Entrevistas

por Filipa Gonçalves
Apartamento, Mimi Tavares, 2017

À conversa com Mimi Tavares

Mimi Tavares é pintora desde sempre. A sua imaginação assim lho impôs.

Vive e trabalha em Lisboa, onde também ministra aulas e cursos de pintura, partilhando a sua arte.

Frequentou o curso de Ilustração da Fundação Calouste Gulbenkian, com a pintora Maria Keil, em 1982. Licenciou-se em Pintura pela FBAUL em 1988, expondo colectiva e individualmente desde 1983.

Foi no final de um dia frio que nos encontramos para conversar, ela com a sua voz calma, sentido de humor auto depreciativo, riso solto e olhos brilhantes de entusiasmo, sobre o seu percurso, o seu processo criativo e do que é, afinal, ser um artista.

Consegues situar o teu primeiro impulso criativo?

Não me consigo lembrar de nada que tenha feito antes da escola, mas penso que já viria de trás. Lembro-me de, na primária, já ser tudo intencional. A professora dizia para fazermos uma redacção e um desenho e lembro-me que o desenho para mim era importante. Depois, como comecei a ter um feedback das professoras, começou a ganhar outra importância.

Então foi algo muito precoce.

Sim. Deixou de ser só uma coisa de mim para mim, um modo de pensar, e comecei a perceber que outras pessoas reagiam àquilo. Comecei a ter consciência disso.

Lembro-me de, por volta dos dez anos, pensar que quando fosse grande queria escrever histórias e fazer desenhos para elas. Eu não sabia que se chamava ilustrar. Não sei se pensava nisso em formato de livro mas sempre adorei ler. Lia livros constantemente, coisa que nunca parei de fazer, e vivia mais num mundo de fantasia do que no mundo real. Então, pensei, e se eu pudesse fazer isto?

Mas nessa altura interessavas-te mais pela imagem do que propriamente pela palavra ou era algo simbiótico?

Era simbiótico, completamente. Via tudo como um conjunto porque os livros que até então tinha lido tinham imagens associadas.

Depois em termos um pouco mais conscientes, quando foste para o liceu, o que aconteceu?

Quando chegou a altura de escolhermos a área de estudos queria ir para artes, mas tinha imenso medo de não ser suficientemente boa e tinha já uma certa noção de que era uma coisa arriscada. Teria uma vida difícil, não seria linear. Não seria uma relação causa-efeito: tiro este curso e depois faço isto. Hoje já nada é assim, mas à época era. Sobretudo duvidava da minha capacidade para ser artista.

Mas quanto falava em estudar outra coisa, não com a minha família que me desencorajou, mas as minhas amigas e os pais delas, que eram pessoas diferenciadas, contrariamente à minha família que era modesta e com pouca cultura precisamente devido ao estrato social em que existiam, diziam ser óbvio eu ter de ir para artes.

Então decidi, num compromisso, ir para arquitectura que teria a vertente criativa mas garantir-me-ia uma carreira.

Algo mais convencional.

Exacto. Lembro-me de estar em casa e pensar fazer um desenho à vista, mais ou menos difícil. Escolhi uma molheira antiga, muito bonita, para ver se conseguia desenhar aquele objecto. Cheguei a casa, sentei-me e desenhei. Ficou muito realista, ainda há pouco tempo vi-o. Conclui que se conseguia fazer aquilo, podia avançar.

E avançaste.

Fui. Quando cheguei ao curso, à época era arte e design, no [Liceu] Pedro Nunes, encontrei uma professora bastante extraordinária, embora quando a reencontre, e lho diga, ela não se reveja assim.

Uma das coisas que te ia perguntar era, precisamente, se nesse processo de escolha, que penso ser solitário, houve alguém que te influenciou.

Sim, embora não conscientemente. Antes de ir para ali o que eu conhecia de arte, fora uma ou outra revista de arte contemporânea, era quase exclusivamente através do MNAA.

Vivia perto e adorava lá ir, com a família e mais tarde sozinha.

Ficava fascinada a ver a pintura antiga, dos Primitivos e o que lhes sucedeu. Aqueles Infernos, aquelas imagens, ficava horas a ver aquilo.

O teu grande contacto inicial com pintura foi, então, através dos Primitivos Portugueses.

