Ensaio

O Voo

por Luís Ramos

Guardo a bagagem de mão no compartimento e sento-me confortavelmente no meu lugar junto à janela, mesmo por cima da asa. Nas costas do assento da frente, um folheto diz-me que viajo num avião Airbus A320.

Alguns minutos depois, o avião começa a andar para trás, encaminhando-se para a pista. Estará, com certeza, a ser empurrado pelo achatado veículo designado para o efeito, o tug car. Simultaneamente, e de forma nítida, ouve-se um som robótico de cadência rápida. Terá o avião algum problema?… Não há que ficar alarmado, é apenas o sistema de transferência de potência hidráulica (PTU) em funcionamento. O avião prossegue na taxiway de forma vagarosa e, enquanto isso, pela janela, olho para a asa e reparo que os flaps já estão descidos para a posição de descolagem. Já quase a chegar ao início da pista, é feito um compasso de espera. Um outro avião parte à nossa frente e, por isso, há que dar o devido tempo entre descolagens.

Chega a nossa vez. O avião alinha-se com o centro da pista, o som das potentes turbomáquinas surge num rugido crescente, tal como a variação de velocidade, sentida no corpo. Afinal, são cerca de 20 toneladas de pura força ao dispor do piloto. O avião corre pela pista e apenas em alguns segundos, desde que iniciou a marcha, atinge o ponto de não retorno, ponto a partir do qual já não é possível parar em segurança. A mais de 250 quilómetros por hora, chega o momento de o piloto puxar com as duas mãos a manche na sua direcção, e é assim, como que por magia, que as cerca de 70 toneladas de avião, combustível, carga e passageiros são levantadas do chão, contrariando de forma habilidosa a força da gravidade. Em pouco tempo, a aeronave atinge uma altitude considerável.

Olho de novo pela janela e vejo os flaps a serem recolhidos. Recosto-me. É chegado o momento de desfrutar da viagem e do vasto horizonte que a vista me oferece.

Poder voar foi desde sempre um dos sonhos da humanidade. Talvez pelo desafio que constituía à sua condição terrena, talvez pela sensação imaginada de liberdade ou talvez, apenas, pelo desejo de alcançar os deuses que se conservavam nos céus.

Assim conta Ovídeo (século I a.C. – I d.C.), nas Metamorfoses: Dédalo, genial artífice, que se achava entediado na ilha de Creta, sem hipótese de lá escapar por terra ou por mar, decidiu criar para si e para o seu filho Ícaro, umas asas feitas de penas, fios e cera. Com estas acomodadas aos ombros, recomendou ao seu filho que não descesse em demasia, para que a água do mar não lhe acrescentasse peso às penas, nem subisse demasiado alto, para que as asas não derretessem com o calor do Sol. O caminho do meio era então, o caminho seguro que deveriam seguir. Porém, o jovem audaz e destemido, levado pelo deslumbre do voo e querendo explorar a esfera etérea, aproxima-se de forma inconsequente do Sol que lhe derrete as precárias asas. Pobre Ícaro!, cai estatelado no mar, perdendo a vida. A estória de Ícaro apresenta-se, assim, como uma lição de moral que remete, de forma metafórica, para as limitações da condição humana e alerta o homem a não se deixar ofuscar pelos seus desejos irreverentes, pois terá como certo um final desastroso.

Dédalo e Ícaro, Anthony van Dyck (1620), Art Gallery of Ontario

Mas nunca a humanidade abdicou do ousado desejo de voar. Nem mesmo quando sofreu os maiores reveses no decurso da longa caminhada da invenção do voo, que muita persistência e resiliência exigiu aos seus muitos contribuidores.

Quinhentos anos depois da sua morte, Leonardo da Vinci (1452-1519) consegue ainda, impressionar com a sua imensa criatividade e capacidade produtiva. Nascido no início do período Renascentista, fez parte integrante da revolução científica vivida à sua época. Era um homem interessado numa diversidade de temas e em tudo o que estes ainda tinham por descobrir e explorar. Também para o voo deu o seu contributo, tendo estudado e desenhado mecanismos que permitiriam satisfazer esse sonho de rasgar os céus com umas asas, tal como faziam os pássaros que tanto terá observado.

Os desenhos técnicos detalhados de Leonardo da Vinci não terão sido, contudo, suficientes para que se cumprisse essa ambição de voar. Os anos passaram e o voo do Homem com recurso a asas parecia completamente condenado ao fracasso, impossível de realizar. O Homem tinha de se resignar às suas aptidões físicas para se deslocar apenas em terra e no mar.

