Ensaio

O pecado simpático

por Carla Coelho

A gula é seguramente o mais simpático dos pecados. Ninguém tem qualquer pejo em se apresentar como guloso, ainda que o dicionário de sinónimos faça corresponder a essa palavra termos como “ansioso, ávido, sôfrego, lambão” ao lado de expressões como “apetitoso, bom, saboroso, desejoso”.

O pecado em geral é uma matéria que gera pouco entusiasmo nos nossos dias. Mas para além dessa evidente falta de popularidade, outros factores contribuem para o sucesso da gula. A componente afectiva da comida, por exemplo. E também a aparente ausência de vítima ou prejuízo decorrente dos prazeres da mesa. Se formos gananciosos há uma probabilidade muito razoável de prejudicarmos alguém. Se nos deixarmos levar pela ira é meio caminho andado para nos envolvermos em quezílias com recurso à força física, com resultados menos felizes, para nós e para os outros. Mas que mal pode vir ao mundo se comermos mais um pedaço de chocolate?

Os prazeres da mesa estão longe de ser uma descoberta recente. O primeiro livro de cozinha europeu surgiu no tempo do Imperador Cláudio, pelas mãos do quarto descendente de uma família de gastrónomos, Coélio Apício. O livro foi impresso pela primeira vez em Milão, séculos mais tarde, em 1498. Seguiram-se edições de sucesso por essa Europa fora. E, claro, muitas outras obras do mesmo género. Em Portugal, o exemplo veio de cima. D. Duarte deixou no seu Leal Conselheiro, um tratado de ética e moral, páginas sobre o pecado da gula e o regimento do estômago.

Mas, como quase todos os prazeres, também os da nona arte não estavam disponíveis para todos. Os pobres, que na História foram sempre uma larga fatia da população, estavam naturalmente arredados deste prazer, pelo menos ao ponto de se poder falar quanto a eles em pecado. As suas refeições eram tão minguadas e frugais que certamente não era neles que os monges com propensão para teorizar sobre o pecado estavam a pensar.

Ainda assim, não há dúvidas de que os cristãos devotos, sobretudo os que professavam ordens, deviam acautelar-se quanto aos prazeres da mesa. O que é curioso porque, estando eu longe de ser especialista na matéria, noto como a comida está presente nas histórias cristãs. Eva deixou-se tentar por um misterioso fruto que, para além do mais, dava acesso ao saber (para mim, um excelente efeito colateral, diga-se). Jesus multiplicou os peixes disponíveis para os convivas nas bodas de Canaã e transformou a água em vinho. O regresso do filho pródigo fez com que o pai sacrificasse o melhor borrego.

A gula, numa primeira acepção, é comer demais. Foi nisso que pensou o nosso conhecido monge Evagrius Ponticus. Mas o Papa Gregório, o Grande, foi mais longe. Identificou outros actos pecaminosos à volta da comida: comer com demasiada avidez, comer demasiado cedo, comer demasiado caro e comer com demasiado foco no modo como a comida é preparada. Postas as coisas nestes termos, são muito mais os culpados de gula do que poderíamos pensar nossos dias.

Apesar do anátema (ou se calhar por causa dele) a comida nunca saiu do centro das nossas atenções. A profusão de livros de culinária atesta-o. E o mesmo se tem de dizer do florescente negócio das bulas medievais. Através delas, o cristão com um bolso bem recheado conseguia licença para comer alimentos afastados da dieta religiosamente recomendada. Por exemplo, a carne. O seu consumo estava proibido em determinados dias, sendo certo que foi sempre um alimento raro, reservado para as classes dominantes. A ligação feita entre o consumo de carne e a agressividade levava a que o alimento apenas fosse considerado bom para os guerreiros. Para os demais, a carne deveria ser um alimento reservado para ocasiões excepcionais. Mas, através de uma bula, era possível alargar as ocasiões em que se consumia carne ou outros alimentos, tal como era habitual obter dispensa de observar jejum ou abstinência de determinados alimentos.

