Livros

O Maravilhoso e o Monstruoso em “Bomarzo”, de Manuel Mujica Láinez

por João Pedro Baptista
Manuel Mujica Láinez (© Sara Facio,1969)

Quem leia o Bomarzo sem atentar ao seu autor pode ficar surpreendido com o facto de se tratar de uma obra literária escrita por um autor latino-americano, lançada em 1962, isto é, no mesmo ano que “Rayuela” (ou “O Jogo do Mundo”, na edição portuguesa da Cavalo de Ferro), de Julio Cortázar, uma das obras mais significativas e influentes do boom latino-americano da segunda metade do século XX. De facto, Bomarzo está muito longe dos experimentalismos formais de autores como Julio Cortázar ou da inscrição na estética do chamado realismo mágico, que se tornou uma espécie de rótulo para quase tudo o que foi produzido na América Latina por essas décadas e que se pretendeu filiar nas obras de Juan Rulfo ou de Arturo Pietri, consoante o genealogista.

Manuel Mujica Láinez nasceu e cresceu em Buenos Aires em 1910, numa família aristocrática e com raízes nas chamadas Famílias Patrícias que, no início do século XIX, estiveram ligadas ao movimento independentista argentino. Mas a parte mais importante dos seus anos de formação foi passada na Europa, designadamente em Paris e Londres, onde se familiarizou com os grandes clássicos da tradição europeia. No seu regresso à Argentina, em 1932, tornou-se crítico cultural e artístico no jornal La Nation, tendo sido a partir desse momento que a sua carreira literária ganhou expressão.

Em termos literários, a sua primeira fase criativa centrou-se no imaginário de Buenos Aires, na chamada Saga Porteña, publicada na segunda metade dos anos 50, onde evoca o mundo da aristocracia argentina e onde pontua uma perspectiva considerada decadente. Mas já aí se salienta o uso de um estilo de linguagem cultivada e elegante, bem como o gosto pelas temáticas históricas, tanto argentina como europeia.

Mas foi a fase universalista que o consagrou. Considerando esgotada a temática argentina, Láinez interrompeu a produção ficcional durante cerca de cinco anos, tempo que dedicou a escrever crónicas das viagens que foi fazendo pelo mundo e que foi publicando na “La Nation”. E foi a experiência destas viagens e o estudo da história e da arte que foi aprofundando, que o levou a escrever um conjunto de romances históricos passados na Europa, na época medieval e no Renascimento. Os títulos que mais se salientam nessa fase são precisamente o Bomarzo (1962), “O Unicórnio” (1965) e “O Labirinto” (1974).

Foi em 1955 que, pela primeira vez, Mujica Láinez tomou conhecimento da existência de misteriosas esculturas sitas num quase desconhecido jardim italiano. Foi em 1958 que visitou, pela primeira vez, as monstruosas estátuas de pedra do Bosco Sacro, sito na localidade de Bomarzo, algures a meio caminho entre Florença e Roma e que actualmente tem o nome de Parco dei Mostri. Como todos aqueles que visitam um tão perturbador local, terá ficado vivamente impressionado com as monstruosidades que ali encontrou, o que despertou o seu interesse pela figura do Duque Pier Francesco Orsini (1523-1583), que o idealizou e mandou construir em 1552.

Orsini foi um condottiero e patrono das artes e Duque de Bomarzo. Depois de herdar o ducado de Bomarzo pela morte do seu pai e graças à intercessão do Cardeal Alessandro Farnese (futuro Papa Paulo III) e de ter casado com a irmã deste, Giulia Farnese, dedicou-se à carreira militar entre 1545 e 1557, após o que se retirou para o seu palácio, em Bomarzo, onde se rodeou de escritores e artistas. A sua imagem foi imortalizada por Lorenzo Lotto, no quadro “Ritratto di giovane gentiluomo nel suo studio” (ca. 1530).

A escrita do romance “Bomarzo” foi precedida de vários anos de investigação e redacção, tendo culminado numa obra longa e complexa, mas sumamente fascinante.

