Leituras

O Carrinho Vermelho

por Tess Eichenwald*

Ouvia mal, mas pus-me mesmo atrás da porta do quarto, que estava um bocadinho aberta. Era o que eu fazia sempre para ouvir se era daquelas noites em que a mãe chorava.

Eu já não me importava quando o pai falava mais alto, mas quando ouvia o barulho de coisas a partirem ou outras coisas a bater que eu não sabia o que eram ficava com medo. E tinha sempre mais medo quando a mãe chorava. Não gostava. Tapava os ouvidos e chorava também, mas tinha de me esconder dentro da cama. Tinha sempre medo porque nessas noites quase sempre fazia xixi durante os pesadelos. E não podia, porque já era crescido para fazer isso. Só muito poucas vezes é que o mano me deixava ir para o quarto dele. E o mano não me podia ver a chorar. Dizia que só os fracos é que choravam e que eu não podia ser fraco, porque me chamava César. Ele dizia que César era o nome de um imperador e que um imperador era uma pessoa forte, que nunca chorava.

O mano ficava menos simpático quando os amigos dele iam lá a casa. Fechavam-se todos no quarto, iam para o computador, falavam muito alto e fumavam cigarros, mas eram diferentes dos do pai. Estes tinham um cheiro diferente e eles passavam uns aos outros. Abriam a janela mesmo quando estava frio, porque o pai podia chegar a casa de repente e ficar chateado. Às vezes riam-se todos de mim, mas eu sei que ele não fazia isso de propósito. Com eles é que tinha de ser.

Eu já tinha ouvido o mano chorar uma ou duas vezes mas ele não podia saber. Eu sei que quando ele estava quase a chorar começava a gritar e batia em coisas, porque tinha medo de bater no pai. Às vezes gritava com a mãe e gritava comigo, mas mais vezes comigo. Agarrava-me pelo braço com força e apertava, mas nunca me batia. Mas eu sei que ele fazia aquilo porque não podia fazer nada ao pai. Primeiro fechava-se durante horas no quarto e depois então é que falava comigo ou deixava a porta dele aberta e perguntava se eu queria ir lá ouvir música. Isso era o mesmo que pedir desculpa, que era uma coisa que ele não conseguia fazer. Quando me chamava «meu puto» é porque já gostava de mim outra vez.

Eu gostava do pai, ele fazia-me rir, mas eu nunca sabia quando é que ele ia ficar diferente. Quando ele bebia da garrafa verde ou da garrafa que estava no móvel da sala eu já sabia que ia haver gritos à noite. Passava dos risos aos gritos muito depressa. Ficava diferente, parecia que queria brigar com toda a gente. A mãe estava sempre cansada e eu percebia que ela sabia sempre o que é que ia acontecer. Começava tudo antes do jantar. Depois o pai começava a contar piadas, mas só eu e ele é que nos ríamos. Ria-me porque era melhor assim. Quando via que mais ninguém se ria começava a dizer disparates e falava mal para a mãe. Disso eu não gostava. Mas também não percebia porque é que eles não faziam o mesmo que eu, se era mais fácil para ele não ficar chateado.

Era assim todos os dias, todas as semanas. Eu não sei se era assim com os meus amigos da escola, porque eles parecia que contavam histórias diferentes. Eu gostava de ir aos lanches em casa deles. Gostava quando eles falavam lá de casa deles. Os pais deles levavam-nos ao circo e a comer gelado ao fim de semana. Eu só tinha ido ao circo com os avós. Os pais deles levavam-nos à escola. O meu estava quase sempre a dormir quando a mãe saía comigo. Não podíamos nunca fazer barulho de manhã para não o acordarmos. Foi assim que aprendi a comer os cereais com muito cuidado. Não podia bater com a colher na taça, por isso usava a de plástico. Tinha medo de falar, de fazer barulho. O mano preferia levar uma sandes para a escola dele. Dizia que aquilo eram regras de gente doente, que o velho não mandava nele e que não podia ser tudo como ele queria. A mãe pedia-lhe para ter calma, mas o mano virava-lhe sempre as costas e saía.