Se dúvidas subsistissem quanto à apetência dos seres humanos para procurarem uma alimentação que vai muito mais longe do que a de mera resposta à fome, bastaria deitarmos os olhos a obras literárias de todo o mundo. De livros infantis (quem esquece os lanches de Os Cinco, com os scones e latas de sardinha?) a literatura para crescidos (incluindo o nosso Eça, em A Cidade e as Serras e passando por Elisabeth Gilbert e os confortos da gastronomia italiana em Comer, Orar e Amar), a comida é um tema recorrente na literatura. E o leitor que nunca pôs de lado um livro para ir buscar umas bolachinhas ou um quadradinho de chocolate que atire a primeira pedra.

A comida só por si já era um tema interessante. Mas ganhou ainda mais apelo graças a João Cassiano. Nascido em 360 d.C em local que nos nossos dias corresponde à Roménia, Cassiano dedicou-se à vida monástica, tendo mesmo fundado dois mosteiros, um para homens e outro para mulheres. Teorizou sobre os pecados e é a ele que se deve a ligação entre a gula e a luxúria. Esta associação conduz a um tema sempre estimulante: os alimentos afrodisíacos, que proporcionam uma espécie de dois em um em matéria de pecados. Do chocolate (cuja fama como libertador da líbido vem já dos aztecas) às ostras (já reconhecidas pelos romanos), passando pelo mel e o gengibre são vários os alimentos que estão conotados com um melhor desempenho sexual. E ainda que nada na ciência nos dê certezas da fama não se livram. No livro Chocolate de Joanne Harris os mais empedernidos inimigos da protagonista eram o clero conservador e as beatas ressequidas, escandalizados com a forma como os chocolatezinhos da loja iam dando coragem aos aldeões para libertarem as suas mais secretas paixões e procurarem a felicidade. Já em A festa de Babette de Karen Blixen assistimos ao movimento contrário. Uma velha serviçal da corte francesa refugiada numa comunidade fortemente religiosa do norte da Europa prepara-lhes uma deliciosa refeição, como as que cozinhava nos “bons velhos tempos”. Todos se deixam envolver pelo prazer da alimentação, deixando a volúpia tomar conta dos seus sentidos, mas nem uma palavra ou olhar é trocado a tal propósito, não vá a libertação ir longe de mais.

Uma coisa é segura: este é um pecado que não dá mostras de esmorecer. Todos dias abrem restaurantes, as redes sociais estão cheias de imagens de comida e são muitos os que incluem nos seus perfis referências ao seu amor à cozinha, designadamente com recurso à expressão foodie. Na verdade, apenas um outro pecado nos impede de mergulharmos a fundo e sem regresso na gula: a vaidade, atenta a ligação entre a comida e a gordura. E num tempo em que o corpo de cada um de nós é policiado pela sociedade, os gordos são os únicos para os quais o apetite por coisas boas é visto com reprovação. Mal, segundo dizem os especialistas, pois gula, gordura e obesidade não são a mesma coisa e não têm entre si uma relação causa-efeito. Mas, à medida que as estações do ano se sucedem e que o Verão se aproxima, volta em força a publicidade sobre produtos destinados a reduzir o peso, com recurso a essa velha amiga da fé católica que é a culpa. Serve agora um novo culto, o do corpo. E não hesita em recorrer a golpes de dramatismo baixo, com frases como “volte a gostar de si” ou “sinta-se bem outra vez”, por exemplo, que já ouvi em anúncios de rádio. A sério? São uns quilos a mais, não uma participação num genocídio étnico. Perder peso não equivale, digo eu, a uma espécie de limpeza espiritual ou purga existencial.

Escrevi acima que pelo menos num primeiro momento a gula surge como um pecado sem vítima. Apenas o pecador, no seu corpo ou na sua carteira (quando não nas duas …) sofre as consequências do seu apetite. Mas, não tenhamos ilusões, a ausência de vítimas é apenas aparente.

