Sociedade

A Nudez dos Corpos Femininos: quem somos nós para dizer o que liberta o outro?

por Adriana Ramos

Não existe pecado do lado de baixo do equador
Vamos fazer um pecado rasgado, suado, a todo vapor

(Chico Buarque e Rui Guerra)

O filho, em música, cantou os versos que o pai, em prosa, escreveu no seu livro Raízes do Brasil, “corria na Europa, durante o século 17, a crença de que aquém da linha do Equador não existe nenhum pecado: Ultra aequinoxialem non peccari (Gaspar Barleu). Como se a linha que divide o mundo em dois hemisférios também separasse a virtude do vício” (BUARQUE DE HOLANDA). A frase, demonstra que a culpa judaico cristã nos foi apresentada pelos colonizadores e, desde então, a sexualidade e a nudez das mulheres passaram a ser tuteladas e consideradas tabu. De acordo com Del Priori,

desde o início da colonização lutou-se contra a nudez e aquilo que ela simbolizava (…). Aos olhos dos colonizadores, a nudez do índio era semelhante à dos animais; afinal, como as bestas, ele não tinha vergonha ou pudor natural. Vesti-lo era afastá-lo do mal e do pecado (2011, p.11)

Pelo mundo afora, temos a fama de sermos liberais nos costumes e, por isso, a liberdade dos corpos femininos seria, além de uma conquista do movimento feminista, uma práxis que estaria na nossa gênese. A crença se distancia da ciência moderna porque não há possiblidade de comprovação fática das alegações trazidas e, com essa premissa, a nossa suposta liberdade não passa de crença (para não problematizar, nesta conversa, os motivos de sua criação). Somos um povo de maioria cristã (86,8%), forjado a partir dos preceitos católicos e arrebatado pelas igrejas neopentencostais, portanto, “a nudez é o irredutível resíduo gnóstico que insinua na criação uma imperfeição constitutiva e que se trata, em todos os casos, de cobrir” (AGAMBEN 2010, p. 80)

Além disso, como ainda vivemos na colonialidade (QUIJANO, 2005), sofremos os efeitos das estruturas patriarcalistas que ordenam o mundo e subordinam as mulheres. Prefiro utilizar a expressão patriarcalismo por três motivos: politicamente, pressupõe uma configuração da realidade em que predomina o abstrato sobre o concreto, a desigualdade sobre a igualdade, axiologicamente, impõe um conjunto de valores, crenças e atitudes, não deduzidas e não deduzíveis, a partir do qual um grupo humano se arroga, por natureza, ser superior aos demais e, sociologicamente, constitui a base da exclusão, um conjunto de mecanismos enraizados nas estruturas sociais a partir das quais determinadas pessoas são rechaçados ou deslocados sistematicamente da participação plena da cultura, da economia, da política dominantes dessa sociedade em determinado momento histórico (HERRERA FLORES, 2005a, p. 31-32. Livre tradução.). Segundo Berner,

Ao longo da história foi se consolidando uma “naturalização” dos valores masculinos e femininos, e o patriarcalismo induziu à construção social do direito e da política instituindo duas situações: uma visível – a da esfera dos que são iguais perante a lei; e uma invisível – a dos que são diferentes Em que pesem os inegáveis avanços alcançados em diversos países, especialmente, os europeus ocidentais, quanto à igualdade de tratamento, as velhas desigualdades se perpetuam ou são reinventadas, na mesma medida em que que as conquistas jurídicas se desfazem diante da aparição de novas circunstâncias e conceitos. Assim, em relação à mulher, aos progressos que foram até agora conquistados, fica uma incômoda questão: por que, nas condições atuais, as mulheres não se beneficiam na mesma proporção que os homens dos progressos alcançados? (2017, p.38)

Não ignoro o fato do nu artístico ser representado desde a Grécia e adornar as paredes dos museus mais importantes do ocidente, mas não é dessa idealização dos corpos femininos que estamos falando, pois nessa há, além de uma padronização e universalização do conceito de belo, um olhar masculino da nudez. Tampouco desconsidero a importância da arte e a sua possibilidade de alterar mundos, ela pode ser entendida não como

a representação de uma forma idealizada pelo artista, até porque o objeto artístico se desprende do seu criador, tem autonomia (…). Em outras palavras, é próprio da arte o traço da autonomia, que, para além da distinta capacidade de provocar debates sobre o status quo e, com isso, polêmicas, é atravessada de uma necessária subjetividade que a constitui (BERNER, BARROS, CASSOL et al, 2017, p. 4).

