Ficções

Verificações e balanços

por Adriana Calado

Preparava-me para atravessar Chandos Street quando a vi. Reconhecia de imediato, pois anos tinham-lhe sido gentis. Seguia rodeada de quatro crianças, dois meninos e duas meninas, cada uma com um gelado na mão. A similitude de traços e parecença de guarda-roupa afastou qualquer dúvida de que os petizes fossem outra coisa que não irmãos entre si e filhos de M. Também me tinha visto. Atravessei a rua ao seu encontro.

Conhecia-a num clube de jazz em Londres, através de um amigo comum esloveno, aspirante a escritor. Na altura, passava muito tempo na capital inglesa, como correspondente de dois jornais portugueses. Escrevia sobre assuntos sociais e culturais, dava aulas de português a quem quisesse aprender e tentava escrever algo mais do que contos. Ela era aspirante a escultora e fotógrafa. Entretanto, trabalhava numa galeria de arte. Tinha um gosto estético apurado e maneiras graciosas. Alta, com longos cabelos louros e olhos castanho-esverdeados, vestia-se com elegância, sem grande esforço e com um toque boémio. Não era bonita, mas o conjunto era inegavelmente atraente.

A primeira vez que a vi, os seus movimentos e olhar misterioso, recordaram-me uma pantera. Paciente, observadora, sedutora. E ainda agora, enquanto escrevo, vejo um tal felino à minha frente, atravessando a sala com passada segura e confiante. Falava pouco e mostrava interesse por tudo o que o se passava à sua volta. Apesar de ser loura e de pele clara tinha um rosto com traços exóticos. Disse-me mais tarde que o seu bisavô materno era de origem chinesa, sendo dele que tinha herdade o desenho do rosto, em particular os olhos rasgados e pestanudos. Quando nos conhecemos melhor percebi que era sobretudo uma solitária. A sua míngua de amigos não me surpreendeu. As amizades masculinas eram limitadas por uma certa ambiência erótica, promessa realizada ou apenas sonhada. As mulheres eram rivais, divididas entre a admiração e a inveja.

Não posso dizer que fossemos amigas. Mas acabámos por nos encontrar algumas vezes, para bebermos um copo ao fim do dia e conversarmos sobre os nossos projectos. Foi durante essas conversas que me apercebi de que ela era, na verdade, uma pessoa com sonhos bastante simples, prosaicos mesmo, para os olhos e ouvidos de algumas das pessoas que faziam parte do nosso círculo, composto por aspirantes a artistas e livres- pensadores. Era curioso como isso passava sem ser notado. Talvez ela não revelasse as suas ambições ou talvez, no fundo, ninguém lhe desse importância suficiente para as descobrir. Certo é que estava longe de ser uma pessoa livre de preconceitos e uma das coisas que mais me surpreendeu foi mesmo o seu puritanismo. Dedicava-se muito mais à fotografia do que à escultura. Publicava os seus trabalhos num blogue que tinha alguma repercussão, pelo menos no nosso meio. Falou-me uma ou outra vez em estudar técnicas de design gráfico, mas a ideia não passou disso mesmo. Queria correr o mundo e mergulhar na beleza da vida. Mas ansiava também por aquilo que uma vez um tenor argentino que entrevistei em Pequim descreveu como um projecto de vida ameno: um casamento sólido, filhos e uma casa de praia. Estas ambições nunca me pareceram absolutamente incompatíveis e atribui o fel das palavras do cantor à amargura pelo final do seu casamento, agravado pelo facto de a ex-mulher ter ficado com os filhos e a casa de férias em Punta Cana.

Eu era muito jovem e aquelas tardes à conversa com M. tiveram um efeito curioso em mim, uma espécie de realpolitik da vida. Tinha começado por pensar nela como alguém original, como a sua aparência misteriosa e boémia fazia crer. Acabei por compreender que tal como eu, ela era uma rapariga à procura do seu lugar no mundo. Nada mais. Acabámos por nos afastar naturalmente. Ainda a vi numa estreia de braço dado com uma promessa do cinema alternativa britânico e na inauguração de uma instalação de um conhecido comum numa galeria perto de Liverpool (um lugar a evitar, diga-se, mesmo com a promessa de bar aberto). Cumprimentámos-nos com simpatia, mas nada restava da cumplicidade de outros momentos. Pouco depois, deixei Londres rumo à África do Sul. Na altura não o sabia (e se mo dissessem não acreditava) mas não voltei à capital inglesa durante uma década. 