Há um primeiro aspecto que chama imediatamente à atenção – o da exploração das pessoas que trabalham na cadeia de produção alimentar. Desde os pequenos agricultores aos cozinheiros e empregados de mesa, a exploração é muito mais do que uma suspeita. Em certos casos, é uma certeza. Pensemos, por exemplo, nas explorações de cultivo de cacau. É público que em muitas delas trabalham pessoas, incluindo crianças, em regime de escravatura ou muito próximo disso. As denúncias vieram a público através de trabalhos jornalísticos e de organizações não-governamentais e são um dos pontos de luta das organizações de comércio justo. Ou então nos trabalhadores da restauração, desde o fast food ao fine dining, com horas de trabalho não regulamentadas, salários baixos e sujeitos a outro tipo de abusos. Um exemplo ficcional, mas que está escrito com tal realismo que tem de ter um ponto de contacto com a realidade, é o livro Un chemin de tables de Maylis de Kerangal. Romance de formação de um jovem chef (Mauro) leva-nos a conhecer um mundo onde o endeusamento da comida conduz os seus fazedores a trabalharem como autómatos, sem espaço para a contemplação ou qualquer forma de vida pessoal. E ensaia uma explicação para o culto da comida de que hoje estamos rodeados. Uma tese que passa pela ansiedade dos tempos modernos, a incerteza quanto à solidez dos laços que nos unem e o poder da comida para, pelo menos durante uma refeição partilhada, criar uma ligação aos outros. Afinal, a própria expressão “companheiros” tem precisamente essa origem (companheiros são “aqueles com quem partilhamos o pão”).

Outro ponto que não pode ser esquecido é o tratamento dado aos animais nas explorações com todo o sofrimento que lhes está associado, num momento em que os mesmos já são reconhecidos como seres sencientes, isto é, que sentem e têm emoções. O que torna a experiência do matadouro ainda mais cruel. Para quem tenha um pingo de imaginação e alma pensar nesse sofrimento traz dificuldades de consciência. Não é por acaso que os matadouros ficam em locais isolados, não têm paredes de vidro e que não constituem oportunidades de trabalho apetecíveis. Estudos feitos nos Estados Unidos da América demonstram mesmo que quem lá trabalha desenvolve uma maior propensão para sofrer depressões e outros distúrbios psicológicos.

Estes são apenas dois exemplos de problemas com que o gastrónomoconsciente se depara. Há outros, claro. A questão ambiental, atentos os custos para o planeta de opções alimentares que estão consolidadas ou vêm trilhando o seu caminho, está na ordem do dia. É (também) por causa destas questões que se desenvolveram organizações de comércio justo, supermercados biológicos, selos de cruelty free e fair trade, entre outras figuras.

Podemos, é claro, dizer que nada disto é da nossa responsabilidade. Somos apenas o consumidor final. Compramos a comida nos supermercados e pagamos o preço indicado no restaurante. O uso feito desse dinheiro e o modo como ele é distribuído não é da nossa responsabilidade. Podemos dizer isto, claro. Mas é mentira.

 É curioso notar como num tempo em que exaltamos o individualismo há um capítulo em que ele é pouco enaltecido: o da responsabilidade de cada um de nós pelo que se passa no mundo. Quanto a isso gostamos de pensar que somos apenas mais um e que o que fazemos não tem qualquer impacto significativo. Bem, ainda que assim fosse, sendo um, somos alguém e o modo como nos conduzimos não nos pode ser indiferente. Mas a verdadeira questão é que a História está cheia de movimentos feitos por “muitos uns e umas” que se juntaram por acreditarem nos mesmos valores. E que com isso alteraram muita coisa no mundo.

Olhar para a parte de trás da barra do chocolate que compramos no supermercado conduz muitas vezes a informação eticamente relevante. A ausência dessa informação também nos permite tirar ilações, claro. Deixar de comer animais ou pelo menos ter interesse em perceber o modo como eles foram tratados até chegarem à mesa tem consequências nesse processo. Pressionar as empresas que vendem refeições a adoptarem comportamentos ambientais e sociais responsáveis tem impacto. Daí que o consumo consciente seja uma força transformadora de prática empresariais já reconhecida. Olhar para o outro lado e não fazer nada é uma escolha não uma fatalidade.

O que é então a gula nos nossos dias?

