Sociedade

Silogismos

por Luís Ramos

A Ligação

O fascínio pelo Universo é ancestral, pois desde tempos imemoriais a humanidade admira o céu, procurando compreendê-lo e explicá-lo. A cosmogonia e o alicerçar das ideias sobre o Universo tem registos desde a Antiguidade, nas civilizações da Mesopotâmia: na Suméria, com a Epopeia de Gilgamesh, e na Babilónia, com o mito da criação de Enuma Elish – A Epopeia da Criação, um verdadeiro relato babilónico sobre o cosmos e a invenção do Mundo e da humanidade. Podemos ir ainda mais atrás no tempo e constatar que o Homem pré-histórico teve um cuidado especial com a posição das suas construções fúnebres, com a orientação Este-Oeste (dicotomia dia-noite, luz-escuridão, vida-morte), bem como com a das suas construções mais elaboradas, como os cromeleques, aparentemente relacionados com o culto Lunar e Solar.

Muito há a dizer sobre os mitos da criação e a arqueoastronomia, temas que corroboram a ideia de que o encanto pelo céu é tão antigo quanto o Homem. Por serem temas que merecem melhor desenvolvimento, serão abordados em artigo próprio.

Desde esses tempos antigos a humanidade evoluiu muito em termos de conhecimento científico, tendo essa evolução ocorrido também ao nível da astronomia e cosmologia. Contudo, os catasterismos de heróis e deuses mitológicos outrora criados, embora não passando de lendas e estórias fantásticas, não deixam de ter na sua génese uma lógica que nos ajuda, hoje, a aprender o lugar das constelações.

A verdade é que a vida levada numa corrida constante, as idiossincrasias urbanas e os movimentos pendulares do dia-a-dia, não deixam muito tempo para nos lembrarmos que ainda existem estrelas no céu. Podemos nem sentir grande afinidade pelos corpos estelares, por serem coisas que estão muito distantes (a estrela mais próxima da Terra a seguir ao Sol, a Alfa Centauro, está a cerca de 4 anos-luz de distância. São cerca de 38 milhões de milhão de km.! São 12 zeros a seguir ao 38!), ou até mesmo por aqui na Terra tudo ter uma natureza completamente distinta do que vemos colado ao firmamento etéreo, mas olhar o céu nunca deixa de ser uma experiência marcante, pessoal (mas transmissível) e, por vezes, tal como ocorria com os nossos antepassados, uma experiência de foro espiritual.

Mas será mesmo tudo tão diferente? Será que um ser humano, um animal, uma planta, ou até mesmo uma pedra nada têm a ver com esses pontinhos luminosos que enfeitam a abóbada celeste? Na realidade, não podiam ter mais a ver. Parafraseando o grande divulgador de ciência Carl Sagan, “we are made of star dust”, nós somos feitos de poeira das estrelas.

Mas afinal que poeira é essa? De onde vem e o que é?  Entenda-se a poeira das estrelas como um subproduto de milhares de milhões de anos de vida de uma estrela, composto por uma série de elementos atómicos, todos eles muito bem identificados.

Este é, então, o momento oportuno para falar na tabela periódica. Foi há 150 anos que o cientista Dmitri Mendeleev (1834-1907) organizou de forma metódica todos os elementos atómicos conhecidos à época (63 elementos), organizando-os por grupos e famílias, de acordo com as suas propriedades e por ordem crescente da sua massa atómica.

O ano de 2019 foi definido pela UNESCO como o Ano Internacional da Tabela Periódica, sendo que hoje, passados 150 anos, são 118 o número de elementos atómicos conhecidos.

Fig. 1 – Tabela Periódica. [adaptado a partir de http://www.cienciaviva.pt/tabelaperiodica/%5D

A diversidade de elementos na tabela periódica tem origem no trabalho de transmutação feito nas estrelas, que funcionam como uma espécie de fornos sintetizadores de matéria, pois pegam em átomos mais leves e os transformam pela fusão nuclear em elementos com uma estrutura atómica cada vez maior e mais pesada.

O Sol, aqui tão próximo, encontra-se a meio da sua vida e continua, como desde sempre, a transmutar Hidrogénio em Hélio, processo esse que assim continuará até chegar ao Carbono, e quando chegar o momento em que este último elemento for uma apreciável percentagem da sua composição, o Sol terá chegado ao fim da sua vida, como tudo neste Universo. No caso de uma estrela mais massiva que o Sol, o núcleo atingirá temperaturas mais altas, sendo que a transformação em átomos mais pesados continuará até chegar ao Ferro. Sim, esse mesmo Ferro que faz parte da nossa hemoglobina e dá a cor vermelha ao sangue. A massa das estrelas é, assim, um factor fundamental para o resultado do produto final. No caso de estrelas muito massivas (8 vezes a massa do Sol), o estágio final das suas vidas será dramático, catastrófico, e do último suspiro resultará uma implosão de dimensões titânicas, um verdadeiro desassossego para a sua vizinhança espacial.  A energia libertada provocará um impacto de tal ordem que as demais variedades de átomos presentes no Universo serão formadas naquele momento. Embora modelos recentes demonstrem que o processo de formação de elementos atómicos mais pesados não é exclusivo do final de vida das estrelas massivas, será ainda interessante que o leitor, caso tenha uma aliança ou anel no dedo, um fio ou uma pulseira de Ouro, repare, olhe bem, pois os átomos que a compõem terão sido muito provavelmente fabricados neste acontecimento final chamado de Supernova.

