Leituras

A Última Carta

por Adriana Calado

E começou tudo tão bem.

Numa noite de verão ao pé do cais na margem sul. Tu e eu, cada um com o seu grupo de amigos a jantar aproveitando a brisa depois de sobreviver a mais um dia infernal na cidade. Estavas de pé a fumar um cigarro. Aproximei-me e pedi-te lume. Eu sei, a frase mais banal para entabular conversa. Mas era mesmo isso que queria, lume. Tinha deixado de fumar, mas circunstâncias inesperadas forçaram-me a reavaliar essa decisão. Estendeste-me o isqueiro e depois de to ter devolvido, quando me ia afastar, falaste pela primeira vez. “Também sei assobiar”. Gostei da tua voz. Voltei-me e reparei pela primeira vez em ti. Respondi-te: “É só juntar os lábios e soprar, certo?”

Ficámos ali a conversar sobre filmes antigos. Boggie e Bacall, Spencer Tracy e Katherine Hepburn e daí para os remakes que nunca são tão bons como o original. Não sei como, até hoje não percebi, as horas passaram e os nossos amigos esqueceram-nos no restaurante. Atravessamos a ponte ao som de BB King e acabámos a noite (ou começámos o dia) a comer torradas e beber chá enquanto víamos Sioware, o original coreano que deu origem a A casa do lago, com Sandra Bullock e Keanu Reeves. Dois estranhos que partilham uma mesma vivenda à beira de um lago, separados por um intervalo de dois anos e que apenas conseguem comunicar através da caixa do correio. Uma falha qualquer no universo que ambos procuram compreender para se poderem encontrar. Nem eles, nem grande parte dos que viram qualquer das versões do filme percebem bem como é possível viver em tal diferença de tempo. O filme tem tanto de inquietante como de romântico. Será uma daquelas obras que mergulha no fantástico explorando os tempos paralelos e a velha inquietação de saber para onde vai o tempo depois de passar por nós? Ou será uma metáfora para a dificuldade em encontrar a nossa alma gémea? Optámos pela segunda interpretação, mais conforme ao nosso momento, procurando esquecer que o encontro é apenas o primeiro capítulo de uma história por escrever.

Nos primeiros tempos tudo correu bem. Libertámo-nos de medos e hesitações e fomos felizes. Contrariámos os velhos do Restelo que apontavam as nossas diferenças e a rapidez das decisões tomadas juntos. Fugimos da banalidade, dos dias sempre iguais, das refeições requentadas. Não tínhamos micro-ondas, nem para a comida, nem para o amor. Tínhamos, sim, como no nosso primeiro filme juntos, uma mesma caixa do correio. Sempre que nos zangávamos, deixamos um bilhete ao outro na caixa do correio. Foi o que combinámos.

Durante meses a caixa do correio não teve outro uso se não o de receber folhetos de refeições rápidas e cartas das finanças. Depois, começaram a aparecer pequenos bilhetes. Lamentações pelas tuas figuras tristes nas noites de sábado, irritações pela forma como me tinha portado em casa da tua mãe, desculpas pelos atrasos em chegar a casa … coisas banais que não cabem nos filmes. Gradualmente, os bilhetes foram ficando maiores. Passaram a ser cartas. Mas, ainda assim, eram cartas de amor. Os temas da nossa correspondência eram tão diversos. Mas no fundo, eram só um: o desencontro. Entre o sonho comum e as realidades paralelas em que vivíamos.

Enquanto demos uso à caixa do correio não arredei pé. Mas um dia a caixa do correio voltou a ser usada apenas pelos senhores da publicidade e pela administração fiscal. Não havia nada para escrever ou para dizer. The thrill was gone, parafraseando BB King. Uma parte de mim ainda se enternece quando te vê a dormir e admite que talvez a vida em casal seja isto e que a nossa nem é má. Mas depois vem a luz do dia e não consigo manter-me fiel à ideia. Desejo partir, é o que é. Hesitei em usar a caixa do correio para te deixar estas linhas. Mas depois não resisti. Não penses que o faço por ironia. Ou por pensar que me vais responder de volta e que recomeçaremos. Simplesmente, não vejo sítio mais adequado para a deixar. Todo o princípio tem contido em si o seu fim.

A Carta de Amor (detalhe), Jan Vermeer, c. 1670.