Eu tinha cinco anos. Com cinco anos eu ainda não sabia ler. O pai, num dia bom, disse que me ia ensinar e comprou-me um livro. Quando eu falava nisso ele dizia que não tinha tempo. Eu ia vendo os desenhos e inventava eu a história. Houve outro dia em que ele disse que me ia levar ao Jardim Zoológico para ver os bichos e eu fiquei contente, porque os meus amigos todos já tinham ido, mas nunca tinha tempo. Eu não podia pedir muitas vezes para ele não se chatear. O pai mesmo quando estava bem parecia que era de vidro. Era preciso ter muito cuidado, porque ele mudava muito depressa. Ficava logo mau. E depois as coisas más aconteciam e a culpa era minha. Porque eu o tinha feito ficar chateado. Ou porque ele tratava mal a mãe. Ou porque chamava nomes ao mano e dizia que o matava. Ou dizia que era estranho nós só sermos parecidos com a mãe. Ele dizia isto porque todos tínhamos cabelo encaracolado como a mãe e o pai tinha cabelo liso. Eu não percebia porque é que isso o aborrecia. A D. Amélia do 2º fte dizia que eu já era grande, que eu era um homem, que eu tinha de ser forte, que eu tinha de ajudar a mãe, por isso eu tinha que fazer com que todos lá em casa estivéssemos bem.

No dia de anos do pai eu fiz um desenho. O carro do pai era antigo e vermelho. O pai dizia que o carro era uma lata, mas eu gostava do carro porque parecia o Faísca McQueen. Mas para ele ficar contente fiz um desenho do carro preferido do pai que tinha um quadradinho amarelo com um cavalo lá dentro, gastei a caneta vermelha quase toda. Nessa noite o pai pôs o desenho em cima da mesa e o copo lá em cima para não estragar a mesa. Mas estragou o desenho do cavalo que levou muito tempo a fazer. Não percebi porque é que ele fez isso, porque era o carro que gostava mais. Eram estas coisas do pai que me faziam vontade de chorar. Faziam-me dores na garganta e ficar cheio de tosse.

Nessa noite fiquei com medo até de fazer coisas boas. Porque foi uma noite daquelas más. Depois dessas noites a mãe puxava sempre o cabelo mais para a frente. Tapava muito a cara. Usava manga comprida mesmo quando estava calor. Pintava-se muito. O mano dizia muitas asneiras. Chamava nomes ao pai. Não percebia porque é que gostava dele. Não percebia nada. Não percebia porque é que as mães dos meus amigos não andavam tristes. Falavam muito bem comigo. Perguntavam muitas vezes se eu estava bem. Tratavam-me bem. Eu ia a festas em casa deles e era tudo diferente. Nada era como lá em casa. Eles dançavam. Às vezes cantavam. Riam-se em grupo. Os meus amigos não andavam sempre com medo. Eu tinha sempre medo.

A mãe parecia um robot. Fazia tudo como as máquinas. Passou muito tempo assim, andava sempre triste e a esquecer-se das coisas. Uma vez levou-me à escola e reparou que eu ainda tinha o casaco do pijama e quando reparou chorou muito. Tivemos de voltar a casa. Para mim não fazia mal. Mas achei que a culpa foi minha. Não percebia nada do que se passava. Também se esquecia do meu almoço às vezes, mas não fazia mal. Eu só não a queria ver triste.

Os avós iam-me buscar nesses dias. Nos dias em que a mãe se esquecia das coisas. Queriam ter-me sempre ao pé deles. Só me mandavam ir brincar lá para dentro ou ir ver televisão quando falavam da mãe. E do mano. E do pai. Eles não gostavam do pai. Eu às vezes também não. Quando conseguia ouvir alguma coisa atrás da porta era que a Fátima tinha de sair dali, que não era normal, que não podiam deixar aquilo continuar. Que alguém tinha de fazer alguma coisa para parar o Vasco.

Passaram muitos dias todos iguais. Era como se fosse inverno e noite lá em casa todos os dias. Ninguém estava contente, mesmo quando a mãe se esforçava por fazer um bolo. Ou para cozinhar alguma coisa especial. Porque parecia que havia nevoeiro dentro de casa. O pai não mudava. Até começou a ficar mais vezes em casa. Estava sempre frio, porque já não podíamos ligar tantas vezes o aquecedor. O mano às vezes ficava uma noite fora de casa, só que isso ainda era pior. Porque depois éramos só os três e o pai ainda tinha menos travão. Gritava mais alto, mandava-me para a cama e assim ninguém tomava conta da mãe.

Perto do dia em que ia fazer seis anos, as coisas ficaram um bocadinho diferentes. A mãe chorava menos. Parecia que tinha uma armadura. Parecia que os gritos já não a deixavam como dantes. Parecia que tinha crescido, que estava maior, apesar de estar cada vez mais magrinha.

