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Linn da Quebrada encerra BoCA 2019 

Linn da Quebrada. Foto: Nu Abe.
Por Filipa Gonçalves

Decorre desde 15 de Março até amanhã, 30 de Abril, a BoCA – Biennial of Contemporary Arts, com actividades em Lisboa e do Porto e, nesta edição de 2019, contando também com Braga como cidade convidada.

Em destaque estiveram as artes visuais, cénicas, a performance e a música em museus, teatros, galerias, discotecas, igrejas e no espaço público.

No editorial à edição de 2019, intitulado “Na marginalidade do mundo comum, o seu director artístico, John Romão, destaca o lugar da BoCA como “agente ativo e decisivo num trabalho que se processa em diferentes escalas: no investimento e difusão da diversidade, cultural e artística; na integração e empoderamento de diferentes comunidades, minorias e etnias; na descentralização da oferta cultural dentro de cada cidade, dentro de cada região e fora dos grandes centros; na investigação de formatos de programação em escalas locais, inter-regionais e nacionais; na valorização do património material e imaterial, através da programação em equipamentos patrimoniais e da investigação de novas dinâmicas urbanas que associamos à expressão imaterial que funda a nossa cultura contemporânea”.

Dos muitos eventos integrantes da programação (quase quarenta), tive ocasião de ver a vídeo-instalação “Alignigung 2” de William Forstyhe no Museu Nacional Soares dos Reis (Porto), “Spirit House”, instalação que Marina Abramovic concebeu para um antigo matadouro municipal nas Caldas da Rainha, em 1997, e agora apresentada nas Carpintarias São Lázaro (Lisboa), espaço que por si só vale a pena conhecer, e de rever “Manifesto”, interpretado por Cate Blanchett, constituído por 13 filmes que trazem palavras furiosas e surpreendentemente atuais para o ecrã, no Cinema Ideal (Lisboa).

Foi muito pouco. Tive especial pena de perder a “Beyoncé Mass” celebração de adoração feminina que usou a música e a vida pessoal de Beyoncé como ferramenta promotora de um discurso de empoderamento sobre os marginalizados e esquecidos, particularmente as mulheres negras, no Convento dos Inglesinhos (Lisboa), e a Conversa com Ana Cristina Cachola, Delfim Sardo e Filipa Oliveira sobre Helena Almeida (1934-2018), a sua obra, a sua influência em outros artistas, o seu legado, também nas Carpintarias São Lázaro.

No contexto ambicionado pela Bienal – o aludido investimento e difusão da diversidade, cultural e artística e integração e empoderamento de diferentes comunidades, minorias e etnias – não poderia ser mais apropriada a escolha de Linn da Quebrada para apresentar, acompanhada de DJs, vocalistas e bailarinos, o concerto de encerramento, amanhã, no Lux Frágil.

A artista descreve-se como “bicha, trans, preta e periférica. Nem actor, nem actriz, atroz. Bailarinx, performer e terrorista de género”. As primeiras quatro palavras chegam para intuir a garra com que se lança às características que a convencionalidade ditaria à marginalidade, transformando-as em armas de empoderamento na luta pela quebra de paradigmas sexuais, de género e corpo. Afronta, sem medo e papas na língua.

Em 2016, a artista lança-se na música com o êxito “Enviadescer” e apresenta-nos, amanhã, o seu único disco “Pajubá” (2017), totalmente custeado através de crowdfunding, e definido pela própria como um disco de “afro-funk-vogue”.

“Eu falo de mim, mas em essência falo também de várias questões ligadas ao feminino e ao que sinto dentro da comunidade TLGB. Solidão, erro, afeto, corpos preteridos, eu queria um novo vocabulário para tudo isso”, diz Linn.

Isto basta para aguçar a minha curiosidade e levar-me a ouvi-la amanhã, sem saber exactamente o que esperar.

Quem não tiver oportunidade de vê-la nesta ocasião, continue atento, desde logo ao filme documentário “Meu Corpo é Politico” (2017) dirigido por Alice Riff, que acompanha a vida de quatro militantes LGBT, sendo um deles Linn.

Ela anda aí e não parece disposta a desaparecer tão cedo.

BoCA – Biennial of Contemporary Arts

LINN DA QUEBRADA
Pajubá

30 ABR 2019, 23H

Linn Da Quebrada – Voz
Jup do Bairro – Voz
BadSista – Electrónicas
DJ Pininga – Electrónicas
Dominque Vieira – Percussões

Co-apresentação: BoCA, ZDB
Apoio: LuxFrágil

12€
Bilhetes à venda na Ticketline e à porta 1H antes.

www.bocabienal.org