Música

Banda Sonora Nada Original

por Pedro Faria

I. Um, dois, três, quatro, cinco. Os acordes são sincopados, a bateria sublinha o stacatto preambular, o baixo entra, as guitarras soltam-se da cadência inicial, o Hammond plana e zune, desconfio que andam por ali violinos e sininhos, ansiosos mas cumpridores. Nesta altura já não distingo coisa nenhuma: a massa sonora uniforme, áspera e exaltante é tudo o que interessa. Então ele afirma, sério e definitivo: Businessmen drink my blood, Like the kids in art school said they would, And I guess I’ll just begin again, You say you, can we still be friends.

Quando a voz se impõe, quando aquela maldita cantoria começa, já estou a estender a mão para desligar o despertador, a cabeça enterrada na almofada, a urgência de o calar de uma vez por todas, que deixe de me interromper o sono ou, pelo menos, que  me deixe acordar devagar.

Há pouco mais ou menos de três anos, num assomo de idiotia, decidi programar o telefone para me despertar ao som da música Ready to Start dos Arcade Fire. A ideia era de génio: para lá da bonita e evidente alegoria matinal que o título promete, aquela pancadaria iluminada em que os mil instrumentos e as vozes se envolvem ia fazer-me dançar para fora da cama e avançar pelo dia. O Win Butler e a Régine Chassagne iriam escolher-me a roupa, preparar-me o pequeno-almoço orgânico e levar-me à porta de casa. Todos os dias seriam gloriosos.

Bastou um par de meses para que aqueles épicos acordes iniciais soassem a sirenes antiaéreas, que têm que ser caladas a todo o custo, e o Win e a Régine passassem a observar-me num silêncio reprovador, enquanto me arrasto até à máquina do café, fixo a chávena a encher-se e tento identificar o dia da semana.

O romance que nos unia morreu e estamos numa relação destrutiva de que não consigo libertar-me: não sei acordar sem a maldita música mas odeio acordar.

O que eu fiz aos Arcade Fire não se faz a ninguém. Nem ao Phil Collins.

II. O rapaz está sentado à minha frente. Fato de treino, adidas, um corte deliberado na linha da sobrancelha esquerda, que continua meio palmo acima, num sulco que expõe o couro cabeludo, argolas nas orelhas, vestígios de acne.

Inicio a explicação habitual: apresento-lhe o meu eu funcional, as linhas gerais do sistema que o levou ali, os infelizes acontecimentos que nos juntaram naquela sala e transmito-lhe as pedagógicas a altruístas intenções da lei. Pergunto-lhe o nome: é o momento em que o convido a entrar em cena e ele finalmente pousa os olhos no senhor que está do outro lado da mesa. Responde desconfiado, voz com um timbre contido e o sotaque forte de quem nasceu e vive em Campanhã, Porto.

Prosseguimos a custo até ao cerne da questão: sim, andou à porrada com outro rapaz na escola; sim, acertou-lhe um murro no nariz por causa das intrigas de uma rapariga; sim, sabe que não o devia ter feito mas passou-se.

Vou transcrevendo as suas palavras, bem-comportadas e ordenadas no monitor, como ovelhinhas negras à porta de um matadouro, num cenário de neve.

Terminamos, ele assina, vira-me as costas e sai sem esperar que lhe abram a porta.

Hey, you’re the comeback kid, see me look away, I’m the runaway, I’m the stay out late. Comeback kid, let me look at you.

Não me parece que o rapaz conheça Comeback Kid da Sharon van Etten, mas devia.

Tenho andado às voltas com o disco novo, Remind me Tomorrow, desde o fim de janeiro deste ano mas a nossa história começou em 2014, estava eu muito concentrado numa monumental dor de corno. Por essa altura, abalado por uma discreta melancolia dramática, ouvi-a dizer, naquela voz cheia e afinada, enquanto caminhava sobre o rufar marcial da bateria, um órgão severo que me parecia saído de uma igreja luterana e as guitarras da praxe, break my leg so I wont run to you. A música era Your Love is Killing Me e o álbum Are We There. Foi amor à primeira vista. Consumámos e consumimos uma paixão muito intensa. Ficámos bons amigos.

O álbum novo é mais descentrado, luminoso, não fica pelo tom sofrido ou zangado que a voz dela serve tão bem, ainda que persista um registo biográfico que não esquece aquela dor de corno que nós os dois partilhámos em 2014.

Li por aí que a Sharon, entretanto, foi mãe, estudou psicologia e esteve atriz, não necessariamente por esta ordem. Ora, diz-se que a arte imita a vida (embora me pareça mais exato afirmar o contrário) e há de ter sido ser isso que lhe aconteceu.

A primeira música, I told you everything, anuncia uma viagem retrospetiva e marca o cenário do álbum: Sitting at the bar, I told you everything, You said, “Holy shit, you almost died”, Sharing a shot, you held my hand.

