Ficções

Inês de Marvila

por Isabella Voltinhas

Rua do Açúcar

Inês nasceu e sempre viveu em Marvila. Não conhecia outra vida que não a do bairro. Vivia com a mãe, na Rua do Açúcar, numa casita pintada de azul-pavão para disfarçar as rachas e sinais de humidade. Do pai sabia que tinha trabalhado, em rapaz, na moagem na Manutenção Militar até ao fim da Guerra do Ultramar, muito antes de, já perdido na vida, a mãe de Inês o encontrar e dar-se o acidente de engravidar. O seu nascimento coincidiu com o desaparecimento do pai. Ainda mais perdido no mundo lisboeta nos anos 90, onde não tinha lugar, embarcou para outros mundos, também incertos mas pelo menos novos. Era o que lhe dizia a mãe. Inês, talvez por isso, detestava o mar. Tinha-lhe levado um pai e coisa boa não lhe traria.

Entre o trabalho em part-time num supermercado na Belavista, os domingos ajudando a mãe na Feira do Relógio, os passeios pelo centro comercial com o Joka, idas à Paragem quando lhe apetecia uma imperial bem fresquinha, assim passava Inês os dias.

Era tempo de caracóis e Santos Populares. A sede do Joka aumentava e, com ela, as idas ao snack-bar. Não que Inês se importasse. Joca era uma criança grandalhona. O que ela se ria quando ele e os amigos do jiu jitsu, depois de entornadas umas litrosas, levantavam a t-shirt para comparar peitorais. Nessas alturas, o seu Jokinha exibia a sua melhor habilidade: mexia cada um dos peitorais à vez, muito depressa, muito depressa, até Inês se afogar de riso. Depois, levava-a a casa, iam de mãos dadas e o Joca, toldado pelos vapores etílicos juninos, fazia-lhe juras de amor atabalhoadas e garantia, enquanto agarrava na mão dela entre as suas, enormes, que ela seria a marchante mais bonita a pisar a Avenida. Pouco acreditava nele, conhecedora da inconstância destes arrebatamentos, mas sabia-lhe bem ouvi-lo.

Agora, entre o trabalho, a feira, o Joka, Inês ainda tinha os ensaios da Marcha. As horas de sono diminuíam, mas também isso não lhe pesava. Adorava cantar e dançar. Agarrava-se àquele mundo que a mãe tanto gostava e que, mais cedo do que tarde, desapareceria. E ria-se das mudanças no bairro. As cervejarias gourmet, os petiscos finórios, as lojas de móveis onde iam casais, vestidos de igual, à procura de porcarias como as que avó tinha, agora a preços exorbitantes. Até turistas! Só uma coisa tirava, de quando em vez, o riso a Inês: o pensamento de que essa gente começasse a cobiçar a casita azul-pavão onde sempre tinha morado.

Domingo, mais um dia de feira. De há uns anos para cá passara para a Avenida Santo Condestável, mas ainda assim suficientemente longe do colégio dos meninos finos. Logo de manhã, enquanto a mãe carregava as caixas para fora da carrinha, arrumava as hortaliças com todo o cuidado. Primeiro as folhagens. As alfaces, lisas, frisadas, roxas; as acelgas para o colorido; as couves, intercalando as mais escuras e as mais claras com a roxa, mais um pouco de cor com as cenouras e rabanetes, depois as mogangas, as meninas, as porqueiras e as aboborinhas e agora, que era tempo delas, as alcachofras. O raio das alcachofras. Não eram feias, é certo, com aqueles reflexos esmeralda, mas tão difíceis de arrumar! Pareciam pinhas a rolar teimosamente para o chão. Por mais que se esforçasse não dava conta daquilo. Acabava por amontoá-las o melhor que conseguia e, olha, fosse à vontade de Deus. Assim como assim, não percebia como se podia comer aquilo.

A manhã passava rápido, ainda mais quando Inês se entretinha a conversar com a clientela. Havia os do costume mas havia sempre outros, caras novas com bocas perguntadeiras, e gostava de lhes satisfazer as curiosidades, principalmente quando elogiavam a banca. Aí o peito enchia-se-lhe de orgulho, e o da mãe também. Era uma das mais vistosas da feira.

A meio da avenida e da feira estavam as roulottes de comes e bebes onde por volta do meio-dia já a fome apertava para os madrugadores. Comiam-se entremeadas, sandes de courato, moelas e bifanas.

Na roulotte da “Lulu”, onde ia aos couratos, trabalhava Pedro. Inês não conseguia deixar de olhar para ele. Não pertencia àquele lugar. Dizia ser açoriano, da Horta, pescador por nascimento e vocação, mas a pele branca, a transparecer-lhe as veias, e os olhos amarelos pareciam dizer o contrário. Só o sotaque cerrado, ainda mais pronunciado quando contava histórias do mar, mostrava a verdade.

Um azar e, diziam as más-línguas, as drogas, tinham-lhe dado cabo do negócio de peixe que tinha na ilha. O negócio foi com os porcos. E Pedro sovava os couratos na grelha, como se se vingasse das suas desventuras, nos ditos.

