Leituras

Para longe daqui

por Antónia Sá

Sacana… O falinhas-mansas levou-me à certa. E eu cheia de sentimentos de culpa, a achar que abusava dele, do carinho dele, do amor que tinha por mim…

O amor que tinha por mim…certo…É isso Luísa. Nem se aguenta…

O parvalhão! Nem giro é…Fui eu que fiz dele, o que ele é hoje. Aquela roupa manhosa que usava; as fraldas da camisa que não encaixava nas calças, com o umbigo sempre à mostra e a estúpida frase da “água de colónia é para maricas”. Camelo!

Mas está tudo certo. Eu sobrevivo.

Não farei cenas. Detesto isso. Nem ele merece.

Amanhã quando entrar em casa, logo lhe direi.

*

M – Não foi isso que eu te disse…

H – Como não foi?! Ainda percebo bem o português…

M – Sim, a mim é que não.

H – Lá vamos nós outra vez…

M – “Lá vamos nós outra vez”…é preciso ter nervo…

H – Nervo?! Nervo tens tu em cada resposta que me dás, em cada bom dia que me dás, que mais parece que me estás a mandar morrer longe.

M – Tu sabes lá…Para perceberes isso, era preciso que me ouvisses.

H -Ah claro, agora sou eu que não te ouço.

M – Não, não ouves! Pelo menos, tudo o que te digo, não ouves! Ouves só parte. Aquilo que te interessa, para depois me poderes devolver pelo correio com juros e correcção monetária.

H – Não sejas ridícula. Já não tens idade para essas respostas. Cresce.

M – Por falar em ridículo…

H – Mas diz-me lá o que queres, afinal. Não estou a perceber. Estava tudo bem até há 5 minutos atrás, até tu começares nesse disparate. Que eu não te entendo, que eu não te ouço…E eu não percebo porquê.  O que é que eu te fiz? O que é que foi desta vez? Estás chateada com o quê?

M – Não estou chateada com nada. Havia alguma razão para eu estar chateada?! Nada! É tudo perfeito. Eu, tu, nós, a nossa vida. Tudo!

H – Mau! Isto está a complicar-se e eu já te disse que não estou a perceber porquê. Por isso, se tiveres a gentileza de me iluminar, eu agradecia-te. Assim podíamos falar no mesmo comprimento de onda.

M – Comprimento de onda…Mas qual comprimento de onda?! Será que tu ainda não percebeste mesmo?! Mas és assim tão parvo?

H – O quê?!

M – És assim tão parvo, perguntei-te eu. Ainda não percebeste mesmo, ou isso é só mais um dos teus exercícios de estilo para me levares à loucura e papares a seguir o prato costumeiro do “Tu estás louca e precisas de te ir tratar”?

H – Ó Luísa, pára com isso. Mas que conversa é essa? Francamente, eu não estou a perceber nada da tua conversa, do sentido que lhe queres dar e muito menos a razão pela qual começámos a ter esta discussão. Estava tudo tão tranquilo entre nós.

M – Tranquilo como o mar antes de uma tempestade….

H – Está bem, se gostas dessa comparação, posso começar a chamar-te Tempestade Luísa, para irmanares com a Maria, com a Leslie, com a Helena. Tem é cuidado com o landfall, não vás tu magoar-te.

M – Deixa-te disso! Não me parece que este seja o momento para brincadeiras. De resto, não precisas de te preocupar comigo. Já sou crescidinha e sei bem tomar conta de mim.

H – Disso não tenho dúvida. Mas então explica-me lá – qual é o problema?

M – O problema?! O problema somos nós!

H – Essa foi a única parte que consegui entender. Mas exactamente porquê é que nós somos o problema, é que eu não estou a entender.

M – Não?! Então eu explico-te – estou farta das tuas birras, das tuas criancices, dos teus disparates, da forma como comes, como ressonas, como falas, como te ris….

H – Desculpa?! Mas isso começou quando? Há quanto tempo estás nesse desespero por minha causa? E começou porquê? O que é que eu te fiz? O que é que eu deixei de te fazer? Foi alguma coisa que te tenha dito? Que não te dei? Que te tirei?

M – Sei lá, João, acalma-te. Tantas perguntas… Não te sei responder. Aconteceu e pronto. Quando percebi, estava já no limite. Não sei…Deve ter começado devagarinho, em silêncio, num fundo do fundo e quando reparei, tinha tomado conta de mim. Pronto. Não sei que mais te diga.

