Ficções

Dezassete

por Isabella Voltinhas

Quarenta anos já feitos. Com sorte, estava a meio da vida. Cheguei a casa cansada. Não era novidade nos últimos tempos. Tomei um duche enquanto ouvia, pela enésima vez, “Seventeen” da Sharon Van Etten e enfiei o pijama enquanto tentava dançar atabalhoadamente ao ritmo da batida. “I used to be free, I used to be seventeen”. Era sexta-feira. Quem sabe se depois de jantar estaria mais descansada para sair.

Engoli uma sopa e adormeci no sofá embalada pelas vozes excitadas dos comentadores do social cor-de-rosa vindas da televisão.

Acordei estremunhada. Já não ia dançar para lado nenhum.

Levantei-me para ir para a cama. De caminho, passei pelo espelho pendurado no corredor e nele vi um vulto. Julguei ser o meu. Mas o vulto, ao contrário do meu corpo, não se mexia. Parei. A casa estava em silêncio. Os da televisão e a Sharon Van Etten já calados.

O vulto acenou-me. Aproximou-se do espelho e fez-me sinal com o indicador para aproximar-me. Entrei em pânico, quis sair de casa. Quis também acender um cigarro mas as minhas mãos tremiam. Tentei acalmar-me. Pensei, procurei convencer-me que estava a sonhar.

No fundo do meu espírito começou a insinuar-se uma ideia. Parecia-me reconhecer aquele vulto. Era de uma familiaridade assustadora, no gesto, na silhueta. Mas não. Era impossível. O pânico invadiu-me novamente. Respiração sustida, coração e pernas geladas de medo.

Enfiei o sobretudo sobre o pijama e calcei umas sapatilhas. Chave de casa na mão dirigi-me para a porta. Mas para onde iria eu de madrugada? Com certeza já não me apetecia dançar e o vulto podia estar à minha espera lá fora.

Estava condenada a confrontar o fenómeno. Então, fá-lo-ia.

Resolvei aproximar-se do espelho. Agora via melhor. Do outro lado do espelho estava alguém que parecia ser eu. Eu com dezassete anos, uma outra. Neguei essa possibilidade. A Outra, quem quer que fosse, chamava-me, desafiava-me a ir ao seu encontro, a viajar para o outro lado.

Encostei o dedo ao espelho, que se recolheu convexamente como uma superfície de prata liquefeita. Com medo, afastei-me outra vez. Pensei, desta vez com muita força, estar a sonhar e queria acordar. Sem êxito. A Outra insistia. Era teimosa, aquela.

Olhei-a de sobrancelha arqueada, reprovadoramente. A Outra riu-se. Ri-me de volta. Começava a sentir-me a protagonista de um filme de aventuras e não já a vítima incauta de um espírito maléfico numa curta de terror série B.

Insegura, mas já vencida pela curiosidade – a minha maior fraqueza – decidi passar para o lado de lá e ver, afinal, o que queria a Outra.

Não foi fácil. Em segundos, senti a pele do corpo a repuxar-se, pensei que a cara e o cabelo ficariam para trás e depois teria mais problemas. Além das rugas a contornar-me os olhos ainda teria de lidar com a queda capilar resultante desta aventura noturna. Bonito serviço.

No meio deste turbilhão de pensamentos, dei por mim abruptamente do outro lado. A Outra, mal me viu de pé, interpelou-me espevitada: estava a ver se não vinhas, se agora eras uma medricas. De repente, parou, arregalando-me os olhos: não és pois, não?

Não lhe respondi. A estranheza invadia-me.

Entusiasmada, disse-me que quis viajar no tempo só para conhecer-me, ou melhor conhecer-se em adulta, embora estivesse surpresa com o facto de ter chegado aos quarenta.

Disse-lhe ser impossível ser quem dizia.

Olhou-me com fastio, acusando-me de falta de imaginação.