A estrutura narrativa das músicas, sem deixar de ser introspetiva, é também interpelativa, e desfia perguntas difíceis que Sharon van Etten vai colocando a si própria num registo vocal que ora é dolente como numa balada country (Malibu ou Jupiter 4) ora é solene, afiado e feroz, a lembrar PJ Harvey (Seventeen ou Hands), ora é frágil e cansado (Stay).

Todas as músicas são complexas, detalhadas, com melodias intuitivas desafiadas, e por vezes abafadas, por sintetizadores sujos (Jupiter 4 é o nome do sintetizador que se ouve ao longo do álbum) e guitarras impiedosas.

Remind me Tomorrow é daqueles álbuns que têm tantos níveis de leitura, que oscilam tanto entre a acidez e a doçura, que dei por mim a dançar, feliz e alheado, enquanto Sharon van Etten formula uma equação muito difícil de resolver para um homem convencional de 46 anos: I used to be free, I used to be seventeen, Follow my shadow, Around your corner, I used to be seventeen, Now you’re just like me.

Será que o rapaz que saiu devia ouvir esta música?

III. Março está a ser generoso: o sol é quente e forte quando saio do edifício. Desço a rua em obras há seis meses. Estou bem disposto, sobra-me dia e tenho nos ouvidos a versão da Yaeji da Passionfruit do Drake. Desconfio que os meus passos seguem o ritmo da música, o que poderá parecer estranho aos olhos dos transeuntes incautos, mas prefiro não pensar no assunto e seguir em velocidade de cruzeiro até ao supermercado, no caminho para casa.

Quando entro na média superfície comercial de uma próspera cadeia de retalho alimentar (e afins), já vou na terceira música do primeiro EP da Yaeji, que, num golpe de inesperada originalidade, leva o seu próprio nome. Yaeji de Yaeji já tem quase dois anos e um punhado de músicas perigosamente dançáveis. É um house artsy, contido e depurado, tudo sintético, como convém, e acompanhado por um registo vocal deliberadamente linear. A intenção parece ser a de induzir um estado de hipnose.

Segundo apurei Kathy Yaeji Lee vive em Brooklyn (estava mesmo a ver-se), é filha única de pais coreanos e nasceu em Queens em 1993.

Em setembro do ano passado atirou cá para fora uma música nova a que chamou One More e que canta em coreano e inglês. A voz é murmurada e passeia devagar ao lado das batidas minimais muito bem arrumadas, muito bem casadas. Não sei o que dirá em coreano, mas em inglês diz coisas divertidas: He says: “What’s up girl” and let my feelings fall; He says: “What so, apologies are made for fun”; He says: “What” so I can fall and hurt and learn but you don’t need to change a thing, that’s how it is.

Saio do supermercado com couves várias, salmão fumado, abacates e desodorizante para as duas retretes lá de casa.

IV. Quando o sol começa a desparecer março é um traidor, um amante venal que não cumpre a promessa, um estupor. Preciso de uma manta para interagir com a temperatura da casa e permitir uma estadia confortável no sofá com a Eliete (a do livro da Dulce Maria Cardoso, que ando a ler, entusiasmado).

Tenho a lista das novidades a correr no Spotify e vou tomando nota mental dos recados a dar ao algoritmo que regista todos os meus pecados musicais.

Mas o bom do algoritmo não é isento de méritos.

Um piano breve introduz uma voz tremente que lança um queixume: It’s the darkest hour, In our forest home, You climbed my heart, And you came alone.

Há ali qualquer coisa que me faz lembrar uma Diamanda Galas anestesiada a cantar Gloomy Sunday, aquele trinado persistente na voz, o piano a repetir um ritmo elementar, tirado dos blues.

Encontro o telefone debaixo de uma almofada e entretanto já corre uma batida solene a pontuar o piano e a voz. Não pode ser a Diamanda Galas. O aparelho mostra uma mulher vestida de preto, cara desfocada, agarrada a um cordeirinho que parece adormecido. Em letrinhas minúsculas, no canto inferior esquerdo, o nome: Sevdaliza.

Cocei a barba (“Mas não parece nada!”), dei um toque na retina do telefone, que contraído e contrariado me informou que Sevda Alizadeh, nascida em Teerão em 1987, fez uma música nova.

Sevda cresceu na Holanda, para onde foi viver com a família quando tinha cinco anos de idade, jogou basquetebol e faz música que desafia os limites do silêncio enquanto elemento da composição. Além disso, fez uma música extraordinária chamada Humani, do álbum Ison, que é um verdadeiro manifesto: I am, I have, I breathe in and out ,I own a heart, An ear and an eye, I’ve only been here one time, It’s passing me by.

Por esta altura o som torna-se mais cheio e reconhecível, cru e assente na repetição e sobreposição de ritmos. Ainda é o trip hop depurado de Ison e The Calling, mas agora mais descarnado, sem artifícios.

Chama-se Darkest Hour e foi lançada a 7 de março de 2019.

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