Leituras

Caderno de viagem. De Nairobi a Nakuru – Parte I

por Isabella Voltinhas

Nunca tive uma quinta em África. Nunca sonhei tê-la, nem sequer vir a África. Mas, em meados de Julho, aqui estou para começar a viagem entre o Quénia e a Tanzânia.

Depois de alguns planos frustrados, finalmente decidi-me pelo continente desconhecido. Enfim, dessa imensidão só pus os pés em Marrocos e sobre este recaem dúvidas – irónicas, é certo – se será realmente um país africano.

Nairobi surpreende-me pelo frio, já não pelo trânsito caótico entre o aeroporto e a cidade, nem pela dança interminável, entre os carros, de vendedores de bananas, bacias de plástico, estendais e brinquedos coloridos ao longo do percurso. Esperam, e conseguem, ganhar vantagem sobre os demais, presos às suas bancas de beira de estrada.

No caminho, troco impressões com o motorista de táxi, a iniciativa do próprio, para ser sincera. Pergunta-me de onde sou e para onde vou. As questões costumeiras nestas ocasiões.

Ao saber da minha proveniência indaga-me sobre Cristiano Ronaldo, situação a repetir-se, amiúde, ao longo de todo o mês seguinte.

Ignorante de todos os assuntos futebolísticos, sorrio e após uma breve pausa, respondo-lhe entusiasticamente ter nascido na mesma ilha que ele. Rimo-nos do assunto. Então, pergunta-me qual será a minha primeira paragem. O lago Nakuru, respondo-lhe. Ele diz-me, então, ser a sua terra natal de onde teve de sair para a cidade à procura de trabalho. Fala-me dos flamingos e rinocerontes com saudade. Raramente regressa à terra.

A conversa muda para o sistema político, um regime presidencialista, situação que vem a revelar-se conveniente já que o meu hotel, por esta noite, situa-se junto da residência oficial do Presidente, garantia de segurança numa cidade reputada de insegura. Nas palavras do motorista, tal coincidência parece, por si só, ser uma honra.

O hotel, se é que se pode qualificar tal instalação assim, é um daqueles sítios descaracterizados e muito apreciados pela comunidade mochileira. Depois de deglutir comida barata – frango com arroz branco – também ela descaracterizada, espera-me um quarto com chuveiro moderadamente decente, onde me instalo com a minha própria mochila.

Da varanda do quarto vejo, de um lado, a avenida conducente à residência presidencial e, do outro, um bairro de lata nascido entre bananeiras. A música que de lá ecoa é animada. É sábado e todos querem dançar. No meio das bananas distingo um anúncio da mais popular cerveja nacional e antecipo que a noite será longa também para a vizinhança se esta for de sono leve.

É a primeira vez que partilho um quarto com um desconhecido e tenho sorte. K. é alemã e delicada. Deixa-me à vontade tanto quanto possível nas circunstâncias em que nos encontramos e adormeço sem cerimónias, o cansaço a sobrepor-se à banda sonora de fundo.

O dia seguinte é de partida. À entrada do hotel espera-nos um camião. Um monstro mecânico capaz de carregar a bagagem de quinze entes, os próprios, todo o equipamento de campismo necessário para os mesmos, comida, bebida, um líder de grupo, uma cozinheira e um motorista.

A escolha de assentos é cautelosa já que, à excepção de um trio de amigas acabadas de escalar o Kilimanjaro, e um ou outro casal, ninguém se conhece.

Depois de orgulhosamente arrumar o saco-cama e a mochila que apenas a arte, o engenho e a sorte me permitiram atafulhar, novata que sou nestas lides, sento-me calmamente. Almofada já atrás do pescoço, ouço a prelecção de A., o nosso líder de grupo, sobre o caminho a percorrer, regras de segurança e outras questões sem qualquer outro interesse que não da sobrevivência numa viagem grupal.

Consigo a proeza de adormecer à saída da cidade, lenta, apesar de ser domingo e já com o ruído de fundo de conversas animadas.

Acordo quando o camião pára no ponto de onde se enxerga a imensidão do Grande Vale do Rift, o conjunto de falhas tectónicas formado há 35 milhões de anos com a divisão das placas tectónicas da África e da Arábia, estendendo-se a partir da Jordânia, no sudoeste da Ásia, por todo o leste de África, até Moçambique. No Quénia, corta o centro do país criando paisagens únicas, de lagos alcalinos, ilhas espalhadas entre eles e, ao seu redor, as cordilheiras onde se encontram os pontos mais altos do continente, designadamente o Kilimanjaro, na Tanzânia. Nenhum é visível do local onde nos encontramos. Apenas uma planície inesperadamente verdejante, onde o olhar se perde, e a promessa de mistério insinuada pela longa estrada a atravessar o vale. É a estrada que tomaremos e percorreremos até ao nosso destino.

Ao chegarmos, montamos campo nas imediações do lago Nakuru e seguimos para lá.

É o meu primeiro safari.

A. nada nos diz acerca das espécies animais que podemos encontrar e o seu silêncio é sábio. Pretende evitar qualquer desilusão, conforme nos dirá à noite em roda da fogueira.

Entramos no parque nacional e seguimos pela estrada difícil. O camião, agora com os grandes janelões abertos, balança violentamente, transformando os seus passageiros em bonecos de trapo, atirando-nos de um lado para o outro pois já todos estamos de pé.

Apesar da “massagem africana”, como lhe chamam os locais, a excitação é palpável e ao avistamento dos primeiros javalis africanos, correndo pelo meio do mato com a causa erecta, ouvem-se as exclamações dos mais conhecedores: “pumba! pumba!”.

Regressado o silêncio, entre o verde e sobre a copa de uma árvore sobressai uma cabeça altiva, a da primeira girafa que vejo no seu habitat natural.

À medida que se movimenta para alimentar-se, ora escondendo-se ora reaparecendo como num jogo de escondidas, o sentimento de maravilhamento invade-me: um animal de tamanha dimensão, pescoço e pernas desproporcionais ao tronco a mover-se com tal graciosidade é um prodígio da natureza.

As zebras vão pontoando o campo com o seu padrão peculiar. Confundíveis aos olhos destreinados mas inconfundíveis entre si, cada uma irrepetível na individualidade das suas marcas.

As gazelas soltam-se e correm e até rolieiros-de-peito-lilás, com a sua plumagem multicolor, exibem-se ufanos, para meu deleite.

É um belo dia para viver, aquele em que se vê tal liberdade.

Reorientamo-nos à procura de um dos “cinco grandes”: o rinoceronte. Tão certo para A. como surpreendente para nós, ali estão eles, em manada junto ao lago, a uma distância prudente mas que nos permite distinguir, sem a ajuda de binóculos, as suas peculiares características, os contornos do seu imponente focinho e dos dois chifres nele instalado.

Atrás deles, uma nuvem cor-de-rosa flutua. São os flamingos, demasiado distantes para as minhas ânsias em vê-los em detalhe mas os rinocerontes interpõem-se como uma barreira e impedem a aproximação. Aceito os condicionalismos inerentes ao comportamento animal. Sinto-me feliz.

O sol começa a pôr-se sobre o lago.

Não há gramofone, nem Finch Hatton e o meu cabelo está encrespado do vento e da poeira. Mas, neste fim de dia, sinto que estou em África.

Rolieiro-de-peitolilás (Coracias caudata), Luísa Ferreira Borralho (2019), lápis de cor sobre poliéster
Rolieiro-de-peitolilás (Coracias caudata), Luísa Ferreira Borralho (2019), aguarela.