Sinceramente, não vejo que seja comer demais ou pensar demasiado no que vai ser o jantar. Numa sociedade tão árida como a nossa uma refeição pode bem ser o consolo ou o prémio de que necessitamos Ou o único que a vida nos dá.

A questão está, a meu ver, a montante. É ilustrada por uma história que encontrei no livro de religião e moral da minha infância. Passo a sumariar: um casal tinha um filho muito amado. O amor parental não impedia os pais de verem uma grande falha no pequeno. Em todas as ocasiões procurava escolher a maior fatia das refeições para si, não se importando com os outros. Se fosse apresentado um prato de pêssegos, escolhia sempre o maior, por exemplo. Nos aniversários, arranjava forma de conseguir uma fatia de bolo maior do que a dos amiguinhos. Várias vezes admoestado não mudou o seu comportamento. Os pais pensaram e pensaram no assunto e decidiram dar-lhe uma lição. Um dia, convidaram uma série de colegas da escola para irem lanchar lá a casa. À hora da refeição, apresentaram-lhes um prato de pêras, todas mais ou menos do mesmo tamanho. Havia, porém, uma que era claramente maior do que as demais. O filho escolheu essa, tal como os pais esperavam. Enquanto todos os amiguinhos se deliciavam com a sua peça de fruta, o rapaz descobriu que embora a sua pêra fosse a maior estava podre do lado de trás, pelo que não a pode comer. Quando foram servidas as bolachas, voltou a atirar-se à que era a maior. Mas descobriu pouco depois que, ao contrário das dos seus amigos, a sua estava queimada por baixo, pelo que acabava por saber mal, não a tendo comido. E assim sucessivamente. Quando, por fim, foram distribuídos os rebuçados, limitou-se a tirar aleatoriamente o mesmo número de unidades que os seus amiguinhos, sem procurar encontrar um ou outro que porventura fosse maior. À noite, falando com os progenitores, os mesmos perceberam que ele tinha entendido a lição. Deixou de ser egoísta e de querer ter mais do que lhe cabia, que era o mesmo que deveria caber a todos os outros.

A meu ver esta história ilustra na perfeição a gula como pecado actual. O problema não é gostar de comer, é dar tanta importância à experiência gastronómica que nada mais interessa. É ser tão egoísta que não temos a preocupação de perceber qual é o custo real da nossa refeição, quem e quantos sofrem para nós podermos comer aquilo que levamos à boca. O pecado é, pois, o egoísmo manifestado na indiferença quanto ao caminho que o alimento percorreu até chegar à nossa frente. Algo bem mais importante do que uns quilos a mais. Pelo menos no catecismo que me serve de guia.

Os Sete pecados capitais, Bosch (1480) Detalhe, Museu do Prado

(Imagem em destaque: Ilustração de Gustave Dore, para “Gargantua e Pantagruel de François Rabelais)

________

Bibliografia:

The Joy of Sin, The psycology of the seven deadly sins, Simon Laham, Constanble & Robinson, 2012

Comer, Orar e Amar, Elisabeth Gilbert, Bertrand Editora, 2006

A festa de Babette e outras histórias, Karen Blixe, edições Asa, 2002

Chocolate, Joanna Harris Edições Asa 2012

A cidade e as serras, Eça de Queirós, Porto Editora, 2015

The cook, Maylis de Kerangal, Macmillan USA, 2019

João Cassiano, On the eight deadly sins https://www.pigizois.net/agglika/on_the_eight_deadly_sins.htm

Porque gostamos de cães, comemos porcos e gostamos de vacas, Melany Joy, Bertrand Editora, 2018

Volúpia, A nona arte, a gastronomia, Albino Forjaz Sampaio, Editorial Notícias, 2000

The dark side of chocolate – https://youtu.be/p8j2l-3TxTg

One thought on “Ensaio

  1. Carla, está maravilhoso!!! O poder e a importância da comida, os seus rituais e os bastidores por vezes nada glamorosos de sua chegada à mesa. E a falta dela na mesa de tantos.
    Perfeito!

    Clarissa

    Gostar

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