No radar

Berthe Morisot em Orsay

por Carla Coelho

No século XIX Paris foi palco do nascimento de uma nova escola de pintura que abalou o status quo artístico da cidade das luzes. O grupo de jovens pintores que veio a ser conhecido como “os impressionistas” esteve longe de ser recebido com entusiasmo. Arrasados na imprensa e junto da crítica pictórica, vários dos seus trabalhos foram recusados pelo prestigiado (e oficial) Salon de Paris. Um exemplo da animosidade que geraram ao quebrarem as regras clássicas da pintura então em voga, foi a crítica de Albert Wolff, jornalista do reputado Le Figaro, que, em artigo publicado a 3 de Abril de 1876, se lhes referia como um grupo de cinco ou seis alienados, um dos quais, era uma mulher. Essa mulher chamava-se Berthe Morisot.

Se o tempo veio a fazer justiça aos trabalhos de pintores como Degas, Sisley, Monet ou Pissarro, impressionistas cujo mérito é hoje reconhecido de forma entusiástica, o mesmo não sucedeu a Morisot. Nascida em Janeiro de 1841 numa família com tradição artística, a pintora foi um nome destacado do movimento impressionista, sendo uma artista reconhecida quando faleceu em 1895. Depois, gradualmente e sem explicação acabou por ser esquecida.

Para a resgatar de um olvido que não merece o Museu d’Orsay preparou uma retrospectiva da sua obra, aberta ao público no passado dia 18 e que se manterá até 22 de Setembro próximo.

Ao longo de nove salas são expostas algumas das suas obras de maior valia, onde se pode apreciar o rigor da sua técnica e a sensibilidade do seu olhar. Para além disso são exibidos alguns dos seus cadernos de notas, com reflexões sobre a sua actividade profissional, leituras e contactos com outros artistas do tempo, incluindo Stephane Mallarmé. O ambiente artístico em que cresceu, os gostos e interesses desenvolvidos e o casamento com Eugène Manet (irmão do seu amigo e colega Edouard Manet) colocaram Morisot num lugar privilegiado na vida cultural parisiense.

A artista deixou-nos mais de quatrocentos quadros. Reflectindo as limitações das mulheres artistas da época, Morisot pintou, não tanto espaços públicos, mas sobretudo a vida doméstica. Crianças, mulheres ocupadas nas tarefas diárias ou em momentos de lazer, familiares e amigos próximos, fazem parte dos seus temas recorrentes.

Bons motivos para visitar ou revisitar Paris não faltam. A todos os que cada um de nós possa ter em mente junta-se agora esta possibilidade de melhor conhecer a obra desta impressionista reencontrada.

O Berço, Berthe Morisot (1972), Museu d’Orsay
Campo de Trigo, Berthe Morisot (c. 1875), Museu d’Orsay
A lição no jardim, Berthe Morisot (1886)

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