Mas o nu, nesse sentido, sempre foi privilégio dos artistas e das deusas, não extensivo ao cotidiano das mulheres que, mortais e distintas em suas vivências, estão nos seus cativeiros de esposas, mães, freiras, putas, presas e loucas, como dito por Marcela Lagarde (2011). A nudez na nossa cultura é marcada por uma herança teológica tão pesada que passa a não ser um estado, mas um acontecimento. (AGAMBEN 2010, p. 80-81).

Continuando a nossa conversa sobre profano e sagrado, em março, aconteceu o carnaval, festa religiosa que se transformou em pagã, mas não deixou de ser tradicional. Essa ode à felicidade faz parte da cultura afro-brasileira e pode ser vista como um ato de rebeldia por permitir corpos leves e dançantes pelas ruas, por prezar pela irreverência dos gritos em favor das liberdades e por garantir a alegria, mesmo que momentânea, a um povo cada vez mais triste.

Os problemas que hoje enfrentamos com este evento são muitos, estando corretas as críticas que apontam uma elitização do carnaval exemplificada pela criação dos “cordões sanitários” nos blocos de rua, pelos altos preços dos ingressos para assistir aos desfiles das escolas de samba e pela manutenção das cidades partidas, mas mesmo assim, sigo na contramão daqueles que, atrelados a valores excludentes, tentam macular a imagem da nossa festa mais importante e silenciar as vozes dos foliões com o intuito de banir a diversidade e controlar nossos corpos e mentes pelo medo.

Nestes dias de “ofegante epidemia”, voltando ao Chico Buarque, uma atriz, que trabalha em uma emissora de bastante alcance e capilaridade no país, colocou os seios de fora, tatuados com a frase #elenão, durante um festejo. Por ser uma figura pública, por fazer um protesto contra o atual presidente e por fazer da nudez um ato político, a foto foi muito divulgada e gerou inúmeras reações, inclusive discussões entre feministas tiveram nesse ato ponto de inflexão.

O intuito desse ensaio é dar centralidade, numa perspectiva feminista, às diferentes vozes das mulheres sobre a nudez feminina a partir da cena acima narrada. Duas questões centrais podem ser colocadas nesse contexto: (i) pode os feminismos estarem desatrelados das discussões de raça e classe? (ii) toda nudez é ato político e uma tradução da emancipação das mulheres? A minha resposta às perguntas é não.

Importante salientar que há diversos feminismos e que estou nas trincheiras daquele que entende a necessidade das pautas identitárias estarem atreladas a luta de classe e antirracista, pois impossível a existência de uma mulher universal. Segundo Lélia Gonzalez, é a mulher negra da periferia quem mais sofre os efeitos das estruturas opressoras da sociedade brasileira, “exatamente porque é ela que sobrevive na base da prestação de serviços, segurando a barra familiar praticamente sozinha. Isto porque seu homem, seus irmãos ou seus filhos são objeto de perseguição policial sistemática (…) (1984, p. 231)”. Portanto, enquanto as mulheres brancas lutavam pelo ingresso no mercado de trabalho, mulheres pretas sempre tiveram que trabalhar para sustentar a si e a sua família.

Nossas existências são atravessadas por marcadores sociais, somos abalroadas por diferentes preconceitos ao longo da vida. Kimberle Crenshaw cunhou o termo inteseccionalidade para visibilizar as violências produzidas pelo racismo e pelo machismo nos corpos das mulheres pretas. Estas análises também não podem desconsiderar o marcador de classe introduzido nas discussões feministas, na década de 60 nos Estados Unidos, por Angela Davis e bell hooks. Com base marxista, denunciaram as diferentes faces das opressões enfrentadas pelas mulheres pobres e de cor.

Temos o compromisso e a responsabilidade com todas aquelas que estão em situação de marginalização, opressão e exploração, que foram colocados em situação de subordinação nos processos de divisão social, sexual, étnica e territorial do fazer humano (HERRERA FLORES. 2005b, p. 9. Tradução livre), e as lutas identitárias, desprovidas dessa responsabilidade, se limitam a pleitear extensões de privilégios e não propõem uma alteração das relações de poder.

