No Radar

Uma questão de conveniência – Sayaka Murata

por Carla Coelho

Sayaka Murata é uma descoberta recente em matéria de letras orientais. Li a versão inglesa da obra agora publicada entre nós pela Bertrand (Convenient Store Woman) durante o Verão e senti estar a entrar num mundo muito diferente do meu, mas com pontos de contacto indeléveis.

A protagonista é uma mulher japonesa de trinta e seis anos, Keiko. Desde pequena que para surpresa e choque dos pais tem o hábito de dizer tudo o que lhe vem à cabeça, sem ter em atenção os sentimentos dos outros ou as conveniências sociais. Não por maldade, mas porque não parece ter a capacidade de se adequar às situações. É visível, num ou outro ponto da narrativa, que tem falta de empatia. Não degenerando em comportamentos violentos, isso impede-a de criar relações sociais, mesmo a um nível básico. Apenas os pais e sobretudo a irmã parecem aceitá-la. Compreendendo isto Keiko decide que a melhor forma de viver é passar despercebida, de modo a que os outros não se entrevejam a sua falha. Vamos encontrá-la a trabalhar numa loja de conveniência, perfeitamente realizada com o seu papel de empregada daquele estabelecimento. Não tem ambições, não tem frustrações, não tem planos.

A tolerância social para com Keiko não será, contudo, eterna. À medida que os anos passam e já que não tem uma carreira (ser empregada numa loja de conveniência não tem qualquer peso) deveria, pelo menos, casar e ter filhos. Perante a pressão, Keiko compreende que a máscara de normalidade que vem envergando deixou de ser suficiente. Os que a rodeiam não olham para Keiko como pessoa e não se preocupam com o que ela pode querer ou não. Um dos aspectos mais impressionantes da obra é a crueldade das pessoas ditas normais, (mal) mascarada de preocupação com a vida dos outros. Sensivelmente a meio do livro surge uma nova personagem: Shiraha. Colega de Keiko, partilha com ela o sentimento de exclusão social. Mas, ao contrário dela, sente-se ofendido por não conseguir integrar a “normalidade”, atribuindo essa injustiça aos mecanismos sociais vigentes. A relação que se estabelece entre os dois não pode ser entendida como uma relação amorosa ou sequer de amizade. Trata-se antes de um relacionamento que lhes permite iludir o controlo social que informalmente é feito sobre eles.

Este livro começou por me causar um sentimento de estranheza. Passados os momentos iniciais, quando a escrita precisa, objectiva e contida de Sayaka Murata nos deixa espaço para pensarmos bem no que nos conta, estão lá pontos de contacto com a nossa realidade social. Será que a nossa sociedade, apesar da modernidade e aparente respeito pelas opções dos que nos rodeiam, permite mesmo que sejamos livres? Ou será que tudo se encaminha para que ocupemos papéis na máquina social pré-definida? E o que espera aqueles que não se enquadram no nosso conceito normalizado de sucesso? Tudo perguntas que o livro nos coloca, com habitual subtileza crua das letras orientais.  

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