No radar

O Poço e a Estrada, Biografia de Agustina Bessa-Luís

por Fernando M.*

Agustina morreu.

Há muito que decidira que o meu próximo texto na Epulata seria uma recensão sobre o livro que me encontrava a ler: a biografia que Isabel Rio Novo escreveu sobre Agustina Bessa-Luís, levada à estampa pela Contraponto, sob o nome O Poço e a estrada. Quiseram as coincidências da vida que tenha terminado de ler o livro no Sábado e a escritora partisse hoje. Na verdade, por razões de saúde, Agustina há muito que nos havia abandonado, tendo-se retirado da vida pública e do convívio com os seus amigos. A biografia que Isabel Rio Novo escreveu (à revelia da família da biografada) é uma bela forma de homenagear e conhecer melhor a escritora mais relevante do século XX português e a sua obra.

Nos últimos anos do ensino secundário na disciplina de Português A – não me lembro se no 11.º ou 12.º ano! – havia duas possibilidades de leitura obrigatória: Aparição de Vergílio Ferreira ou A Sibila de Agustina. A minha professora – uma detratora das qualidades literárias da escritora – não hesitou em eleger Aparição como a obra que tínhamos de ler. Contudo, o título do livro associado à má impressão que a professora deu de Agustina espicaçou a minha curiosidade, o que fez com que, nesse mesmo Verão, junto da biblioteca o tenha requisitado, por lazer, e lido de rompante. Assim conheci Quina, a sibila, Germa e tantos outros personagens urdidos pela caneta de Agustina.

Nessa altura, fascinado percebi o fascínio que a sua escrita poderia despertar no leitor: o cuidado do texto, as frases longas, os aforismos entrelaçados na narrativa, a ruralidade distintiva da força humana das suas personagens, a alma portuguesa. Simultaneamente, percebi as faltas que lhe poderiam apontar: provinciana e/ou criadora de narrativas confusas ou circulares, sem um trajecto claro e rectilíneo.

É essa Agustina complexa que encontramos espelhada n’O Poço e a estrada. Ordenada cronologicamente do seu nascimento ao seu desaparecimento público, a biografia escrita por Isabel Rio Novo propõe-se, com elevado sucesso, narrar a história da contadora de estórias por excelência.

A Autora traça a genealogia da biografada, do pai viciado no jogo à mãe pouco amorosa, as suas raízes espanholas, o percurso escolar, as muitas casas onde viveu na juventude – de Vila Meã ao Porto – a escrita, os livros, o casamento, a edição das suas obras, os prémios, as polémicas literárias, os amigos (re)conhecidos – a relação com Vieira da Silva, José Régio, Sophia ou Manoel de Oliveira – os cargos públicos que desempenhou, as viagens, a sua vaidade, as compras, os aforismos, o desconcerto, a filha, os netos, a doença e o seu desaparecimento.

Até aqui poderíamos pensar que se tratava de uma biografia como tantas outras. Não é o caso. Isabel Rio Novo ao invés de se limitar a narrar cronologicamente uma sucessão de factos, com exactidão histórica, lançou mão dos seus dotes de romancista e aliou as palavras da biografada às suas.

São centenas as passagens de livros de Agustina que citadas no contexto da sua história pontuam a biografia, revelam igualmente a sua obra, trazendo luz à sua vida através das suas personagens; tantas vezes elas próprias de inspiração biográfica. E, assim, Isabel Rio Novo fez da biografada sua co-biógrafa. A adopção desta forma de narrar faz com que, como se refere na contracapa do livro, estejamos perante “uma biografia que se lê como um romance”. Um prazer.

À boa moda portuguesa agora que Agustina desaparece do mundo dos vivos será enaltecida em colunas de opinião, artigos, entrevistas, minutos de televisão, dias de luto nacional, homenagens póstumas, etc e tal. Disso tudo, certamente, Agustina desdenharia, mais interessada no prosaico da vida. Afinal é seu o aforismo: o sucesso é menos importante do que um vestido bonito.

Em plena época da Feira do Livro espero que o desaparecimento físico de Agustina possa despertar nos leitores a vontade de (re)conhecer a obra literária da escritora (de prosa) mais relevante do século XX português. Não se irão arrepender.

Agustina desapareceu, mas a sua obra ficará para sempre enquanto houver leitores.

* Sobre Fernando M:

“Sou dos livros, dos filmes, do Teatro, da mesa e das esplanadas nos dias de Sol”