Leituras

Gente Pequena

por Antónia Sá

Chegou o famigerado fim-de-semana onde me cabe a mim cumprir a promessa que fiz aos meus filhos:”Siiimm, é este fim-de-semana que a prima cá vem dormir. Mas têm que se portar bem.”

E pronto, o grande momento da chegada dá-se e nada melhor para abrir as hostilidades do que gritaria  – mas gritaria à séria – geral. Chegam a entrar  ao despique.

Mas calma, nada de muitas emoções que o fim-de-semana ainda está a nascer.

Duas horas de brincadeira rija e seguimos para um jantar, que qualquer equipa multidisciplinar ligada à infância, deitaria as mãos à cabeça com tanto nutriente junto (nutriente, mas ao contrário) – mãe quero cheeseburger com extra queijo e eu um Ice Tea de pêêêêssego, tiaaaa!. Oooo maaaaeeee eu quero nuuuuggetts! E tudo isto, tudinho satisfeito por uma mãe/tia que anseia comprar o seu descanso à custa da acumulação de gorduras trans nos corpinhos dos seus queridos entes.

Mas calma que o fim-de-semana é apenas uma criança.

Tudo comido, é hora de tentar atirar novamente a casa abaixo com mais uma hora de festa. Ele é espectáculos de magia, ele é espectáculos de música e dança, ele é pinos e cambalhotas. E eu, batia palmas com afã, na tentativa de os entusiasmar e fazer concentrar no espectáculo e deixarem-se de gritarias.

Finalmente o cansaço começa a subir por eles e a vontade que eu lhes arranje a cama conjunta, floresce.

Aproveitando esta boa ideia, lá vou eu, sempre com afã claro, deito-os a todos na minha cama, uns com pés para cima, outros com pés para baixo e desço a correr animada pela ideia de também eu, dentro em breve, estar a descansar.

Abre cama daqui, estica lençol acolá, arrebita édredon, põe almofadas et voilà: “Mennniiiiiinoooooosss! A cama está feita. Podem viiiiir!!”

E pronto, lá vem a marabunta: “eu fico deste laaado; eu fico aquiiii; esta almofada é miiiinha”…

Com os mais pequenos a dormir, foi uma questão de 5 minutos, 1 hora, talvez  e duas aproximações intimidatórias  para criar a vontade de dormir nos mais crescidos.

Ora bem, agora sim, vou descansar e aproveitar o meu fim-de-semana.

Mas….que barulho é este?! Que horas são?!

Desço novamente em passo acelerado, desta vez já não muito animada e eis que vejo todos os monstrinhos acordados, numa conversa e numa risota pegadas; “Ainda está de noite. Ou se calam e adormecem outra vez, ou vai cada um para a sua cama.”

Conquistei mais uma hora de acalmia, até que aquele estado de excitação latente, rebentou novamente e aí já não houve safa.

Ele foi risos, conversas num tom mais alto de que eu gostaria para as 7 da manhã de um domingo e cereais, pois com certeza, que isto de brincar de barriga vazia não tem graça nenhuma.

Um bocadinho de televisão, um bocadinho de jogo de bola, um bocadinho de mais magias, umas banhocas e off we go para um brunch em família, depois de acertamos quem se senta onde no carro tipo carrinha da escola que eu conduzo por Lisboa.

Chegados ao local, nova gritaria e corridas em todas as direcções.

Quando finalmente entramos no restaurante, houve crianças pelo chão, sumos de laranja na mesa, no chão e nas calças de alguns, panquecas afogadas no dito sumo, gelatina nos sapatos e na roupa de outros.

Mais choro e pancadaria.

Curiosamente  conseguiram comer qualquer coisa e saímos.

Desafio seguinte: Vamos ver o T-Rex?

“Naaaaaoooo. Queremos ir ao parque!”

Sim, de facto o que é um esqueleto com 65 milhões de anos quando podemos andar de baloiço…silly me.

Parque seja.

Chegada ao parque, após paragem estratégica para ir buscar bicicletas e trotinetes.

Um bocadinho de escorrega, um bocadinho de trotinete, um bocadinho de bicicleta, um bocadinho de  baloiço, um bocadinho de jogo de bola e a determinada altura, quando olho bem para eles, um já está deitado no chão a brincar com as mãos, outros deitados no muro, outra em cima da prancha de surf, a seco é certo, mas que não é claramente para ser utilizada na posição de decúbito dorsal e de olhos fechados…

Bom, se não os quero ver a fazer a sesta no chão do parque, tenho que agir rápido e sair dali para fora.

Pergunto à minha sobrinha, que exibia muito cansaço, o que quer fazer: descansar em casa da tia, ou seguir para o sossego da sua. ” Sim tia, podes levar-me a casa.”

Huhuhuhuh!!! Agora vão todos adormecer no carro e eu posso finalmente ter mais  bocadinho de fim de semana.

Done.

Finalmente chegamos ao nosso destino e há que acordar a criançada.

Ui! Festa outra vez!

Depois dos choros habituais da despedida, é tempo dos beijinhos, abraços e agradecimentos.

“Ó mana, obrigadíssima. Correu tudo bem?”

E eu, do alto da minha pessoa, digo: “Ora essa! Foi fácil. Eles são uns queridos!”