Exactamente. Depois, quando comecei a ter aulas com essa professora, ela começou a levar-nos à Gulbenkian e aí vi uma exposição do Wolf Vostell, um artista ligado à arte povera, completamente diferente de tudo o que tinha visto. A exposição era constituída, fundamentalmente, por esculturas enormes, feitas com carros condensados em cubos. Eram impressionantes.

Nessa altura pensaste que querias fazer algo assim ou ainda eras uma folha em branco?

Não me posicionava, de maneira nenhuma, como artista. Nem pensava nisso.

Só pensavas que querias ser uma daquelas pessoas, fazer parte de tudo aquilo?

Isso. Foi a partir daquelas aulas, em que todos os dias via slides com obras das Primeiras Vanguardas, do Impressionismo até hoje, de que eu não conhecia praticamente nada, que fiquei completamente fascinada e percebi, logo, que afinal não era a Arquitectura, queria ir para Belas Artes.

Comecei a sentir que queria estar ali e fazer parte daquilo.

Em termos do que produzia, esses anos foram um grande limbo.

Quando somos crianças desenhamos como pensamos, vemos com a alma e não com os olhos. Depois, há uma altura muito importante quando se está a desenhar em que, no nosso desejo e no nosso pensamento, cria-se uma grande expectativa e fica-se frustradíssimo de não conseguir chegar lá.

Fica a angústia da execução.

Sim. Antes disso todos desenhos de qualquer criança pequena são maravilhosos. Há uma coerência total entre o que pretendem e a execução. É completamente adequado o modo de fazer que escolhem e o que fazem.

É fascinante, não só ao nível das escolhas pictóricas mas também cromáticas.

Muitas vezes, depois do aperfeiçoamento e apuro técnico, temos de voltar atrás para recuperar essa genuinidade da infância, a impressão digital. Voltar à pureza inicial.

Por falar dessa impressão digital, sentes que há algum tema persistente no teu trabalho?

No meu caso é radicalmente assim mas não era consciente até muito recentemente. Ao longo da vida passei por várias fases. Não gosto muito de trabalhar em temas como coisas fechadas mas podemos aglomerar os trabalhos de determinadas épocas por uma coerência, quer estilística quer técnica, ou assuntos nos quais estava a trabalhar à volta e que me despertaram curiosidade.

Agora, quando olho para trás, percebo que estava sempre a falar da mesma coisa, a perseguir a mesma coisa e continuo a fazê-lo. Tem a ver, no meu caso, com o espaço habitado, com a casa, os objectos do quotidiano, do lar. Isso, para mim, tem uma importância gigantesca.

Estou a lembrar-me da tua série “Vacant” e mesmo da mais recente “Home and Away” em que estás à volta do objecto e espaço habitado…

Isso agora é mais visível, mas quando comecei a fazer o percurso ao contrário percebi que, no fundo, estava sempre a dizer aquilo. É engraçado que comecei a dizê-lo com figuras humanas, aos poucos as figuras ficaram a pontuar os espaços até que desapareceram completamente e estão lá na mesma mas já não são visíveis.

É isso que eu ia dizer, porque a presença está lá, o espaço é habitado mas há uma ausência.

Exacto. As pessoas acabaram de sair. O espaço está habitado pela ausência.

Na “Home and Away”, em que representas roulottes, há uma sensação quase de provisoriedade do espaço mas também da presença das pessoas nele. Pelo menos é a leitura que fiz desse trabalho.

Sim, completamente.

Porque existe essa dimensão dos objectos mas também uma presença psicológica das pessoas ao ponto de se sentir o seu estado de humor. Não sei se a minha leitura tem qualquer apoio no teu propósito.

Há sempre um pensamento ou uma faísca que vai despoletando o fazer, que é sempre essa, e as mudanças que vão ocorrendo no meu trabalho são muito orgânicas. Nunca são cortes radicais. Há mudanças óbvias. Têm muito que ver com modos de pintar mas, no mais, é quase o desfiar de um novelo.

Será um contínuo, então.

Já tive mais conflitos com trabalhos mais antigos, mas com o distanciamento consegui ver de fora e ver o todo, ao invés do detalhe, e reconciliei-me com todas as fases. Percebi que elas faziam o encadear uma da outra, que só havia amadurecimento com o que estava para trás.

