No radar

Na Casa-Museu Medeiros e Almeida

por Luís Ramos

A Casa-Museu Medeiros e Almeida, embora passe facilmente despercebida no meio dos edifícios altos do centro de Lisboa, não deixa de ser um sumptuoso edifício apalaçado cuja visita deve ser considerada obrigatória. O seu interior é lugar de um magnífico acervo, resultado de um cuidadoso coleccionismo a que se dedicou o empresário António de Medeiros e Almeida (1865-1936) ao longo dos anos.

Numa recente visita, guiada, dei especial atenção a algumas peças que remetem para temas que me interessam em particular.

Logo na primeira sala, uma grande tapeçaria com a representação do Triunfo de Baco onde, para além do próprio Baco (ou Dioniso, de acordo com a mitologia grega), dos sátiros e ninfas, consta também um interessante brasão de armas. Esta peça, inicialmente pertença do marechal inglês Richard Temple, apresenta nas divisas do brasão a inscrição em latim “Templa quam dilecta” (Que amáveis são os templos), inscrição que o marechal terá mandado gravar. Fica por saber se o significado seria tão literal e directo em honra do nome de família, ou se seria uma solapada mensagem apenas ao alcance de alguns.

Subindo ao piso superior, um relógio de mesa feito de porcelana que tem no seu topo a representação das três Parcas, cuja presença é bastante apropriada ao tema do tempo. É composto por uma brilhante policromia e possui um realismo e detalhes fantásticos.

Ainda neste patamar, mais à frente, um bonito conjunto de quadros sobre a história da medicina, onde consta uma pintura de Averróis, personalidade erudita dos tempos áureos do Califado de Córdova quando este dominava a Península Ibérica.

Na Sala do Lago, o destaque vai para a escultura de Sansão a matar um Filisteu, a qual também pode ser entendida como um Abel e Caim, embora erradamente. Apesar de estar assente numa base com altura considerável, o tamanho dos corpos está numa proporção praticamente real e apresenta uma admirável expressividade e um dramatismo e teatralidade encantadoramente impresso na dinâmica corporal. Neste mesmo espaço, uma escultura da deusa Veritas, cujo magnífico véu, que tapa a figura que se desvela, mostra uma impressionante leveza e transparência. Não menos interessantes são as duas musas que se encontram a cada canto da sala. Embora não estejam identificadas, é pela iconografia que se pode dar o palpite de se tratarem de Urânia, musa da astronomia, e Clio, musa da história. A primeira segura um globo com a abóbada celeste, e a segunda possui um estilete, pergaminho e uma coroa de louros, representando assim os feitos passados.

Já na parte final da visita, uma generosa colecção de relógios. Estamos na Sala dos Relógios, onde se encontra o relógio que pertenceu ao general Junot e que, curiosamente, pertencerá mais tarde ao Duque de Wellington. Mas não é só história que esta peça tem, junto a este exemplar de contagem de tempo encontra-se um certificado de autenticidade que se faz acompanhar de uma curiosa equação do tempo em tabela, pormenores que só se encontram em relógios tão exclusivos e únicos quanto este.

Recomendo vivamente a consulta do site da Casa-Museu pois tem uma detalhada explicação e contextualização das peças em exposição. Servirá para o visitante preparar antecipadamente o que vai ver, podendo ainda servir como óptimo guia durante a visita.

Muito mais há a dizer sobre esta interessante Casa-Museu, contudo deixo ao leitor a oportunidade dessa descoberta.

Info:
http://www.casa-museumedeirosealmeida.pt

Aproveite já amanhã a iniciativas SÁBADOS NO MUSEU (Visitas Guiadas Gratuitas), sendo em MAIO : dias 4 e 18 / 12h-13h

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