E como Londres continuava bela! Só quando saí do hotel pela primeira vez para dar uma volta compreendi o quanto tinha sentido falta da cidade. Há uma noção de estabilidade e de capacidade de resistir a tudo na vida que sinto nas ruas de Londres e em mais nenhum lado. Com o entusiasmo dos casais separados que decidem dar uma nova oportunidade ao amor que os uniu fui ao encontro de Picadilly Circus, mergulhei em Oxford Street e regressei emocionada a Bloomsbury. Passei uma manhã na National Gallery, concluindo que os quadros estavam como quando os tinha visto a última vez. No dia em que encontrei M. tinha almoçado com alguns amigos em Oxford Street. Ninguém falou nela e, embora eu tenha perguntado por alguns conhecidos, confesso que não me ocorreu saber notícias suas. Aliás, nos últimos dez anos não mais me recordei da sua existência, dividida que estava entre os turbilhões do mundo e as aventuras da minha própria vida.

M. mantinha-se como sempre delicada e elegante, mas tinha perdido a aura misteriosa de outros tempos. Apresentou-me os filhos por ordem de idades e todos me cumprimentaram educadamente. Disse-me que se lembrava sempre das nossas conversas e que seguia o meu trabalho. Até tinha falado de mim ao marido. Ele tinha-lhe oferecido um exemplar do meu livro no seu aniversário, mas ela ainda não tinha tido tempo de o ler, embora adorasse as minhas crónicas no The Guardian e um ensaio que tinha visto numa revista francesa de que não se lembrava o nome. Contou-me que o marido trabalhava na City numa empresa de energias renováveis. Reconheci o nome, mas não consegui interromper-lhe o curso das palavras. M. falou do marido e das crianças com evidente enlevo e orgulho. Quanto aos seus projectos criativos deu a entender que estava muito ocupada com outras coisas. Nada me perguntou sobre a minha situação pessoal, reiterando o gosto que tinha em acompanhar o meu sucesso profissional. “É muito bom quando encontramos o nosso lugar no mundo”, disse sorridente. Concordei. As banalidades têm esse efeito: é difícil discordar delas. Trocámos contactos. Confesso, contudo, que não esperava voltar a ter notícias suas. Dois dias após o nosso encontro ligou-me com um convite para tomar chá na sua casa. Hesitei. Tinha gostado de a rever, mas a verdade é que também não estava assim com tanta vontade de reincidir no encontro. Primeiro, tentei recusar polidamente. Restavam-me poucos dias na cidade, queria ter o máximo de tempo livre e já tinha um jantar num restaurante finório a que não podia mesmo escapar. Depois perante a sua insistência e apresentação de datas alternativas, não tive outra hipótese se não ceder. Deu-me a sua morada que reconheci como sendo num subúrbio de classe média alta nos arredores de Londres e combinada a hora do encontro desligou o telefone com um “vai ser tão bom!”

No sábado seguinte, pelas 16h30m toquei a campainha da penúltima das sete vivendas que compunham o lado direito de uma rua sossegada onde se ouviam passarinhos a cantar e vozes alegres de crianças. Um homem com cerca de cinquenta anos, alto, louro e vestido com calças caqui e camisa azul, abriu a porta. Sorriu e apresentou-se. Entrámos e acenei às crianças que vieram a correr do pátio. A sala era elegante, em estilo moderno, limpo, com um ou outro elemento de originalidade, remetendo para as viagens do casal: umas esculturas de madeira que me pareceram peruanas e um alambique marroquino. A mesa estava posta para três com um serviço de chá antigo, scones e outros pequenos bolos. Estávamos ainda nas apresentações quando M. entrou vinda da cozinha, com um tabuleiro de sanduíches de pepino e um sorriso doce nos lábios. Durou apenas um segundo, talvez menos, mas não me escapou: decepção. Foi esse o sentimento de M quando viu que não tinha comparecido sozinha ao lanche. Intuí de imediato a causa do desassossego: no jogo de verificações e balanços que todos fazemos com os que nos rodeiam para termos a certeza de que estamos no lado dos vencedores na vida, tinha acabado de sofrer um revés. O seu sorriso desfez-se ligeiramente. Quando ia recompor-se, o marido, inconsciente quanto ao golpe sofrido pela esposa, agravou a ferida ao dizer-lhe sorridente: “querida, que surpresa, então não me contaste que a tua amiga é casada com o meu patrão?”

“Candy”, Julia Blackmon, série Domestic Vacations

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