Música

Made in South Korea

(ou de como o meu histórico do You Tube está cheio de Hangul)

por Teresa Carvalhal

É uma tendência inata ao ser humano trautear músicas de que gosta, que acha divertidas, ou até que simplesmente o irritam. Há sempre aquela melodia que tem o dom de apossar-se do nosso ouvido e entrar-nos na mente sem qualquer permissão. A verdade é que quando não conhecemos a letra inventamo-la ou pelo menos enfatizamos a parte que conhecemos e ignoramos a restante. Para um exemplo vivo desse fenómeno basta revisitarmos 2012, ano em que apenas conseguíamos perceber “Eh, sexy lady (…) oppa Gangnam Style.” Mal calculava eu que Park Jae-Sang (mais conhecido por PSY), que disse em entrevista que o seu segredo era “dress smart, dance cheesy” abria caminho para que o k-pop chegasse a um público mais genérico, já que apenas algumas pessoas o conheciam e apreciavam. Eu própria ouvi esse termo várias vezes sem saber o que era, ou que piada teria ouvir pop coreano.

Foi preciso, bastante tempo mais tarde, um telefonema de uma amiga, fã inveterada de k-pop, num fim de tarde já em 2018, a berrar que tinha arranjado bilhetes para o Busan One Asia Festival (sendo Busan a segunda cidade mais populosa da Coreia do Sul) em Outubro desse mesmo ano onde ambas iríamos ouvir a banda sensação EXO, entre outras como Mamamoo e Wanna One. Eu não conhecia EXO. O meu entusiamo foi contido. Fiquei mais feliz por ela. Tive de olhar muito para trás no tempo e comparar essa felicidade a algo que me pudesse eventualmente ter suscitado um entusiasmo equivalente. O que eu gostaria nos meus queridos anos 90 de ter ouvido New Kids on the Block ao vivo…

Pesquisei. Comecei a ouvir. Estranhei de início. Rapidamente comecei a abrir ligações para outras músicas. Lentamente comecei a gostar e a ficar mais entusiasmada por ir ao berço do k-pop daí a uns meses.

Um dia depois de aterrarmos em Seoul fomos levadas a um concerto de k-pop numa Universidade. Estudantes do mundo inteiro aguardavam o início enquanto fumavam às escondidas, já que fumar em Seoul é quase impossível, a não ser em pequenos aquários distribuídos pela cidade especificamente para esse fim, e na Universidade é mesmo impensável sob pena de multa e, pior ainda, admoestação numa língua imperceptível para o estudante estrangeiro. Após cerca de meia hora de piadas em coreano, em que rimos histericamente por simpatia, lá tivemos oportunidade de ouvir e ver o rapper Jung Ki-seok, com o nome artístico Simon Dominic, que cantou o seu êxito com o mesmo nome: Simon Dominic. É impressionante o entusiasmo com que ocidentais e orientais entoavam o refrão: “Simon D-o-m-i-n-i-c oh oh”. O polivalente Simon Dominic dançou também ao som de Kokobop de EXO, finalizando a actuação com a música que fez toda a gente levantar-se e berrar, Mommae de Jay Park. À medida que Simon Dominic se deslocava pelo palco, um aglomerado de coreanos corria na mesma direção. Gritavam, esticavam os braços, tentavam tocar no intérprete, e percebia-se que a felicidade era genuína e contagiante. Tal como é o k-pop. É o ritmo, o som, a harmonia das vozes, o exotismo dos intérpretes, a diferença, É um sem número de características que parece que lhe dão cor. Não estranhamos certos elementos que no ocidente, à partida, nos fariam olhar de lado, por ser incomum. Nas bandas de k-pop os elementos masculinos extremamente maquilhados, com madeixas que condizem com as flores roxas das camisas, fazem sentido. Como se a excentricidade cromática espelhasse os néons característicos das metrópoles orientais, a perfeição das feições, a tez imaculada, ou não fossem os sul coreanos fervorosos adeptos de produtos cosméticos. Maquilhagem, hidratantes e máscaras de beleza à base de frutas. Eles e elas. Até as meias brancas semicobertas por mocassins cortados atrás, bem como o hábito de calcar os ténis de modo a chinelar, não são vistos como sinal de desmazelo, como aqui correriam o risco de ser. Fazem parte do estilo sul-coreano.

