No Radar

(créditos: Charades)

Diamantino ou o surrealismo agridoce

por Filipa Gonçalves

“Diamantino”, a primeira longa de Gabriel Abrantes, co-realizada com Daniel Schmidt, estreia amanhã em Portugal após um percurso bem sucedido no circuito dos festivais (Grande Prémio da Semana da Crítica em Cannes, onde estreou).

A trama, em suma e sem spoilers: Diamantino, jogador de futebol superlativo, é uma estrela mundial conhecida não só pelo seu talento, mas também por duas características potenciadoras de um cocktail fatal: ingenuidade e ignorância. Certo dia, depois de um episódio que o deixa profundamente abalado, perde a desenvoltura em campo e vê a sua carreira terminar abruptamente. É assim que, em busca de um novo propósito para a vida, se depara com assuntos sobre os quais nunca antes tinha pensado. Entre eles, a crise dos refugiados, o neofascismo e a manipulação genética.

O filme é implacável na crítica social à deificação das celebridades desportivas. Diamantino (Carloto Cotta) tem o físico perfeito, o corte de cabelo, as sobrancelhas depiladas e até os solitários a fazer-lhe bling-bling nas orelhas tal e qual Cristiano Ronaldo. Também tem a sua fortuna, um progenitor que o educou sozinho e é a sua referência afectiva suprema, e ainda duas irmãs (as magníficas Anabela e Margarida Moreira), a sugá-lo até ao tutano, gastando o dinheiro em roupas de griffe. Também tem, como os membros da sua família, sotaque ilhéu (não se preocupem que há legendas). E ainda uns calções de banho amarelo e óculos de aviador com os quais se exibe num iate. Tudo coincidências, claro. É tudo ficção e podíamos estar a falar de qualquer outra pessoa.

Mas não se fica por aqui.

O filme aborda os movimentos antieuropeístas e radicais, numa miscelânea bizarra e alucinada de planos maléficos dos mais elevados poderes da nação, propaganda non-sense, cientistas loucos, investigadores policiais desvairados e os refugiados. Ainda embrulha tudo isto, em cenas surreais envolvendo cãezinhos fofinhos caminhando em campos de algodão doce cor-de-rosa.

É uma viagem louca e delirante por cenários psicadélico-kitsch deliciosos. Porém, no meio do riso (em abono da verdade, diga-se que Diamantino e seus clichés são um alvo demasiado fácil), somos acometidos por pensamentos de sobriedade. Os temas são tantos, porém, que o assoberbamento é um risco real.

Fica por saber se Diamantino, o bom selvagem instrumentalizado, é uma gata-borralheira à espera da princesa que o resgatará ou um Cândido contemporâneo. Inclino-me mais para a primeira pois ele, apesar de ingénuo e ignorante, sabe bem, quase desde o início, que nem “tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis”.

Depois de verem, dir-me-ão a que conclusão chegaram.