H – A sério?! E se eu sou assim um bicho tão mau, como é que conseguiste ficar junto a um sujeito que é um palerma intolerável em tudo aquilo que faz?

M – Não sei. Devo ter uma vocação especial para causas perdidas e um gosto particular por dar com a cabeça na parede.

H – Caramba, Luísa. Isso também me parece desnecessário. Só estou a tentar compreender como chegamos aqui.

M – Pois…está bem. Tens razão. Mas estou com dificuldade em dizer-te as coisas doutra forma.

*

Anos mais tarde, numa altura em que a Luísa era já só uma doce recordação de parte da sua vida, encontrou a sua melhor amiga de então (ou ainda o seria?). Ainda tentou fingir que não a tinha visto (a confusão da saída de um Metro em hora de ponta, a mais das vezes permite fazer isto com uma naturalidade muito real), mas a Rafaela não lhe perdoou e qual mulher que não está habituada a que lhe virem a cara ou que a ignorem, gritou com força: “Joããããooo! Há quanto tempo! Que é feito? Conta-me tudo! Casaste? E miúdos? Continuas na “sanzala”, ou já arranjaste um emprego digno desse nome? E as cigarradas? Já te deixaste disso ou manténs-te convicto? Olha que isso já não se usa, pá!”. A capacidade do género feminino debitar palavras por segundo, sempre o impressionou. E logo vindas desta… Rafaela.

Recuperado o domínio sobre a sua voz e sobre a tremura das mãos, percebeu que não havia nada a fazer. Estava apanhado. Aquela mulher não o ia deixar ir impunemente. Mais valia que tomassem um café juntos. Sempre tornaria a experiência menos desagradável.

Falaram do tempo, do Benfica, do Brexit, de restaurantes da moda, de viagens que gostariam de fazer e claro, do assunto inevitável chamado Luísa:

R – “Ó João, aquilo foi feio, hã?”

J – De que é que estás a falar?

R – Do fim da vossa relação, o que é que querias que fosse?!

J – Olha, fala com a tua amiga. Ou se já falaste, deves perceber que tive pouca responsabilidade nesse fim. Fui essencialmente o saco de pancada dela naquele dia. Sem mais nem porquê. Até hoje não percebi. Foi a primeira, inesperada e última discussão que tivemos. Acabou assim. De um momento para o outro.

R – ‘Tás a brincar?!

J – A brincar?! Ela não te contou isto?

R – Contou. Claro que contou! E também me contou que nesse mesmo dia te viu a almoçar todo delico-doce com uma jovenzinha (do escritório? A fulana boazuda que te atende e te serve o café todas as manhãs? não importa, na verdade); que eras só sorrisos e mãos pela jovenzinha fora; que a jovenzinha estava claramente a apreciar o couro – ou a corte para não ser ordinária – e que depois do vosso almoço, a que a Luísa fez questão de assistir de longe, partiram os dois para parte incerta e tu chegaste a casa com o ar de sempre – de quem não parte um prato – mas com um bonito “souvenir” da tarde bem passada no bolso.

Ó João, esquece! Não vale a pena. O que lá vai, lá vai. A Luísa já ultrapassou isso e se soubesse que eu estava agora a ter esta conversa contigo, matava-me!

J – Mas…

R – Deixa João. Faz o que te digo. Não vale a pena estar a chafurdar outra vez. Já passou.

*

Eu devia ter percebido…Que burro, pá! Eu devia ter entendido logo toda aquela mise en scéne caída do céu aos trambolhões! Aaahhh Luísa, Luísa… Tu e essa tua incapacidade de reconheceres o que te magoava, de dares a mão à palmatória, de aceitar que pelo menos daquela vez, tinhas sido preterida, que pelo menos naquele dia, fostes enganadas, que as consequências de me deixares à míngua de uma festa ou de um beijo, podiam ser brutais (para ti). Se ao menos me tivesses dado uma pista…se me tivesses feito uma cena de ciúmes (que tu detestas, eu sei). Se tivesses dado uma de ofendida, sei lá… Eu teria percebido logo e ter-te –ía explicado que aquilo não era nada. Que eu não sentia nada por aquela fulana, que na verdade era só uma gaja do escritório, que gostava de apregoar as suas desinibições e o tamanho das mamas. Só isso. De resto, aconteceu porque era fácil. Porque tivemos a oportunidade. E porque na verdade, tu estavas a pedi-las.

Se me tivesses dito Luísa, eu ter-te-ia dito que foi em ti que eu pensei quando a deitei de costas.