Descobri nas minhas pesquisas musicais que os EXO tinham e têm uma banda rival: BTS (Bangtan Boys). Descobri BTS e rapidamente percebi que tal como cá, no ocidente, as guerras extramusicais também estavam bastante presentes: se gostamos de EXO estamos contra BTS e vice-versa.

Quando saímos à noite em Itaewon tive a impressão de que as músicas que ouvíamos ali nos eram já familiares. Senti que já conhecia bem aquele género e que ali, longe de casa, fazia parte do meu dia-a-dia. E sair à noite ou passear durante o fim-de-semana pelas ruas das lojas, musicalmente não apresenta grande diferença. Nessas ruas encontram-se animadores de microfone com o volume da música em níveis ensurdecedores, e são os últimos êxitos do k-pop. O objectivo dos microfones é atrair clientes para dentro das lojas.

Finalmente, na noite do Festival, a experiência foi mais antropológica do que musical. Guardaram, como sempre, o melhor para o fim. Identifiquei-me em termos etários com os pais da camada mais jovem que assistia ao concerto. As bandas iam sendo apresentadas no ecrã gigante, em jeito de teaser e à medida que as anunciavam os gritos da plateia tornavam-se ensurdecedores. A reação a Wanna One já foi bastante perceptível, mas o anúncio de EXO surpreendeu na medida em que o alcance vocal daquele povo de aparência tão contida nas manifestações, que apenas gesticulam e não batem palmas, foi perfeitamente sobre-humano. Duas horas de música que culminaram em cerca de 4 músicas interpretadas pelos EXO, entre as quais a minha preferida e já referida Kokobop.

Já tinha anteriormente tido a experiência de berrar a pleno pulmões letras que não compreendia quando o sérvio Emir Kusturica e a sua No Smoking Orchestra chegaram a Portugal. Recordo-me que, para além de Pitbull Terrier, pouco mais havia na letra que conseguisse identificar.

Agora, com tradutores online, já nos conseguimos aperceber daquilo que é dito. Já nos identificamos com as temáticas recorrentes do homem que vai conquistar determinada mulher, simplesmente porque sabe que é ele a pessoa certa para ela (Don’t mess up my tempo, EXO). Da rapariga que se assume como mal comportada e que, como tantas outras pelo mundo fora, quer um homem e não miúdo (Boombayah, Black Pink). Da saturação da menina que ora está com o rapaz, ora não está, mas não o consegue tirar da cabeça (Starry Night, Mamamoo). Da sensação comum e familiar do mortal que abusa na noite anterior e acorda de ressaca pela manhã (Fire, BTS). Quem nunca? De como uma mulher é tão curvilínea que faz Beyonce parecer desinteressante e sem formas (Mommae, Jay Park feat. Ugly Duck), que confesso ser algo que tenho dificuldade em imaginar. Ou ainda da mulher que se queixa, ao som de um ritmo de influência latina, que o homem que deseja apenas pensa nele (Egotistic, Mamamoo). Nada de novo, portanto. Apenas problemas de primeiro mundo vistos à luz de um fuso horário um pouco mais adiantado.

Não vou tornar ainda mais exaustiva a minha playlist. É uma descoberta contínua, um caminho que uma leiga curiosa, como eu, vai continuar a desbravar. Vou deixar que o leitor pesquise, se quiser, este universo tão vasto e diverso como as próprias transversais, ruelas, outdoors luminosos e becos que se encontram nas cidades da Coreia do Sul.

Abertura do Busan One Asia Festival 2018
Busan à noite
Simon Dominic em concerto numa Universidade de Seul

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