Insisti, pressionando-a com a inexequibilidade física de tal encontro.

Virou-se para mim, revirando-me os olhos e, depois de um suspiro, disse-me que só nós sabíamos que em pequenas subíamos, em corrida, as escadas da avó só para não vermos jesus crucificado, a sangrar, no oratório.

Esperei ansiosa por mais.

Ela continuou, dizendo que só nós sabíamos os pecados inventados para a confissão só para podermos dizer às outras que também tínhamos três pai-nossos para rezar de penitência. Acrescentou, impaciente, ser escusado dar mais exemplos que apenas serviriam para nos envergonhar

Fiquei chocada. Demorei a recompor-me. Tinha de aceitar os acontecimentos como se apresentavam, por mais inacreditáveis que fossem.

Ela pareceu ignorar a minha perplexidade. Estava noutra. Vi-a toda vaidosa. Vestia tshirt branca, calças de ganga preta e botas texanas. Estava preparada para sair à noite, percebi-o pela farpela e eyeliner preto, comprado numa lojeca de esquina, a marcar-lhe os olhos.

Sentou-se, copo de uísque numa mão e cigarro entre os dedos e disse que me sentasse. Olhei para ela estranhando o seu ar seguro, não era assim que me lembrava dela, ela que mal tinha largado os cueiros e apenas meses antes tinha tido autorização para sair à noite.

Depois lembrei-me não ser segurança. Agora via-a com clareza. Ela estava em personagem a de adulta feita à pressa. Até tinha passado de beber licores de fruta para uísque por ser o que o pai bebia, apesar do ardor no estômago às vezes mal disfarçado a coca-cola.

Controlei-me para não lhe tirar o cigarro da mão e chamá-la de estúpida, uma “maria vai com as outras”. Ela, se bem a conhecia, ficaria furiosa. Cultivava umas certas manias de espírito livre. A pobrezinha.

Olhou-me de cima a baixo e disse-me que esperava melhor. Nunca imaginou que eu, às dez e meia de uma noite de sexta-feira, lhe aparecesse à frente de pijama.

Mais uma vez não lhe respondi. Não queria desiludi-la. A Outra tinha grandes expectativas relativamente a mim, se bem me lembrava. Agora ia ser um sarilho esconder-lhe a verdade.

Então, aproveitando o meu silêncio, começou a desfiar as contas do seu rosário.

Estava loucamente apaixonada, disse-me ela. Pareceu-me eufórica. Era o seu primeiro amor. Ele era aventureiro, engraçado, não havia quem não gostasse dele, exceto os antiquados dos nossos pais, claro.

Ele usava o cabelo comprido, calças rasgadas e camisa de flanela aos quadrados. Tudo grunge. Apesar de rebelde era tão carinhoso quando estavam juntos, dizia-me ela. Adorava gatinhos e até lhe dava a conhecer músicas que ela nunca tinha ouvido. Juntos passavam tardes a ver videoclipes na MTV. Também era fantástico com as suas amigas, principalmente com a sua melhor amiga, a quem dava muita atenção.

Mordi a língua para não lhe dizer o que os meus quarenta anos me tinham ensinado. Estava encantada, a pequena. Dramática, queria aquele que todas quer. O que nunca se bastaria só com ela. Com uma outra talvez, jamais com ela.

Estava tão inebriada, cheia de certezas de que os outros eram todos iguais e só ela sabia o que era a paixão, que a deixei na ignorância. Ela merecia viver aquela trepidação, conhecer um sentimento tão vibrante, talvez irrepetível. Depois seguir-se-iam sentimentos igualmente intensos, alguns de dor. Mas para esses haveria o seu tempo. Não era aquele.

No meio disto de tudo isto, ainda queria ser rock`n’roll. Julgo que pouco tempo antes ela quis ser gótica. Dessa fase não me lembro tão bem, mas sei que envolvia um vestido preto pelos pés e um grande medalhão da Versus, já que os nossos pais e tios insistiam em fazer dessa toilette um divertimento familiar, como vieram a fazer com tantas outras.