Quando faço uma pintura, ela é quase um by-product entre aquilo que pensei antes e o que estou a projectar para a próxima. A que estou a criar é como se fosse o apanhar dos resíduos e cristalizá-los ali de alguma forma. Já estou a pensar como usarei o que descobrir ali no trabalho seguinte.

Como isso aconteceu sempre, mesmo entre blocos que agora se vêm mais diferentes – evidentemente há coisas com influências mais pop e outras – porque sou influenciada pelos livros que vou lendo, pelas pessoas que vou conhecendo e até pelo meu estado de espírito, uma coisa nasce sempre de outra. E como falamos das roulottes que são, para além de habitação, um pouco um casulo, sinto cada vez mais necessidade, como artista, de me encasular para criar. O isolamento para mim é absolutamente essencial.

Nesse sentido, o teu processo criativo começa por impulso ou está sempre em continuidade?

Sempre em continuidade. O artista pode ter mais liberdade em alguns sentidos, desde logo, não temos de picar o ponto para começar a trabalhar de manhã, mas nunca ficamos totalmente libertos do processo.

O que é ser um artista?

Tem a ver com o que estava a dizer. Nunca há aquele momento em que, para alguns, chegou o fim do expediente, e pode ir de férias ou fim-de-semana e acabou. Com o artista é a vida, o que fazes está em todos os momentos. Vês uma mancha quando andas pela rua e não consegues evitar olhar e reflectir como poderás usar aquele elemento no teu trabalho.

Então poderíamos qualificar um artista como uma pessoa que tem uma visão diferenciada do mundo?

É uma das maneiras. Toda a gente tem uma visão diferente mas o artista é quem vai trabalhar esse material, o da consciência, da sua visão do mundo. Não quer dizer que seja melhor, mas quero acreditar, em mim e nos artistas que admiro, que é uma visão muito atenta.

Não é uma visão utilitarista, portanto.

Às vezes tenho necessidade de me abstrair e me isolar do que se passa nas notícias porque isso me desestabiliza. Tira-me desse casulo e dessa bolha em que tenho que me colocar e é extremamente difícil sintonizar-me para ela. Quando tenho o privilégio de me sentir sintonizada sinto que é um dever aproveitar isso, apesar de muitas vezes não poder porque há um telefonema ou algo do género, mas quando de repente começa a haver um fluxo tu percebes: é isto que eu queria fazer! É isto que vou fazer com o que me estava a inquietar!

É uma inquietação?

Sim, porque se fosse algo apaziguador não havia necessidade de pô-lo em obra, ficaria dentro de ti. Mas como é uma coisa que ao mesmo tempo perturba, uma comichão, tens que pô-lo cá fora. Depois não é só isso, há todo o lado da arte como comunicação. Não que penses, quando estás a criar, num determinado público ou isso, mas é bastante óbvio que tens algo para dizer. A arte é comunicação.

A esse respeito, tu és uma pessoa extremamente criativa. Cantas, danças, a tua vida está cheia de actividades criativas. Porque é que escolheste, em particular, a pintura como meio de expressão?

Não sei se tinha a ver com essas visitas, desde muito pequena, ao MNAA mas sempre tive uma preferência nítida, e continuo a ter, por pintura em relação a outra arte qualquer. Em geral o que me puxa é pintura. Entro numa exposição e às vezes driblo isso, concentrando-me na escultura, na instalação, mas pelo canto do olho estou sempre a espreitar a pintura. É aí que me perco.

Tem a ver com um certo lado estático da pintura. Para fruir uma escultura, que diríamos estática, temos de nos movimentar à volta dela, e isso tem um movimento, um tempo. A pintura engendra o seu tempo e podemos estar completamente imóveis a olhar para uma coisa imóvel e aquilo ser um mundo. É absolutamente sedutor.

Quando vejo qualquer boa manifestação artística vibro e comove-me. Mas sinto que me comove mais, fico tão feliz e tenho mais fé em tudo, para mim o mundo torna-se um lugar melhor quando descubro pintura que adoro e que esteja a ver pela primeira vez.

De repente, aquilo para mim, faz-me sentir que vale a pena viver.

Ainda há pouco disseste ser óbvio, em termos de estilos, uma influência pop no início do teu trabalho que, entretanto, foi mudando. Achas que essa transição de géneros é evolutiva ou é uma questão de influência do tempo onde estás, de outros artistas, exógena, portanto?