O romance é constituído pelas memórias póstumas de um nobre italiano da Renascença, o mesmo Pier Francesco Orsini do Bosco Sacro, escritas mais de 500 anos após o seu nascimento. Para além de nos apresentar um riquíssimo panorama da Itália Renascentista, com os seus complexos jogos políticos e religiosos e a convivência entre o florescimento artístico, cultural e humanista e uma mentalidade em que a violência e o crime eram ainda vistos como algo de natural («cresci numa atmosfera onde o crime era tão natural como a façanha bélica e os casamentos lucrativos» p. 178), o Autor traça um complexo quadro psicológico do Duque Orsini (Vicino, como é conhecido familiarmente) e da sua crescente ambiguidade moral.

Ao longo do romance vemos desfilar todo um cortejo de personagens ilustres, como Benvenuto Cellini, Paracelso, Cervantes, Michelangelo, Carlos V, Catarina de Médicis, bem como uma miríade de personagens históricas, que permitem reconstituir o contexto social em que a acção se passa.

Porém, a Veneza dos Doges, a Florença dos Medici, a Roma dos Papas da Renascença, os artistas e escritores da época e mesma as batalhas como a de Lepanto, não são apenas um pano de fundo para o romance ou um simples acumular de erudição visando uma apresentação novelística da História. Pelo contrário, todo esse contexto desempenha um papel fundamental na caracterização do próprio narrador e na exploração da sua complexidade psicológica e das contradições da sua personalidade amaldiçoada.

Embora baseado na figura histórica do Duque Pier Francesco Orsini, o narrador de “Bomarzo” difere em muito aquilo que se conhece da história do condottiero. A sua caracterização fisionómica – fisicamente frágil, coxo e com uma corcunda – e o seu enquadramento familiar como filho segundo, desprezado pelo pai e abusado pelo irmão, estão na base de um desejo desesperado de superar as suas deformidades físicas e psicológicas e, ao mesmo tempo, de deixar a sua marca no mundo, moldam uma progressão moral assente em permanentes contrastes e a corporização de uma contradição insanável, traduzida no paradoxo de ser e não ser, simultaneamente, um ser privilegiado. É nessa medida que nele convivem um carácter permeado pela depravação moral, desespero, vingança, inveja e manipulação com atributos de fragilidade, vulnerabilidade, apurada sensibilidade estética e uma desarmante honestidade na intenção de nada omitir da sua narrativa, por mais que isso se possa reflectir negativamente na sua imagem.

Este é também um romance também sobre a busca da vida eterna.

Com efeito, logo de início o narrador Orsini dá-nos conta de ter nascido com uma predição astrológica de imortalidade, o que vai ser um elemento decisivo no seu percurso moral e no desfecho do romance. Mas é essa a explicação do facto singular de estas memórias estarem a ser contadas pelo seu protagonista 500 anos após o seu nascimento. Mas este dispositivo ficcional alicerça também aquele que é, porventura, um dos traços mais interessantes da obra: a identificação entre o narrador Orsini e o autor Láinez, que vários estudiosos têm sublinhado. Não quero aqui desvendar nada do enredo que possa diminuir o interesse pela leitura do livro, pelo que direi apenas a abertura do romance e o surpreendente final permitem extrair esta conclusão. A grande impressão que a visita ao Bosco Sacro imprimiu em Láinez e os estudos que depois desenvolveu tê-lo-ão levado a uma identificação com a personagem obscura e ambígua de Pier Francesco Orsini. Com efeito, esta personagem permite-lhe sondar, de forma subtil, os mistérios da criação artística e que culmina na criação mais enigmática, cativante e desafiante que é a própria fusão do artista com a sua obra, numa afirmação pujante da virtualidade da literatura para ser simultaneamente uma ficção consciente e uma realidades construída que nos seduz e submerge. Uma das dimensões em que a profecia de imortalidade feita pelo horóscopo a Orsini concretiza-se na própria escrita, por Láinez, das suas memórias e na ambiguidade paradoxal dessa ideia do criador como a continuação da sua criatura.

