, Virginia Woolf, Orson Welles e Michel Houellebecq, a sua influência em pensadores como Pascal, Rousseau e Nietzsche ou em correntes tão marcantes como o estruturalismo. A revista termina com um útil léxico, uma cronologia e relevantes indicações bibliográficas, para quem queira mergulhar mais a fundo neste autor.

Em suma, 100 páginas de uma publicação rigorosamente a não perder e uma sugestão para a vilegiatura que se aproxima.

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