Disse-me que pouco tempo antes, às escondidas, tinha posto um brinco no umbigo. A ferida infectou por ter sido a primeira vez que o senhor da ourivesaria, o qual nunca tinha ouvido falar de piercing, perfurou um umbigo à pistola. Tudo isto aconteceu depois de ter visto um certo videoclipe dos “Aerosmith”. Nele, duas raparigas, uma loura e outra morena, tal como ela e a sua grande amiga, seguiam estrada fora, num descapotável, à procura de aventuras. Perguntou-me se alguma vez faria essa viagem. Cautelosamente, respondi-lhe que faria viagens e viveria aventuras.

Respirou de alívio, parecendo satisfeita com a resposta. Mudou de assunto e, atirando o cabelo para trás das costas, disse-me que ninguém a compreendia. Também por isso tinha-me chamado. Só eu poderia explicar-lhe quem ela era e quem seria.

Mas que podia eu dizer-lhe? Que, na verdade, conhecia-a e conhecia-me ainda melhor mas que nada estava acabado pois viver era mudar?

Olhei para a sua cara ansiosa e disse-lhe que não se preocupasse muito com isso. Que não se levasse muito a sério, se divertisse e namorasse muito e com variedade. Ela ficou furiosa. Como podia eu dizer-lhe isso? Teria eu esquecido o seu sentido de justiça? Esperava que não, caso contrário, teríamos problemas. Não te lembras – disse-me quase aos berros – de os pais sempre terem dito que queríamos tirar o curso de direito? De a avó ter dito que, quando tínhamos cinco anos, nos apanhou agarradas à televisão a ver debates parlamentar e a imitar as poses dos deputados? Dos pais ficarem furiosos e, ao mesmo tempo um pouco vaidosos – o pai – quanto telefonavam do colégio a dizer que nos tínhamos intrometido numa reprimenda da professora a uma colega inocente?

Queria consolá-la mas não sabia como. Não, não me tinha esquecido do nosso sentido de justiça, disse-lhe, ele está sempre presente, procurámo-lo todos os dias. Não ia dizer-lhe que, contrariamente ao imaginado por ela, não íamos andar de cartaz da mão, não íamos ser activistas de nada. Não íamos correr o mundo para mudá-lo.

Quis explicar-lhe que a importância da vida estava em amar e ser amado, não por esses desconhecidos espalhados pelo mundo, mas pelos que nos rodeiam; que a vida era uma maratona, não o sprint para que ela se preparava. Fazê-la ver que a paciência era a maior das virtudes; fazer sempre o melhor que podia e sabia; dedicar tempo aos outros e teimar pela igualdade. Mas calei-me. Antecipava a sua desilusão connosco.

Em vez da verdade, respirei fundo e disse-lhe que seria sempre livre, evidentemente. Poderia prosseguir qualquer caminho, nada a pararia. Não falei de portas fechadas nem de janelas que já não se abrem.

Afinal, para quê discutir se a nossa relação seria a mais duradoura das nossas vidas. Estávamos destinadas a gostar uma da outra.

Ela olhou para o relógio e vi-lhe nos olhos a antecipação de se encontrar com os amigos. Quis lembrar-lhe que o pai nos esperaria, compostas, à porta da discoteca pelas três da manhã e que não arranjasse confusões. Mas mais uma vez não quis mudar o seu rumo, travá-la nas suas escolhas, por mais disparatadas que fossem.

Despedimo-nos. Eu abraçando-a com força e de coração apertado, ela mais feliz e despreocupada do que quando a encontrei.

Acordei às quatro da manhã, feliz de a ter reencontrado e com algumas saudades dela. Estava certa que quando me conhecesse melhor ia aceitar-me e ia gostar de mim como sou.

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