A Palavra dos Outros

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Indianadas e não só

por Manuel Nunes*

O subcontinente indiano é caracterizado sobretudo pela enorme diversidade cultural moldada por sucessivos impérios governamentais, religiosos e económicos ao longo de 10.000 anos de história. Não é possível ficar-se indiferente, o choque existe e muitas vezes é devido ao profundo contraste que a cada momento experienciamos. Não é possível utilizar a expressão “Fui à Índia” – ao invés de “Fui ao estado X na Índia” – sem incorrer numa generalização, dadas as enormes diferenças entre os vários estados que a constituem. A sensação com que fiquei ao visitar alguns desses estados é a de que apresentam culturas, tradições, línguas fundamentalmente diferentes dando a impressão de que estamos perante os “Estados Unidos da Índia”.

A título de introdução, e de modo a contextualizar esta jornada, a principal razão que me levou a estudar um semestre na Índia foi a necessidade de querer compreender e reconhecer aquela cultura e aquelas pessoas de uma forma não superficial, ou turística, se quisermos. Foi uma oportunidade que surgiu, em que pude aliar objetivos académicos – e completar algumas cadeiras – a uma vontade intrínseca de ir à descoberta.

Desta feita, procuro partilhar com o leitor a minha experiência bem como algumas histórias e aventuras vividas quer na Índia, quer no Nepal.

Começando pela vida no campus universitário, foi lá que começou a verdadeira aculturação. Ainda que sendo um oásis no meio de Chennai[1], permitiu-me ter aulas, comer, partilhar residência e criar relação não apenas com alunos das mais diversas partes do mundo, mas sobretudo com alunos e professores indianos.

As refeições nas cantinas da universidade reforçaram a sensação de verdadeiramente estar a experienciar a Índia. Para além de ser prática comum misturar vários tipos de caril com arroz, era normal comer com uma das mãos. Posso dizer que me tornei proficiente na técnica de agrupar numa uma só mão arroz ensopado em caril e levá-lo à boca, minimizando o desperdício alimentar.

Ainda durante o período de aulas, já tinha adquirido uma rotina verdadeiramente indiana. Todas as ocasiões convidavam a beber um copo de chai, quer fosse por ter saído de um exame, acabado uma refeição ou por estar a fazer uma pausa no estudo. A famosa Samosa – chamuça para os tugas – também nunca faltou, juntamente com a ocasional cerveja Kingfisher no Tasmac mais próximo.

Comida típica do Rajastão, norte da Índia (imagem do autor)

Numa das noites passadas no campus, e de forma quase aleatória, conheci o Akshay e depois de uma noite a trocar histórias e a partilhar diferenças culturais, ensinou-me o significado de Atithi Devo Bhava, sânscrito para Convidados São Deuses Para Nós. Esta foi talvez a expressão que mais ouvi ao longo daqueles seis meses, quer fosse numa rua quando pedia uma indicação, numa roulotte de comida quando me ofereciam uma samosa a mais ou quando fui recebido em casa dos pais do meu amigo Shivam.

Noutra ocasião, e de visita ao incrível estado de Kerala, estava de vespa a passear pelos campos de Alleppey e decidi parar. Nisto, uma senhora com os seus 60 anos, um saree tipicamente indiano e impecavelmente vestido, começou a gesticular e a falar, presumo eu, em Malaiala – idioma daquele estado. Fui convidado a entrar na sua propriedade, a visitar o seu templo e a conhecer o Deus Hindu protetor da sua família, isto tudo sem conseguir trocar uma palavra, comunicando através de gestos e risos.  

Posso então dizer que não só aprendi como também experienciei o impacto ideológico e cultural que advém deste sentido de hospitalidade tão enraizado na tradição indiana.

Numa outra ocasião, já findo o período de aulas e querendo cumprir o ideal romântico, propus-me viajar sozinho durante um par de semanas pelo Rajastão, antes de me encontrar com um grupo de amigos. Durante estes dias, não quis deixar de experimentar os “government buses”, autocarros mais baratos, sem turistas e, aparentemente, sem suspensões também.

Numa destas viagens, dei por mim perfeitamente especado a olhar para um homem de turbante e barba exuberantes, a entrar no autocarro com uma alarmante espada à cintura e a perguntar-me se aquilo seria normal. Olhei para as restantes pessoas no autocarro e ninguém pareceu reparar naquela situação, ou sequer na minha aflição/curiosidade. Afinal de contas, não é todos os dias que partilho uma viagem de autocarro com um guerreiro das Índias, pronto a desembainhar a sua cimitarra. Eis que, durante esta situação, houve um cruzar de olhares e, para meu espanto, o guerreiro encostou a mão no peito e respeitosamente fez-me uma saudação com a cabeça à qual eu respondi de maneira idêntica. Mais tarde, percebi que se tratava de um crente da religião Sikh e que um dos símbolos que caracteriza os seus membros é precisamente carregarem consigo uma espada ou adaga.

Por último, não podia terminar este texto sem partilhar a minha experiência de meditação, desta vez no Nepal. Tendo sempre tido um fascínio por esta matéria, tentei que a minha estadia na Índia/Nepal pudesse incluir algo desta natureza e assim foi. Estive cerca de um mês no Nepal e os últimos dez dias foram passados num centro de meditação Vipassana perto de Kathmandu, juntamente com cerca de 250 pessoas das mais variadas partes do mundo. De maneira sucinta, o programa consistia em acordar às 4 da manhã e meditar durante 10 horas por dia, todos os dias, sempre com a devida orientação. Acrescentando a isto, as refeições eram vegetarianas e era suposto observar o silêncio nobre, isto é, restringir totalmente a comunicação durante os 10 dias correspondentes à duração do curso. O grande objetivo deste tipo de meditação é o de “Ver as coisas como elas são realmente”, algo que foi ensinado por Buddha e retransmitido até aos dias de hoje. Posso acrescentar que foi então uma experiência excecionalmente desafiante e verdadeiramente interessante, que me permitiu explorar não só o potencial da meditação como também ficar a conhecer melhor os fundamentos da religião budista.

Sucintamente, estas foram algumas das aventuras que vivi naquele canto do mundo e que me atrevo a partilhar com o leitor.

Templo em Jaipur, no Rajastão (imagem do autor)
Vista do Annapurna Sul (7219 m. de alt.) e do Annapurna I (8091 m. de alt.), do campo base do Annapurna, Nepal (imagem do autor)

[1] O campus do IITM situa-se dentro do parque natural do Guindi, longe das características buzinadelas de Chennai.

(Imagem em destaque: Nascer do sol visto do Matanga Hill com vista para o Achyutaraya Temple, Hampi, Karnataka, Índia, do autor)

* Sobre Manuel Nunes:

Nasci em Lisboa, 1995 e sou finalista de engenharia electrotécnica. Apaixonado pela minha área de estudos, energia, bem como por pessoas e pela sua história.