Inês bem via, quando lá ia, que ele, mesmo de cara fechada, gostava de conversar com ela. Nesse dia, quando lhe entregou a sandes de courato, olhou para os peixinhos com que Nela lhe tinha embelezado as pontas das unhas de gel escarlate, e perguntou-lhe se gostava do mar. Inês não queria mentir mas também não estava para se explicar. Limitou-se a encolher os ombros e dizer-lhe que nunca tinha sequer molhado os pés no mar. Isto era verdade.

Os olhos de Pedro esbugalharam-se. Então disse-lhe, num rompante que o surpreendeu, que pelo São Pedro, o seu padroeiro, a levaria a ver o mar. Inês sorriu e nada disse.

À noite, cansada, sentou-se à mesa para jantar com a mãe. Amélia, tagarelando, pôs-lhe à frente um prato fumegante de cavalas e batatas cozidas com orégãos. Ao lado, uma travessa de alcachofras com molho de manteiga. Tinham sobrado da feira e na casita azul-pavão não se permitia desperdício. Do mar e da terra, era tudo o que Inês menos gostava. Franzindo o nariz comeu silenciosamente enquanto a mãe papagueava as novidades trazidas da feira.

Já deitada na cama, pés a latejar de tanto trabalho e bailarico, Inês olhava para o tecto e pensava nos olhos amarelos de Pedro e como brilhavam quando falava do mar. Demorou a adormecer, não sabe se de tanto pensar em Pedro ou se pelo raio da alcachofra cujo amargor não lhe saia da boca.

A véspera de São António chegou e Inês desfilou. Vestida em rosas, vermelhos e dourados, Avenida a baixo, marchava como um soldado pela sua Marvila. Joka, esse que jurara que ela seria a mais bonita, não estava lá para a ver. Soube depois, que agora parava pelo Beco da Mitra, enrabichado pela Soraia, e a aspereza da alcachofra veio-lhe de novo à boca. Mas Inês não viera a este mundo para sofrer. Engoliu, em seco as lágrimas, as memórias do Joka e o sabor da alcachofra e sorriu a noite toda.

Foram-se sucedendo os dias, os domingos de feira, as sandes de courato e as conversas com Pedro sobre as suas aventuras a ver golfinhos e baleias enquanto navegava os mares dos Açores. Inês nem imaginava o que seria ver uma baleia.

O São João passou, e também se sucediam os saltos à fogueira, os balões, as sardinhas e as alcachofras com manteiga. Começava a comê-las com certo gosto apesar do amargor e estranho peso que lhe deixavam na boca do estômago.

No dia de São Pedro, Pedro esperava-a, como prometera, à porta da casita azul-pavão. Estava menos conversador mas feliz. Enquanto viajavam de barco para o Montijo, estendeu-lhe a mão, que Inês apertou enquanto olhava para o rio. Pela manhã, o rio parecia o mar, estava brilhante, como os olhos de Pedro.

Inês viu a procissão fluvial com deslumbramento. Todos aqueles barquinhos enfeitados, ladeando o principal que carregava o Santo! Que beleza! Ao anoitecer, a Avenida dos Pescadores estava toda iluminada. Comeram sardinhas com broa e pimentos, depois farturas na roulotte “Royal”. Dançaram no bailarico. Inês ria e rodopiava, rodopiava na sua saia branca até ficar zonza e ter que fixar os seus olhos nos de Pedro para recuperar o equilíbrio.

Já a lua ia alta como um balão, quando Pedro a conduziu do bailarico para fora e levou-a para junto do rio. Abraçou-a, com os seus braços transparentes, e Inês sentiu as alcachofras bailarem dentro do seu estômago. Sem que soubesse como, os lábios de ambos tocaram-se muito levemente, uma insinuação de um beijo. Os dele sabiam a farturas e os dela a alcachofra.

Pensou que o tempo tinha parado até Pedro falar. Tinha uma coisa para lhe contar, disse ele excitado, voltaria ao mar. Arranjara trabalho num cargueiro e partiria em breve para conhecer o mundo. Finalmente largaria os couratos para viver outra vez os seus sonhos.

Inês parou de respirar, apertando-lhe a garganta, o sabor amargo da alcachofra subiu-lhe à boca. Quando a abriu para mentir a Pedro, inventando palavras felizes, dela brotou uma alcachofra em flor.

Um cardo grande, de flor lilás vibrante rodeada de brácteas esmeralda. Era o coração a sair-lhe pela boca. Tinha florido pela primeira vez e agora caía-lhe aos pés.

Inês, no seu pasmo, não falou.

Não chegou a molhar os pés no mar, mas o mar chegara a ela. O mar o trouxe, o mar o levou.

Procissão Fluvial (©SCUPA)
Festas de São Pedro no Montijo (©Setúbal Mais)
Flor da Alcachofra

(Imagem em destaque: Shutterstock. As demais imagens sem menção de quaisquer direitos, são da autora)

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