Voltando ao tema nudez, controle dos corpos nus pode ser entendido como um mecanismo de adestramento dos corpos femininos.

O poder disciplinar é com efeito um poder que, em vez de se apropriar e de retirar, tem como função maior “adestrar”; ou sem dúvida adestrar para retirar e se apropriar ainda mais e melhor. Ele não amarra as forças para reduzi-las; procura ligá-las para multiplicá-las e utilizá-las num todo. (…) “Adestra” as multidões confusas, móveis, inúteis de corpos e forças para uma multiplicidade de elementos individuais – pequenas células separadas, autonomias orgânicas, identidades e continuidades genéticas, segmentos combinatórios. A disciplina “fabrica” indivíduos; ela é a técnica específica de um poder que toma os indivíduos ao mesmo tempo como objetos e como instrumentos de seu exercício (FOUCAULT, 2013, p. 164).


Nessa perspectiva, a nudez pode ser compreendida como ato político emancipatório a depender do grupo social em que esta mulher esteja inserida e em que momento foi exibida. Pode, sim, ser lido como uma atitude rebelde demonstrando a não subordinação ao adestramento imposto pelos mecanismos de controle social, uma resposta questionadora e corajosa aos papéis que foram a nós impostos, uma inversão de lugares por demonstrar no ato uma espécie de comando sobre o próprio corpo.

Entretanto, não há uma ligação direta, tampouco descontextualizada, entre nudez e emancipação, pois corpos nus podem também “apenas garantir a reprodução de valores machistas, que acabam por objetificar e subordinar, travestidos de libertação sexual e liberdade, enquanto nos empurram, na verdade, a um abismo de cassação e manipulação de vontades” (QUIRINO, 2016, p.108). Dito isso e levando em consideração que a atriz, personagem principal do nosso enredo, é branca, classe média/média alta, moradora de bairro nobre e uma figura pública, a sua nudez durante o carnaval deverá ser interpretada como resistência, uma tentativa de romper com os grilhões que subjugam as mulheres. “Como opera, então, e em que consiste exatamente essa politização da nudez?”, nos indaga Sibilia, respondendo em seguida

ao se exporem fora dos limites da esfera privada, seja no espaço público das ruas ou nas vitrines midiáticas, esses corpos nus acabam causando certa comoção e atraindo os olhares de muitos desconhecidos, conquistando a tão buscada visibilidade para as diversas causas defendidas (…) consumando desse modo sua vocação política. (SIBILIA, 2015, P. 44)

Mas corpos de mulheres negras e periféricas não têm o mesmo capital político de corpos de mulheres brancas, pois sempre foram o

eixo estruturante do discurso que sustenta esta ordem política colonial, constituindo o nó de um reportório simbólico e de uma gramática adaptáveis aos diferentes contextos em que, literalmente ou por analogia, é necessário firmar relações de poder assentes na intersecção de raça e género (MARTINS, 2017, p.2)

E mesmo no carnaval, os seios desnudos das mulheres periféricas não podem ser vistos como emancipatórios porque é preciso muito mais que a nudez na luta contra as opressões que as atravessam. Como dito por Lélia González, do endeusamento carnavalesco à mulata ela se transfigura na empregada doméstica. “É por aí, também, que se constata que os termos mulata e doméstica são atribuições de um mesmo sujeito. A nomeação vai depender da situação em que somos vistas” (1984, p. 228)

Entendo, apesar das contradições apresentadas, que a estrutura patriarcalista não poderá continuar ditando as regras do que pode ou não ser feito e que grau de liberdade pode ser exercido pelas mulheres. E isso vale também para muitas feministas que desacreditando na nossa agência, desacreditam na possiblidade de sermos sujeitos emancipados e, portanto, livres em nossas escolhas, mesmo subordinadas a valores masculinos. A nudez não é obrigatória, tampouco é instrumento único e necessário na luta política, mas a aproximação das pautas dos feminismos com as do conservadorismo mais tacanho é inadmissível.

Que nossos corpos voltem a ser sagrados e, portanto, tocados apenas por quem esteja autorizado, não profanados pela violência do machismo. Que as mulheres, desnudas dos preconceitos, vivenciem a sua emancipação, nuas ou não.



montagem de Frida Kahlo, série por Julien Levy, 1938, Col. Philadelphia Museum of Art

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