Escrito numa linguagem cultivada e quase barroca, exibindo uma real erudição, não se trata de um livro de leitura fácil (nem curta, pois tem mais de 600 páginas, em letra pequena e mancha compacta). Tem de ser lido com tempo e concentração, de forma a saborear cada passagem.

Após o seu lançamento em 1962, “Bomarzo” proporcionou a Láinez o Gran Premio Nacional de Literatura da Argentina, em 1963 (partilhado com Julio Cortázar, por “Rayuela”) e o Prémio John F. Kennedy Prize em 1964.

“Bomarzo” serviu também de inspiração à composição de uma Cantata para narrador, tenor ou barítono e orquestra de câmara, com música do compositor argentino Alberto Ginastera (1916-1983) e letra do próprio Mujica Láinez, a qual foi estreada em Washington em 1964. Posteriormente, Ginastera haveria de reformular a Cantata e transformá-la numa ópera completa, em dois actos e quinze cenas, também com libretto de Láinez. A ópera foi igualmente estreada em Washington, em 19 de Maio de 1967, no Lisner Auditorium e dirigida por Julius Rudel, depois de ter sido proibida a sua apresentação na Argentina, no prestigiado Teatro Colón em Buenos Aires, pelas autoridades ditatoriais daquele país, a pretexto das suas ostensivas referências sexuais (note-se que Ginastera descreveu-a como um “melodrama gótico de sexo e violência”) mas, mais plausivelmente, pelo seu conteúdo de subversão da ordem, aspecto com que as ditaduras dificilmente sabem conviver. Só em 1972 as autoridades argentinas haveriam de permitir a estreia desta obra na pátria dos seus criadores.

Infelizmente, a obra não tem sido presença frequente nos teatros de ópera nem no acervo discográfico disponível. Isto apesar da inventividade e do colorido da sua escrita orquestral, com recurso a uma linguagem situada entre o serialismo e o dodecafonismo schönberguiano, plena de cromatismos mas sem perder o fio melódico e do emprego, no plano da estruturação e organização do discurso musical, de formas antigas como as villanelle (forma musical nascida na Itália de meados do século XVI, usada em música vocal secular, predominantemente em canções de carácter rústico e satírico), as musettes (forma musical próxima da gavotte, onde o baixo é normalmente assegurado por uma gaita de foles) e os madrigais (composição vocal de origem italiana para várias vozes, em polifonia, usualmente sem acompanhamento e incidente sobre textos seculares). Não se trata de uma obra de fácil apreensão, pois exige algum conhecimento ou habituação a uma linguagem musical com sonoridades pouco confortáveis no plano harmónico, o que, porventura, terá contribuído para que fosse raramente representada.

Mesmo o panorama discográfico não permitia, desde há muitas décadas e até 2016, a descoberta e fruição desta obra. A situação só mudou com o recente lançamento em disco compacto, pela Sony Music Classical, da gravação em estúdio dirigida por Julius Rudel em Junho de 1967, com um elenco praticamente idêntico ao da sua estreia absoluta.

Em suma, uma obra infeliz e injustamente pouco divulgada, mas que cumpre conhecer e fruir. Fica o convite à sua leitura, quem sabe aproveitando a proximidade da Feira do Livro de Lisboa.

Para fechar: um livro destes impõe uma tradução de grande qualidade, que preserve a beleza e a sofisticação da linguagem. E encontrou-a na magnífica tradução de Pedro Tamen, para a edição da Sextante Editora (2010).

Referências:

Edição do “Bomarzo”: https://www.sextanteeditora.pt/produtos/ficha/bomarzo/4042771

Edição discográfica da ópera “Bomarzo”: http://www.arkivmusic.com/classical/album.jsp?album_id=2210997#review

Imagem em destaque: Bosco Sacro (© Alessio Damato)

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