Sem desesperar, nem desistir, era necessário amadurecer a ideia, pensar noutros conceitos e desenvolvê-los. Foi preciso esperar por outro período de grande desenvolvimento científico e cultural, o Iluminismo, para que se registassem alguns avanços.

E que se desengane quem pensar que Portugal nunca esteve envolvido nesta demanda pelo voo. Em 1709, o padre jesuíta Bartolomeu de Gusmão (1685-1724) faz chegar ao rei D. João V (1689-1750) uma petição onde apresentava a solução para a navegação aérea. O artefacto a construir, seria capaz de voar e chegar às diversas colónias que Portugal detinha, mantendo-se assim o domínio da navegação marítima, e desta feita, também, da navegação aérea. Esta máquina voadora, mais tarde apelidada de Passarola, funcionaria segundo o princípio de Arquimedes, recorrendo a ar quente, ou um outro qualquer fluído mais leve que o ar, que faria com que o engenho se elevasse no céu. O princípio da máquina aerostática estava inventado pela primeira vez na história e D. João V, um monarca culturalmente esclarecido, e que foi, mais tarde, responsável pela edificação da Biblioteca Joanina na Universidade de Coimbra, não podia de forma alguma ficar indiferente ao apelo de Bartolomeu de Gusmão. Avançou assim, com o seu patrocínio e disponibilizou-se para receber o padre jesuíta na sua corte. A construção da Passarola não terá sido bem sucedida, pelo que as invenções de Bartolomeu de Gusmão se terão concretizado, apenas, em alguns testes com protótipos a ar quente. Um desses protótipos terá sido, inclusivamente, lançado do Castelo de São Jorge, tendo-se elevado ali e voado até ao Torreão, no Terreiro do Paço.

Esquema da Passarola de Bartolomeu de Gusmão em “Petição do padre Bartolomeu Lourenço sobre o instrumento que inventou para andar pelo ar e as suas utilidades”, Imagem do Arquivo Nacional da Torre do Tombo

Embora Bartolomeu de Gusmão tenha postulado as premissas para o funcionamento de um aeróstato, foram os irmãos franceses, Etienne e Joseph Montgolfier, que fizeram vingar esta concepção, mas só em 1783.

O século das luzes foi muito prolífico na temática científica, tendo sido durante o seu domínio que se desenvolveu a chave que desbloquearia, anos mais tarde, a explicação do voo.

Daniel Bernoulli (1700-1782) nasceu na Holanda, no seio de uma família de prodigiosos matemáticos. Seu pai, Johann Bernoulli (1667-1748), foi durante muitos anos responsável pela cátedra de matemática na Universidade de Basileia, posição ocupada anteriormente pelo seu tio, Jakob Bernoulli (1655-1705). Não obstante as disputas existentes entre os elementos da família Bernoulli, resultantes das descobertas e progressos que cada um realizou ao longo do tempo, o certo é que todos eles contribuíram para os avanços da matemática. A Daniel, não terá sido difícil aceitar o convite de Catarina I, imperatriz da Rússia, para tomar o lugar de professor de matemática na Academia Imperial de São Petersburgo, já que tinha uma relação difícil com o seu pai e o desejado lugar na Universidade de Basileia, não se lhe apresentava como opção.

Na Rússia, Daniel Bernoulli teve a companhia do seu amigo Leonard Euler (1707-1783), que fora pupilo do seu pai Johann Bernoulli, em Basileia, e que se tornaria também ele um extraordinário matemático. Foi com Euler que Daniel partilhou os vários triunfos que foi acumulando durante a sua permanência na academia de ciências, tendo inclusivamente partilhado o maior dos seus sucessos, que viria a ter o seu nome, a equação de Bernoulli. Daniel interessou-se pela dinâmica de fluídos e foi a esse tema que se dedicou. Através da experimentação, observou a relação entre pressão e velocidade da água: quando uma grandeza aumentava a outra diminuía e vice-versa.

Embora a água e o ar tenham características físicas diferentes, ambos são considerados fluídos e, como tal, também ao ar pode ser aplicada a teoria que Daniel descobrira. Sem se saber, Daniel Bernoulli tinha acabado de achar a elegante e promissora explicação para a sustentação de um avião.

