Sociedade

A preguiça, essa mal entendida

por Carla Coelho

Orgulho. Inveja. Ira. Preguiça. Avareza. Gula. Luxúria.

Por ordem crescente de gravidade são estes os pecados mortais. Foram sistematizados pelo Papa Gregório I e foi assim que os aprendi nas aulas de catequese. Uma iniciação não isenta de perplexidades, apesar das palavras do catequista “o maior pecado é duvidar”. Não tive dificuldade em perceber a gravidade da inveja ou da ira. A luxúria passou-me então completamente ao lado. E não só a mim, também ao catequista e ao livrinho de catequese, que deixaram os esclarecimentos sobre o tema para mais tarde. Difícil foi perceber por que motivo o maior pecado era duvidar (não seria pior chamar gordo ou caixa de óculos a alguns colegas no recreio? ou andar ao pontapé aos mais fracos?). E, confesso, nunca percebi qual o motivo de inclusão da preguiça na terrível lista. E logo a meio da tabela, diga-se.

Não sei de onde me vinham os pensamentos subversivos e questionadores (preocupava-me a advertência do catequista quanto às terríveis consequências de duvidar que eu interpretava, reconheço, de forma hiperbólica). Claro que ser preguiçoso nunca foi bem visto. E sempre deu maus resultados. É isso que nos mostram contos como a cigarra e a formiga (convenientemente impressa nos caderninhos quadriculados daqueles tempos) e os dez anõezinhos da tia Verde Água, um conto popular muito em voga nos manuais da primárias do Estado Novo. Mas daí a ser pecado ainda vai um grande passo, sempre me pareceu.

Quando descobri o verso pessoano sobre o prazer de ter um livro para ler e não o fazer encontrei um espírito irmão. Anos rodeada de manuais de direito das obrigações, fiscal e procedimento administrativo, convenceram-me da beleza escondida da ciência jurídica e dos encantos da preguiça.

Mas comecemos pelo princípio. De onde vêm os sete pecados mortais?

O Papa Gregório I sistematizou-os tal como os conhecemos hoje. Mas foi o monge Evagrius Ponticus quem, por volta do ano de 375, procedeu à primeira compilação dos mais vis comportamentos humanos. Tempo para pensar no assunto não lhe faltou, pois viveu durante dezasseis anos como eremita no deserto. Acabou por seleccionar oito pecados: gula, avareza, luxúria, ira, melancolia, indolência, orgulho e vanglória. Apesar do esforço de organização de Evagrius há que dizer que não trabalhou no vazio. A sua lista é grandemente influenciada pelo pensamento grego em particular pelos trabalhos de Aristóteles. Os gregos criaram a moral da virtude, essencial a uma vida feliz. Evagrius juntou-lhe essa grande invenção do pensamento cristão que é a culpa.

A melancolia e a indolência foram fundidas por Gregório I num só pecado: a preguiça. O porquê desta opção não o sabemos. Talvez um pouco de preguiça de Gregório lui même? O certo é que o seu sentido inicial era muito diverso do pragmatismo com que hoje é olhada. Na verdade, eram comportamentos de índole marcadamente espiritual, traduzidos em acedia, apatia, tristeza e desespero que estavam na berlinda. O desespero era indicador de uma grave crise de fé, pois quem tem fé confia, sendo a confiança a antítese do desespero. Estes estados de espírito eram recorrentes nos monges e monjas dos primeiros séculos do cristianismo, sobretudo nos que tinham professado votos ascéticos, vivendo no deserto com pouco alimento e condições climatéricas extremas. O mais famoso destes eremitas foi Antão, um anacoreta que viveu entre os séculos III e IV cuja vida foi narrada por Santo Antanásio de Alexandria. Cristão fervoroso, diz-se que pelos vinte anos, Antão distribuiu os seus bens pelos pobres e rumou ao deserto, para ali viver sozinho durante décadas. Tudo por inspiração das leituras do evangelho. Não sei se o agora Santo Antão terá conseguido a ansiada solidão. Para além de ter sido imensamente famoso durante o seu tempo de vida inspirou muitos outros a seguirem o seu exemplo, sendo mesmo conhecido como o pai de todos os monges. Mas não é Antão quem quer. Se até ele passou por dificuldades (bem visíveis no olhar que nos lança a partir do célebre tríptico de Bosch que se encontra no Museu de Arte Antiga de Lisboa) que dizer de outros porventura menos talhados para a solidão?

Eram para eles as exortações de Evagrius Ponticus quando alertava para a gravidade de estados de espírito lassos e derivativos. O religioso que por eles se deixasse tomar era cada vez mais desleixado com o seu trabalho, que não era material, mundano, mas sim de contemplação.