Fig. 2 – Nebulosa do Caranguejo (M1) – Remanescente de Supernova localizada na constelação do Touro.
Fotografia de Henrique Silva.
Fig. 3 – A Nebulosa do Caranguejo é o resultado do fim de vida de uma estrela massiva. A explosão foi de tal ordem que o brilho foi reportado em relatos de astrónomos chineses no ano de 1054.
Fotografia de Rúben Barbosa.

Na escala astronómica, o Sol é considerado uma estrela com relativamente pouca massa e, como tal, terá uma morte pacífica, sem grande espalhafato, cumprindo, no entanto, a sua última missão de espalhar pelo Espaço cerca de 10.000 milhões de anos de construção atómica dividida em cerca de uma dezena de elementos, alguns inclusivamente herdados de uma geração de estrelas anterior ao Sol.

Para se reunirem os ingredientes necessários para constituir a receita da vida, são necessárias estrelas mais massivas que o Sol, pois só assim é possível chegar a elementos tão pesados como o Azoto e o Oxigénio, entre outros. De referir ainda que, independentemente da massa da estrela, o elemento Ferro é o último para além do qual a fusão nuclear não consegue ir.


Fig. 4 – Nebulosa do Haltere (M27). O Sol acabará de forma semelhante, expulsando de um modo mais pacifico as camadas exteriores de matéria que outrora fizeram parte da estrela. Fotografia de Luís Santo.

Voltando à vida na Terra vejamos, por exemplo, o ácido desoxirribonucleico, também conhecido simplesmente por ADN, transversal a qualquer ser vivo. O ADN transporta o código genético, bem no núcleo de cada célula nossa, sendo só exequível com o ADN a constituição de um corpo humano tal e qual como o conhecemos, contendo ao mesmo tempo todas as características e heranças que pertencem tão somente a cada um de nós.

O ADN é constituído por quatro principais moléculas: a Citosina, a Guanina, a Tiamina e a Adenina. Antes de avançar mais importa deixar uma explicação muito breve do que são moléculas, utilizando como analogia peças de LEGO. Vamos supor que cada elemento atómico da tabela periódica é um tipo de peça de LEGO, única, distinta de todas as outras.  Pegamos agora num conjunto de peças, umas quantas de cor amarela, outras de cor verde, umas com quatro, e outras com dois encaixes por exemplo e com este punhado de peças fazemos uma construção que tem uma determinada forma. Caso esta construção não nos agrade, podemos desmanchá-la e fazer outra totalmente diferente, mantendo o mesmo número de peças usadas na primeira hipótese. Se ainda assim continuarmos a não estar satisfeitos, podemos incrementar a quantidade de peças ou até mesmo alterar o tipo de peças empregues até chegarmos à construção que desejamos. As moléculas são então estas construções, feitas deste conjunto de peças ou, agora pelas palavras certas, por um conjunto de átomos, e uma ligação diferente entre estes resulta necessariamente numa molécula também ela totalmente diferente. A natureza é optimizada e poupada nos recursos, por isso usou quatro tipos de átomos apenas, Hidrogénio, Carbono, Azoto e Oxigénio, para constituir as quatro principais moléculas presentes no ADN.

É fabuloso constatarmos que o nosso ADN não carrega apenas a herança dos nossos pais, dos nossos avós ou de todos os outros antepassados, na sua ponderada medida. Transporta, também, a herança do Universo, de um passado longínquo, de átomos que outrora estiveram nos fornos de alta temperatura de uma estrela. Desde lá até agora foram séculos, milénios e eras de modificações, pertenças e recombinações dos mais distintos conteúdos a que já pertenceram todos os átomos que agora fazem parte do nosso corpo.

Esta noção de incorruptibilidade e de continuidade através dos tempos foi entendida pelo cientista francês Antoine Lavoisier (1743-1794) com a sua lei da conservação das massas, no Universo: “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Este raciocínio é um acto de um impressionante discernimento e é para mim, talvez, um dos mais espetaculares, pois a amplitude e alcance permite abarcar e unir por inteiro a matéria do Universo, como se fosse um todo eternamente transmutável.

Há que determo-nos a observar as estrelas, não apenas a olhar, mas sim a ver, contemplando-as com toda a admiração que merecem. Para um bonito espetáculo, digno de um verdadeiro deslumbramento, há que estar num sítio relativamente afastado das luzes da cidade, pois só assim esse cenário único, que um céu escuro nos oferece, terá toda a sua plenitude.

E enquanto contemplarmos o Universo não nos sintamos sós por sabermos que ele é infinito. Afinal, temo-lo em parte dentro de nós, somos parte constituinte de um Universo que sem nós seria incompleto.

Fig. 5 – Fotografia de Miguel Claro