Sociedade

Preferia não o fazer

por Luís Nascimento

O direito ao passado

Deparei-me recentemente e de forma inesperada com um conceito que me suscitou, em igual medida, inquietação e fascínio: o “cancel culture”. Trata-se da condenação de acções, declarações e posições actuais ou passadas, que, dada a sua gravidade – à luz dos humores contemporâneos-, justificam o afastamento dos infratores de projectos e oportunidades profissionais. Está, naturalmente, mais associado a actividades que dependam de visibilidade pública, embora poucas sejam aquelas que hoje consigam actuar totalmente à margem do mercado da atenção. Este género de escrutínio, que existe sobretudo no universo politicamente polarizado do Twitter, levou ao afastamento do comediante Kevin Hart da condução dos Oscares, após terem sido desenterrados tweets, declarações e material humorístico homofóbico. O surgimento deste material levou à decisão de uma cerimónia sem apresentador, e, presume-se, à infeliz ideia de alocar mais tempo a duetos medíocres entre cantoras e actores, demonstrando, assim, que o fenómeno tem efeitos múltiplos e potencialmente perniciosos. Ainda no mundo do entretenimento, verificámos o curioso caso do actor Liam Neeson que durante a promoção de um filme de vingança, e em resposta a de onde teria retirado inspiração para desempenhar o seu papel, relatou, com vergonha, um episódio que suscitou reprovação pública. O actor reportou que há 40 anos atrás, após ter sido informado de uma agressão sexual de que tinha sido vítima uma amiga muito próxima, terá percorrido as ruas à procura de um negro que o provocasse, por forma a poder agredir alguém com a mesma cor de pele do atacante em questão, tal era a sua indignação. Esta admissão, não de um acto mas de uma intenção, desencadeou um verdadeiro frenesim mediático, culminando numa entrevista em que Neeson defende-se contra insinuações de racismo. Embora me pareça que movimentos que responsabilizem intervenientes poderosos são globalmente bem-vindos, suscita-me alguma reticência observar a erosão do direito ao passado não criminal, quer pelas consequências que tem na vida em sociedade, quer pelos seus reflexos na arte.

O passado e a forma como o compartimentalizamos e ressuscitamos é fundamental para o comportamento humano tanto na sua dimensão individual, como colectiva. Enterramos o passado que não queremos ou podemos reviver esquecendo-o, por motivos não só relacionados com as limitações da capacidade cognitiva humana, mas também com a simples e desejável manutenção da sanidade mental e de uma mínima coerência comportamental. Aqui referimo-nos  não ao esquecimento relacionado com a natural degenerescência associada ao envelhecimento, mas sim a manter submersas memórias dolorosas ou traumáticas que, na tradição freudiana, coloquem em causa a harmonia psicológica. Uma outra forma de esquecimento alude ao mecanismo individual de  eliminação ou reconfiguração de memórias sobre o qual nova informação pode ser edificada através de processos de aprendizagem. Quanto de nós sobreviveria a uma atenta inspecção de todas os nossos posicionamentos passados, especialmente os marcados pela irreverência da juventude? E, ainda que os mais impolutos passassem no exame, quem quereria viver num mundo em que o passado pode ser revisitado a qualquer altura, ou mesmo instrumentalizado tendo em conta disposições morais actuais. A possibilidade de se enganar é fundamental para o crescimento. Um futuro, potencialmente cada vez mais próximo, em que tentativa e erro se transformem em tentativa de esconder o erro, não deixa de evocar imagética distópica.

Um cenário destes é possível tendo em conta as forças pandóricas desencadeadas pela emergência da internet e das novas tecnologias de informação. Evidentemente, este paradigma de regurgitação do passado tenderá a atingir com mais violência os que olham para a partilha da sua privacidade de forma natural do que aqueles de nós que tiveram a oportunidade de existir analogicamente. Mas, mesmo os que adoptaram o digital de forma mais ou menos tardia não estão livres de vir a ser sujeitos a avaliação retroactiva, caso exibam elevados níveis de uso das novas plataformas de comunicação online.