A influência do tempo, do que vais vendo, das marcas da época é muitíssimo importante. A evolução existe também por causa da técnica, quanto mais faço e aprendo, evoluo tecnicamente e é impossível regredir. Isso condiciona de certa maneira. Mas tem mais a ver com questões do gosto, que vai mudando com essas influências do exterior, o meu amadurecimento pessoal como humana e mulher e posicionamento estético.

É muito difícil ver-se qual é a estética da época enquanto estamos a vivê-la. Pensamos que estamos todos a fazer coisas diferentes e vinte anos depois percebemos que há um mood comum à época. No modernismo, por exemplo, é óbvio. Há uma coerência formal muito grande e possivelmente, tendo sido algo muito racional e precedido de um postulado, eles se tenham apercebido do que estavam a fazer.

Tu dás aulas há alguns anos. Como vês essa partilha do teu saber, a promoção do saber artístico?

Todos os dias fico perplexa com o facto de dar aulas, e com o sucesso que têm tido, por ser uma pessoa incrivelmente tímida, um verdadeiro bicho-do-mato, embora hoje não tanto porque aprendi ferramentas para me poder exprimir. E uma das razões porque isso aconteceu foi ter sido convidada para dar aulas.

Quando estava em Belas Artes sempre achei que nunca ia dar aulas. Como aluna, mesmo sabendo as respostas nas aulas não respondia porque tinha vergonha de ouvir a minha própria voz. Isso prejudicou-me imensamente. Tendo um artista de fazer marketing de si próprio, em muitas ocasiões em que podia e devia falar não consegui, não conseguia dominar-me e ficava em pânico.

Nunca me pude dar ao luxo de recusar trabalho, e quando a oportunidade de dar aulas surgiu fui à entrevista, pensando que me entrevistariam e me mandariam embora. Não foi isso que aconteceu.

O primeiro ano foi particularmente exigente, não só por ser o primeiro, mas porque para além das práticas tinha de dar três horas de aulas teóricas. Mas foi das experiências mais fantásticas porque comecei a perceber que apesar de estar nervosíssima e gaguejar, fazia bem aquilo e fiz uma diferença para os alunos que ainda hoje encontro e que me vêm dizer o que fiz por eles.

Foste uma referência para eles como a tua professora foi para ti.

E depois, a respeito do que falaste, a passagem de conhecimento comove-me. Quando vejo outros artistas, que convidamos a falar das suas experiências aos alunos, acho de uma imensa generosidade disporem-se a falar do seu trabalho, a tentar pôr num discurso verbal o que faz em obra porque essa é a sua maneira de exprimir-se, e de repente a revelar todo o seu processo. No meu caso, ensino aos meus alunos tudo o que sei, não sei se é muito ou pouco, mas para vê-los progredir temos de dar tudo o que temos cá dentro.

Às vezes fico exausta. Não percebia porque ficava tão cansada, mas era porque estava a dar tudo o que tinha. Não é nada óbvio partilhar conhecimento de uma coisa tão vaga como é a criação artística.

Há pouco, falavas das outras áreas da criatividade em que me movimento, e é tão estranho. Eu defino-me com anti-social, antes por defeito agora por escolha, por ter começado a perceber não fazer sentido contrariar isso. Mas o outro lado da medalha desse cocooning, foi a necessidade de me mostrar nos meus próprios termos. Na maior parte das vezes usando um alter-ego de alguma natureza.

Quando expões, quando inauguras, sente-se tu própria? Tanto quanto é possível sentirmo-nos nós próprios em determinadas situações.

No princípio entrava em pânico, não me é nada agradável. É um papel que tenho de fazer, uma necessidade resultante de ser artista profissional mas tenho imenso medo de me perguntarem coisas que eu não saiba ou não queira explicar e há tantas emoções em conflito. Aquelas obras que estiveste a criar e eram parte de ti, só tuas, a conviver contigo meses ou anos numa relação umbilical – o tempo de preparação de uma exposição – de repente, vais largá-las para o mundo.

Esse momento em que a obra se desprende do seu autor deve ser difícil. Um pouco como dores de parto, diria eu, não sei.

Há esse lado, de facto, de nos separarmos das coisas, mas expô-las não quer dizer que isso aconteça. Até podem estar lá só um bocadinho e depois regressarem a casa, o que não é bom.

