Cinema

Uma educação

por Joana Gonçalves

Eu não percebo nada de cinema. Eu só gosto muito de cinema. E de ir ao cinema. Em casa, perde-se a magia. A imagem não é projectada do fundo da sala mas vem da televisão com cores berrantes. Há qualquer coisa de especial em comprar um bilhete e entrar numa sala escura para durante duas horas ingressarmos noutra realidade.

O convite para escrever sobre cinema, fez-me reflectir sobre como tinha começado esta paixão e, o início foi mesmo na infância. E não, não foi com os filmes de princesas da Disney, apesar de ser uma grande fã da Branca de Neve de 1937 que ainda revejo, agora com os olhos da feminista em que me tornei.

Tendo crescido na Madeira nos anos 80/90, só havia um canal disponível, a RTP-Madeira. Talvez por não ter grande escolha de conteúdos o canal passava muitos clássicos americanos dos anos 40, mas também todos os filmes mudos do Charlie Chaplin. Também passavam os filmes do Vasco Santana, mas esses nunca me convenceram. Foi mesmo com o Paul Newman que eu me apaixonei. Não que entendesse alguma coisa dos filmes. Simplesmente porque não sabia possível alguém ser tão bonito. Aquele era o homem com quem eu ia casar. Pensava que ia encontrá-lo uns anos mais tarde e ele apaixonar-se-ia perdidamente por mim. Eu ia crescer para ser igual à Elizabeth Taylor e íamos ser o casal de Gata em Telhado de Zinco. Foi nesta altura que causei alguma preocupação aos meus pais por faltar a festas de aniversário dos amigos da escola ao sábado para ficar em casa da avó a ver filmes, pensando eles que eu ia crescer com problemas de socialização. Acho que isso acabou por acontecer.

Nesta altura também entrou na minha vida Lauren Bacall. Passou a ser o tipo de mulher que comecei a achar inspiracional e aspiracional, juntamente com Joan Crawford e Bette Davis. Foi em To Have and Have Not. Claro que não conseguia compreender a tensão sexual entre Bacall e Bogart. Foi a primeira vez que vi uma personagem feminina não ser só bonita e deixar-se conquistar pelo macho alfa. Ela era provocadora, directa, segura e confortável com a sua sexualidade enquanto dá uma maravilhosa lição a Bogart sobre como assobiar. Este filme pode também ter sido o responsável pelo meu interesse pela obra de Hemingway, já que foi baseado no seu livro. É um dos raros casos em que a adaptação cinematográfica supera o original.

Hemingway e Howard Hawks eram amigos próximos, e este último disse ao escritor que poderia fazer um grande filme do seu pior livro. O argumento foi inicialmente escrito por Jules Furtham mas foi mais tarde alterado por outro grande amigo de Hawks, William Faulkner. Queria ser convidada para jantar com estes três.

Vi pela primeira vez Casablanca que se tornou um dos meus filmes favoritos. Posso vê-lo todos os anos e nunca envelhece. Haverá algum filme que tenha tantas frases citadas: “here’s looking at you kid”, “I think this is a beggining of a beautiful friendship”, “of all the gin joints she walks into mine”, “we’ll always have paris” ao som de As Time Goes By. Há um motivo pelo qual tanta gente se identifica com as suas personagens: é sobre um homem e uma mulher que estão apaixonados, mas sacrificam o seu amor por um bem maior: derrotar os nazi (“it doesn’t take much to see that the problems of three little people don’t amount to a hill of beans in this crazy world”, diz Rick). Ingrid Bergman consegue a subtileza de ser frágil e forte ao mesmo tempo, porque não se pode ser sempre de uma maneira ou de outra, parecendo confusa. De facto poderia mesmo estar, uma vez que durante toda a rodagem do filme não sabia qual seria o desfecho para não influenciar a sua performance mas, como disse a personagem de Meg Ryan no delicioso When Harry Met Sally: “Women are very practical… even Ingrid Bergman, which is why she gets in the plane at the end of the movie”.