Há algo de desumano em arrastar um passado bidimensional – disposto de forma estética, arrumada, idealizada – e de submetê-lo à severidade do escrutínio tetradimensional do presente, especialmente a um com valência política. É improvável que a desumanidade seja aleatória, ou que esteja intimamente relacionada com a suposta natureza técnica e científica destas dinâmicas. Com efeito, fazendo um distanciamento de discursos embutidos de determinismos tecnológicos e modernizantes, verifica-se que os poderes que colonizaram a internet são os mesmos que há décadas determinam, com maior ou menor veemência, o curso dos eventos na maioria das sociedades ocidentais. É certo que os intervenientes aparentam ser outros, abandonando o austero fato em função da democratizante t-shirt, calça de ganga e sapatilha. As diferenças cénicas são, porém, inconsequentes. Devemos olhar com reticência, mas não com surpresa, para o facto de que os mesmos vectores que estão comprometidos com a eliminação de um futuro – pelo menos um com o mínimo de dignidade – emergirem agora como os agentes da sublimação do direito ao passado. Ou que a fabulosa e prometida expansão da liberdade de expressão através da web tenha desembocado, pelo menos parcialmente, no delito de opinião. É, aliás, uma realidade da qual tanto uma certa esquerda como uma certa direita não podem lavar as mãos, seja por negligência, seja por nela terem participação activa. Resta-nos, portanto, apenas o nosso presente imediato e a condenação do passado do outro como forma de divertimento.

Estas não são matérias que escapem ao – na maioria das vezes – grosseiro crivo legislativo, havendo jurisprudência produzida ao nível europeu, como a decisão do Tribunal de Justiça da União Europeia de 2014. O acórdão determinou que um cidadão espanhol teria o direito a ver informação sobre uma venda judicial de imóveis efectuada 16 anos antes para saldar uma dívida à Segurança Social, retirada dos motor de busca da Google. O recente Regulamento Geral de Proteção de Dados da União Europeia contempla explicitamente o direito ao esquecimento, permitindo ao cidadão solicitar o apagamento dos seus dados pessoais dentro de um período razoável, desde que se respeitem os limites legalmente acautelados. Para grandes resoluções bastam simples remendos e o Facebook anunciou, sem grande parcimónia ou dissimulação, que transferiria a responsabilidade por 1,5 mil milhões de usuários com origem fora dos EUA, Canadá ou União Europeia dos seus escritórios na Irlanda para os da Califórnia A terra dos livres, dado o seu clima regulativo mais ameno, é um lar mais adequado para os bravos gigante tecnológicos, comprovando que não se anuncia para breve a resolução do conflito que coloca corporações multinacionais contra os Estados que as incentivaram. Dito de outra forma, a crescente tensão entre o poder financeiro e o poder com origem democrática não parece ter ainda entrado na fase de rescaldo. Para que qualquer esforço legislativo venha a surtir efeitos medíveis será necessário a transição voluntária de uma cultura de partilha, como a que observamos hoje, para uma cultura de reserva. A moderação poderá talvez contrariar os vorazes e predatórios apetites daqueles que nos tentam minar e recombinar em novas disposições informativas. Veremos se esse dia chegará.

Existe uma forma bela de trazer o passado para o presente sem a sua transmutação pela oxidação necessariamente realista da hodiernidade. Chamamos-lhe arte. De resto, as nove musas, que os gregos idealizaram como fontes da inspiração artística e científica, descendiam precisamente de Zeus e da titânide Mnemósine, demonstrando que já na Antiguidade era valorizada a relação entre a memória, o temporalmente longínquo e o empreendimento artístico. O maior ou menor compromisso do filtro artístico subjectivo com diferentes visões da veracidade objectiva contribuiu para a fundação de variadas correntes e movimentos. As memórias são amiúde o substrato fundacional da obra artística; há mesmo eminentes autores que lhe dedicaram múltiplos volumes. Os bons artistas conseguem não só evitar a aspereza inerente à trasladação dos tempos perdidos, como até embelezá-la e torná-la emocionalmente ressonante. Mas apesar desta próxima relação entre o passado, a memória e a arte, nem esta última está liberta de movimentos revisionistas recentes que tentam reinterpretá-la à luz de considerações éticas actuais, mas não a-históricas. Não é infrequente assunto de discussão a separação entre o artista que desprezamos e a obra que admiramos e a conflitualidade que tal suscita; estou certo que a maioria de nós já a teve e continuará a tê-la. Nem me parece que a intranquilidade que esse desfasamento provoca em alguns de nós, venha a ser em breve apaziguada, tendo em conta também os fenómenos supramencionados. Ainda que o tema suscite dúvidas não devemos escamotear o facto que mesmo belicosas e abjectas biografias conseguem ser reconstruídas em memórias que, após sujeitas a tratamento artístico, produzem mais valias concretas. A reconfiguração artística permite a muitos a emancipação de um mundano e corriqueiro cada vez mais opressivo. E isso não é pouco.