E que não haja ilusões sobre as dificuldades do trabalho contemplativo.

A Nuvem do Não Saber, um tratado datado do século IV, cuja autoria permanece desconhecida, é um guia para as dificuldades do caminho da contemplação. A obra não se destina a todos. Quem escreveu o livro distinguiu quatro graus de vida cristão, a saber, a vida no mundo, a vida religiosa, a vida solitária (em ermitério) e, por fim, a bem-aventurança celeste. É apenas aos que estão na vida solitária que a contemplação abre a parte para a bem-aventurança celeste. Num texto belo e rigoroso fala-se em paciência, dor, capacidade de abandonar o julgamento dos outros e num esforço de contemplação que não tem como instrumentos o intelecto, nem a imaginação.

É irónico pensar como uma advertência contra os desvios do trabalho contemplativo se transformou na preguiça tal como hoje a entendemos. Há quem afirma que isso resultou de uma tradução descuidada (o que dá à preguiça um inesperado travo irónico). Mas não custa acreditar que sendo os pecados um código moral básico para a vida social o tempo contemplativo tenha gradualmente dado lugar à necessidade de cada um participar no esforço de produção.

É estranho aos nossos olhos que o trabalho enquanto actividade produtiva tenha um valor só recentemente reconhecido. Alain de Botton disse que a resposta à pergunta “o que faz?” determina o nível de interesse que as pessoas têm pelo que dizemos a seguir. Um trabalho pouco interessante na óptica do nosso interlocutor pode levar a que a conversa esmoreça e mesmo acabe de forma mais ou menos abrupta.

Quando foi que o trabalho ganhou esta importância? Quando é que nos transformámos no que fazemos para ganhar a vida?

Foi tarefa lenta, mas sólida, essa transformação. Pensar que nos séculos XVI e XVII trabalhar no sentido em que hoje todos nos empenhamos em tarefas diárias a troco de salário era considerado sinal de menoridade social e cultural! E não se pense que ter lucros elevados era motivo para apaziguar a troça alheia. Os mercadores foram sempre olhados de lado. Que o diga D. Manuel I que era conhecido em França, dada a sua participação no comércio de especiarias, como le roi épicier (o rei merceeiro). E não se tratava de um elogio ao seu espírito empreendedor!

Foi durante o século XVIII e sobretudo no século XIX que a forma como o trabalho é visto mudou. Mas nunca sem fortes críticos. Um dos textos mais veementes é de Paul Lafargue que aproveitando uma estadia na prisão de Sainte-Pélagie (1883) procurou refutar o direito ao trabalho propondo que qualquer homem fosse impedido de trabalhar mais de três horas por dia. Para tanto no seu breve opúsculo põe em relevo a pobreza das condições materiais e a miséria de alma que caracteriza os operários, muito à quem das longas horas de trabalho que lhe eram exigidas. Mas, ainda assim, talvez só alguém com a imaginação de Júlio Verne conseguisse então imaginar a importância que a actividade profissional tem nos nossos dias, onde se tornou um dos deuses em cujo altar muitos não hesitam em sacrificar-se (e outros, como em qualquer religião, não têm outro remédio se não ajoelhar ainda que pouco convictos).

Não serão muitos os que hoje acreditam no poder libertador do trabalho. Ainda assim, vivemos o tempo em que se tecem loas à realização, à produtividade, à superação de metas e sua substituição imediata por novos objectivos. Os horários de trabalho são longos, o tempo do trabalho não tem fim, graças à utilização das novas tecnologias. Em qualquer momento, em qualquer lugar (como dizia um anúncio) podemos receber um e-mail, um SMS ou um telefonema que nos devolve de imediato ao mundo do trabalho. Já não há patrões e empregados. Colaboramos num projecto, estamos unidos numa missão. De tal forma que há empresas que organizam dias de trabalho social para os seus colaboradores. Para as crianças também não há folgas: escola, explicações, actividades extracurriculares e os famigerados trabalhos para casa no fim-de-semana ou nas férias. Ou no final de mais um dia de aulas. Todos os dias. Ninguém me convence não existir aqui uma forma de adestramento social. Como poderá o adulto reclamar dos horários de trabalho extensos e que se sobrepõem a todas as outras áreas da sua vida se desde criança não conheceu outra realidade que não a de levar trabalho para casa?