Ao pensares que elas vão seguir o seu caminho, vão ser outra coisa ou muitas outras coisas para além do que fizeste; serão uma coisa diferente não só para cada pessoa mas para a mesma pessoa em momentos diferentes e nunca mais se cruzarão contigo, por um lado há esse lado difícil da despedida mas é também um orgulho imenso, sentir que a tua obra te ultrapassou e continua para além de ti.

Gostas de revê-las?

Muito raramente me aconteceu mas quando aconteceu, principalmente quando já passou bastante tempo da sua criação, fico perplexa. É como rever um familiar quase desconhecido, como se vê naqueles programas de televisão. É tão poderoso, simultaneamente um processo de familiaridade e estranheza.

A tua primeira exposição foi em 1983, quando ainda andavas em Belas Artes. Como surgiu?

Foi um convite que muito me honrou. Nas Belas Artes havia duas salas de exposição. Uma pertencia à Associação de Estudantes e era de fácil acesso, penso que era apenas uma questão de calendarizar, e outra da Escola, do Conselho Pedagógico, na qual as exposições tinham que ser a convite dos professores. No meu caso foi o que aconteceu.

No fim do segundo ano, depois da minha avaliação final, a professora disse – nunca mais me esqueçi porque é cómico – “a Mimi atingiu o nirvana na arte”. No fim dessa avaliação, os professores convidaram para expor com esse trabalho e outros que fui desenvolvendo.

Lembras-te do que foi?

Claro. Chamava-se “Personagem Lendária”, mas no fundo o tema era porque eu amava o Românico e Gótico também, pelas iluminuras, pela maneira de, numa época tão obscura, terem sintetizado, criando uma abstracção para representar, afastando-se tanto do naturalismo. Trabalhava sobre um papel rosado, de má qualidade e que borrava, escolhido deliberadamente, com lápis de cor, desenhando figuras naquele ambiente, mas que tinham contemporaneidade. Não era um pastiche. Era muito influenciado por aquela estética mas havia algo de pós-modernismo naquilo, o qual foi muito eclético no sentido de ir buscar todas as fontes e transformá-las em pintura e desenho.

Se fizeres uma viagem pelo teu percurso artístico consegues identificar momentos especialmente importantes para ti, fracturantes ou decisivos?

Sim, sem dúvida. Há fases muito marcadas. Numa altura, quando estava nas Belas Artes, tudo o que fazia tinha uma natureza diferente, estava a experimentar, como acho ser saudável quando estudamos. Somos influenciados pelos amores antigos, presentes, pelo colega do lado e pelo professor. Depois há um momento, em que reconhecemos a importância do tempo. É essencial criarmos o nosso próprio tempo, o desacelerar, tão difícil nos nossos dias em que tudo nos convida ao contrário. E estar a desenhar ao nosso ritmo, a cada traço olhar para o objecto, é uma espécie de acto de amor. Estás a sentir todos os relevos, todas as irregularidades, tudo o que são as características únicas daquilo que estás a desenhar no momento.

Nas aulas, reparo que há essa urgência, as pessoas querem logo um resultado. Isso não acontece. O que acontece é criares o teu tempo, esse acto de amor com o que estás a criar e nunca acontece não chegar o dia em que, de repente, percebes o que estás a fazer. É um acordar, uma revelação: é isto o que eu quero fazer.

Não é contínuo mas a circunstância de não o ser é o que te faz procurar incessantemente e superares-te a ti própria.

Senti isso quando ainda estava ainda nas Belas Artes Quando estava a fazer aquelas figurinhas, de repente comecei a construi espaços arquitectónicos para eles viverem, criar ambientes e aos poucos as figuras foram desaparecendo e o espaço assumindo maior importância. Podia teorizar muito sobre isto mas a coisa mais evidente e difícil de explicar é o estímulo visual e o reflexo no que queres fazer.

Devoro imagens e os meus estímulos partem de imagens, quase sempre fotografias de outros. Gosto de fazer uma certa ecologia das imagens. Há milhares delas, e não me interessa de todo criar imagens a partir do nada. Interessa-me mais reciclar, reaproveitar, utilizar as imagens e fazê-las minhas, reeditando-as, mastigando-as e voltando a regurgitá-las.

Contratempo, Mimi Tavares, 2017
Leftovers, Mimi Tavares, 2017
Timelapse, Mimi Tavares, 2017

Mimi Tavares

(Excertos da presente entrevista constam da Revista Justiça com A)