Foi ela que naquela noite me mandou deitar e ela nunca fazia isso. Foi ela que encheu o copo do pai, e ela nunca fazia isso. Falou alto com o pai e ela nunca fazia isso. Ouvi estaladas, ouvi gritos, ouvi coisas a partirem-se. O mano não estava em casa. Eu escondi-me. Tapei-me. Puxei o cobertor até cima. Tapei a cabeça até ficar cheio de calor. Até me custar a respirar por estar tão tapado. Mas fiquei ali. Ouvi o pai sair de casa e fiquei mais calmo. Continuei ali sem me destapar. Adormeci.

Acordei já destapado, mas com a avó sentada na minha cama a dizer que eu não ia à escola. A avó estava a sorrir. Ia almoçar com ela e o avô. Disse que a mãe tinha saído muito cedo porque tinha coisas para tratar. Mas para eu não ficar triste porque ela vinha jantar comigo. O avô estava lá fora à minha espera. Tomei o pequeno-almoço. Cereais na taça de louça. Bolo. Até um chocolate. Nunca comia chocolate de manhã. Estavam os dois bem-dispostos. Parecia que havia mais sol lá em casa. Ficámos só na cozinha, porque na sala parecia que havia vidros partidos e eles não me quiseram deixar ir lá ver, para eu não me magoar.

Fomos ao jardim zoológico. Tirámos fotografias. Fomos ao reptilário, a avó não queria, mas fizeram-me a vontade. A avó e o avô falavam ao ouvido um do outro. Só ouvia que o importante agora era a Fátima e os miúdos, que eram eu e o mano. Ouvi também dizer que tinha sido o melhor. Que era uma coisa que eles diziam muitas vezes. Mas não sabia o que é que estavam a dizer.

Quando cheguei a casa a mãe e o mano estavam lá à minha espera. Quis perguntar pelo pai, mas fiquei calado. A mãe tinha comprado pizza. A sala estava limpa. A casa cheirava bem. A mãe abraçou-me, ela tinha estado a chorar. Disse que eu amanhã não tinha de ir. Perguntei se não tinha ir à escola. Ela disse que não estava a falar da escola. Deu-me um beijinho na testa. Jantámos em casa com os avós. E a seguir a mãe foi-me deitar. Não disse nada, esperei que ela falasse e dissesse porque é que o pai não estava lá em casa. Olhou para mim, parecia que ia dizer qualquer coisa. Sorriu e disse que tínhamos de pensar na minha festa de aniversário. Disse que íamos convidar os outros meninos da escola. Perguntou onde é que eu queria ir. O que é que eu queria fazer. Abraçou-me, deu-me beijinhos e apagou a luz.

Estava tudo diferente. A luz e as cores estavam diferentes. Parecia quando olhamos para o sol e depois fechamos os olhos. Não fica escuro. As paredes, o tecto, até a mãe parecia que tinham brilho. A mãe estava com um vestido cheio de flores que eu nunca tinha visto. Estava com o cabelo penteado para trás e já não tinha medo de mostrar a cara. A mãe era mesmo linda, mas antes não se via bem.

Foi só dias mais tarde que se sentaram comigo e disseram que o pai não ia voltar. Que gostava muito de mim mas que já não podia voltar. Que ele me ia ver sempre e tomar conta de mim, mas que eu já não o ia ver mais da mesma maneira. Que era uma estrelinha. Que estava no céu. Que me estava a ver. Disseram várias coisas. Fiquei triste e contente ao mesmo tempo. Triste porque estava quase a fazer anos e queria que ele estivesse comigo. E porque eu ia aprender a ler e ia ler o livro que ele me tinha dado. Mas fiquei contente porque estava tudo diferente. Lá em casa tudo tinha mudado. Eu já não tinha medo. Não tinha vergonha. A culpa já não era minha. Não tínhamos medo de falar. Já não dormia todo tapado com medo. Já era como os meus amigos. Mas pensava no pai. Muitas vezes. Talvez fosse melhor assim. Ele vivia nas fotografias lá de casa. Nos meus desenhos. E quando aprendesse a escrever ia escrever-lhe uma carta.

* Sobre Tess Eichenwald 

“Gosta de escrever sobre tudo o que vê, ouve e pensa. Contemplativa, não é muito faladora.”