Mas o homo laborans do séc. XXI não se esgota aí. Também nos tempos livres se exige acção: encontros sociais, passeios, viagens, actividade cultural e desporto. Um sem número de actividades destinadas a impedir que cheguemos a segunda –feira com a ideia de que não fizemos “nada de especial”. Esta frase encerra uma maldição social, diga-se. Nos olhos do interlocutor vemos a estranheza e mesmo a desilusão. Sobretudo se quem nada fez de especial não tem sequer a desculpa de ter uma prole de que se ocupar. Porque esses têm o fim-de-semana preenchido com a agenda intensa dos pequenos, entre trabalhos de casa, actividades extracurriculares e aniversários de coleguinhas. Têm desculpa para não ocuparem o seu tempo de modo produtivo no fim-de-semana. Estão presos às tarefas dos outros. Quem não tem essa desculpa sofre um pequeno silêncio de mortificação por ter tido a ousadia de nada fazer nos 2880 minutos que compõem o fim-de-semana.

A verdade é que não fazer nada é especial. Desde logo pela raridade dos momentos em que efectivamente não se faz nada. Não é por acaso que os italianos falam no dolce fare niente. Sentir a força tranquila e libertadora de nada fazer é um luxo raro. E, todavia, ficar parado, a olhar para o ar, como diz o povo, para as nuvens ou para a parede da sala é um privilégio em si mesmo. Devíamos exercitá-lo com mais frequência. Vale por si e pelo que nos pode oferecer, sobretudo se de tanto pasmarmos (e convém recordar sinónimos deste verbo tão mal amado – pasmar significa assombrar, admirar, espantar, surpreender) dermos de caras com o tédio. Porque o aborrecimento, a seca de que falava Eça de Queirós ou l’ennui como dizem os franceses é o que nos permite o encontro connosco próprios e possibilita à imaginação ganhar asas. Transporta-nos para cenários ideais, leva-nos a fantasiar conversas inteiras com pessoas que não conhecemos de lado nenhum e que gostaríamos de abordar, permite-nos por o sono em dia. Ou sentir o lento escorregar das horas enquanto vegetamos no sofá. Os seres humanos são como a terra, fazem parte da natureza. Conforme há um tempo para cultivar, há um tempo para o pousio. A terra cansada não devolve ao agricultor o que ele semeou. Connosco é o mesmo. O ser humano exausto não honra a vida que lhe cabe viver.

Quando penso sobre este estado de coisas ocorre-me que há um novo significado para a preguiça. Ela é agora o deixarmos-nos levar pela onda gigantesca de acontecimentos e informações (newsletters, alertas informativos, SMS, emails, telefonemas, grupos de whatsapp, restaurantes da moda, estreias semanais de teatro e cinema, novos lançamentos, viagens para aqui e para acolá, por exemplo) que nos assaltam a cada momento e que parecem tudo, mas que amiúde valem pouco. Em alguns casos não valem mesmo nada. É não contrariando esse perpétuo movimento que perdemos a capacidade de contemplar a essência do mundo, da vida, de Deus ou de cada um de nós. Cada um pode escolher de harmonia com a sua fé.

Não é por acaso que que na lista de pecados modernos foram incluídas a pressa e a híper-conectividade. Mas já antes da iniciativa de Bento XVI, vários autores tinham tentado reinterpretar a preguiça e devolver a dignidade à ausência de actividade, com ou sem pendor religioso. O desejo de parar vai surgindo mesmo na cultura popular com diferentes nomes. O movimento slow a que muitas cidades já aderiram e que foi apresentado por Carl Honoré num livro com o mesmo nome, é um dos sinais desta necessidade. Como o são também os apelos ao hygge ou ao mindfulness, independentemente das críticas à superficialidade destes movimentos. Por mim, mais uma vez, foi Fernando Pessoa quem melhor o disse: “só de sentir o vento passar já valeu a pena ter nascido”. Há tardes em que isto chega para nos reconciliar com a vida.

Aos olhos que chegaram até aqui na leitura do texto (ou que estão a começar por aqui para tentarem perceber se vale a pena lê-lo) deixo a pergunta: quando foi a última vez que se deram tempo para ouvir o vento passar?

Preguiça, Pieter Bruegel, O Velho, c. 1556 – c.1560

(Nota: Uma versão inicial deste artigo foi publicada na revista Justiça com A em Fevereiro de 2019)

Bibliografia:  

O movimento slow, Carl Honoré, Estrela Polar, 2006

A sociedade do cansaço, Byung – Chul Han, Relógio d’Água, 2010

A nuvem do não-saber, Anónimo, Sistema Solar, Documenta, 2018

Apologia do Ócio, Robert Louis Stevenson, Antígona, 2016

O direito à preguiça, Paul Laférgue, Teorema, 2011

E se parássemos de sobreviver? Pequeno livro para pensar e agir contra a ditadura do tempo, André Barata, Sistema Solar, Documenta 2018

Nova Teoria do Pecado, Miguel Real, Edições D. Quixote, 2017