Infelizmente seria necessário esperar quase dois séculos para se alcançar o completo entendimento da amplitude desta equação. Foi já em plena segunda revolução industrial, pelos finais do século XIX, que a investigação em busca da máquina aérea estava ao rubro. Muitos dedicaram o seu tempo a aperfeiçoar os aparatos inventados, tendo havido até quem tivesse pago o seu empenho com a própria vida, como foi o caso do engenheiro alemão Otto Lilienthal (1848-1896), pioneiro na técnica de voo com protótipos planadores, que acabou por se despenhar num deles. O intercâmbio de ideias entre inventores foi muito favorável, e quem muito contribuiu para esta partilha foi o engenheiro Octave Chanute (1832-1910), influenciando de forma relevante os irmãos Wright, que entrariam para os anais da história com o seu voo realizado a 17 de Dezembro de 1903, em Kitty Hawk, Carolina do Norte, a bordo do Flyer I.

Artigo sobre os planadores de Percy Pilcher inspirados nas ideias de Otto Lilienthal – Scientific American, 19 de Outubro de 1895

A aviação fora assim acabada de inventar. Voar com uma máquina mais pesada que o ar era, de facto, possível. Estava ali feita a promessa que mais haveria de surgir num futuro próximo, era apenas uma questão de tempo, enquanto o desenvolvimento tecnológico avançava de forma galopante. Ainda assim, o conhecimento não estava consolidado, e qualquer avanço feito seria resultado de um método empírico, baseado numa metodologia de tentativa e erro.

A assertiva fundamentação para a explicação do voo não viria dos Estados Unidos, nem da Europa Ocidental, mas sim da Rússia, onde outrora o génio Daniel Bernoulli tinha desenvolvido o seu trabalho na Hidrodinâmica.

Foi pela mão do engenheiro Nicolai Zhukovsky, também ele estudante de São Petersburgo e, mais tarde, na Universidade de Moscovo, que apareceu a explicação, em 1905, para o voo como o conhecemos hoje. Era através da equação de Bernoulli que se podia entender porque um avião levantava voo e se erguia no ar. O fluxo de ar recortado em dois, pela aerodinâmica da asa, faz com que um dos fluxos passe na parte superior, com maior velocidade, e outro pela parte inferior da asa, este com menor velocidade. Desta diferença de velocidades do ar resulta, então, uma diferença de pressão que provoca o movimento ascensional. A prática e a teoria estavam agora finalmente casadas, a era da aviação comercial e mais tarde, o advento da exploração espacial, estavam a um passo de se tornar realidade.

Estive absorto a admirar as nuvens lá fora, mas reparo agora que o solo está cada vez mais próximo. O avião faz uma longa curva à direita, e sinto a força centrípeta na minha cabeça. Já não falta muito para a aterragem. O piloto baixa agora os flaps ao máximo, no sentido de alterar a aerodinâmica da asa, mantendo assim a devida sustentação para uma velocidade cada vez mais reduzida. Sente-se um pouco a turbulência nestas camadas de ar mais baixas, mas a bonita vista sobre Lisboa faz esquecer os malfadados solavancos. Os edifícios da cidade passam cada vez mais depressa, e o toque na pista torna-se eminente. Primeiro, com o trem traseiro, depois com o dianteiro, o avião estremece e faz por travar no menor espaço possível. Vejo que os spoilers na asa foram levantados, tornando a travagem ainda mais eficaz.

A aeronave direcciona-se agora para a taxiway, levando-nos até à zona de desembarque. Neste fim de viagem, não deixo de pensar como é magnífico o facto de se poder voar, e em todo o incrível empenho, dedicação e engenho que foram necessários até aqui se chegar.

Mas…mesmo sendo tudo isso admirável, talvez o maior dos voos não seja aquele que se consegue pelas asas de um avião, mas sim aquele que se faz através da genialidade do intelecto humano, capaz de levar a humanidade não apenas até ao céu, mas para lá das fronteiras da imaginação, do sonho, e da criatividade.

Airbus 0320 (©  José Luís Coelho)

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Imagem em destaque: O voo da gaivota sobre o mar de Alborão, do autor.

Bibliografia:

– Michael Guillen, 2004, Cinco Equações que Mudaram o Mundo, Gradiva.

– “Friends of the United States Air Force Academy Library” ed. Lit, The Genesis of Flight: The Aeronautical History Collection of Colonel Richard Gimbel, Washington University Press