Tornei-me uma fã de comédias românticas por causa de um clássico. E nem tenho vergonha de admitir, não é um guilty pleasure. Eu gosto mesmo! Só tem de ser bom.

Uma Noite Aconteceu… ah Claudette Colbert! Frank Capra tem os créditos por ter sido o realizador da primeira comédia romântica. Ellie é uma herdeira mimada que decide rebelar-se contra o seu pai milionário, fugindo para casar com um aviador playboy mas que acaba por apaixonar-se pelo jornalista Peter (Clarke Gable) que a ajuda na fuga. A história tem reminiscências com a Fera Amansada de Shakespeare mas sem ser sexista. Peter critica as atitudes de pobre menina rica de Ellie mas não pretende mudá-la. Quer estar com ela apesar da diferença de personalidade e de classe. Oitenta e cinco anos depois, continua a servir de bitola para avaliar filmes do mesmo género. É impossível enumerar o número de vezes em que a fórmula de o ódio se transformar em amor e os opostos atraírem-se se repetiu desde então como, por exemplo no filme juvenil, que vi vezes em conta, 10 Things I Hate About You.

Marilyn Monroe entra na minha vida com a sua feminilidade inocente em Some like it Hot com Jack Lemmon e Tony Curtis, a comédia lendária de Billy Wilder. A acção do filme assenta num conjunto de equívocos repleta de inversões e surpresas. Foi este o filme, que anos mais tarde, me fez ir à procura da filmografia deste realizador. Num filme onde tudo é sobre sexo (e ambiguidade sexual) mas finge-se que não é, a personagem de Monroe parece distraída ignorando que é objecto de desejo para os que se cruzam com ela: “Look how she moves. Like Jell-O on springs. She must have some sort of built-in motor. I tell you, it’s a whole different sex.” Curtis acha que só quer sexo, Monroe acha que só quer dinheiro e ficam surpreendidos por descobrir que afinal só se querem um ao outro.

Em pré-adolescência, o que eu queria era que o miúdo giro ficasse com a rapariga. E aí é que surgem os meus guilty pleasures, aqueles filmes que eu vi vezes sem conta e que ainda hoje não resisto a ver mesmo sabendo que não há nada de muito bom ali. Nem sei precisar o número de vezes que vi o “Top Gun”, em parte por causa dos meus primos que eram fãs e, é a partir desta altura que não resisto a um blusão de cabedal e uns óculos de aviador. Há tudo o que é preciso aqui: a miúda, o pai heróico e a rivalidade com outro piloto. As visualizações daquele eram alternadas com as do “Dirty Dancing”. O título podia sugerir um filme sobre adolescentes com as hormonas aos saltos. Na verdade, é mesmo um romance entre dois miúdos de origens diferentes com reminiscências de “West Side Story”. Baby está aborrecida com as pessoas do resort quando vai à procura da música rock n’roll que ouve à distância, para encontrar um grupo de dançarinos. Surpresa: apaixona-se imediatamente pelo bailarino mais bonito da sala. Baby aprende a dançar? O bailarino apaixona-se por ela? Dançam em frente a toda a gente na última cena? Claro que sim! “Nobody puts Baby in a corner”.

Em época de MTV, foi Clueless que me fez entrar no mundo dos filmes passados em liceus. Com um piscar de olho a Emma de Jane Austen, é impossível não adorar Cher. Apesar de ser uma menina rica e mimada de Beverly Hills que só conhece a sua própria realidade (“why learn to park when every place you go has a vallet?”) sabemos que ela vai crescer para ser inteligente e forte. Não fica desanimada com as suas más notas. Sabe que professores felizes são mais generosos e por isso convence dois dos seus professores de que são admiradores secretos um do outro: “You negotiated your way from C to an A?”, pergunta-lhe o pai. Originalmente destinado a adolescentes é uma comédia inteligente para todos. Daí ainda ser esta a escolha para ver em dias depressivos, deitada no sofá a devorar uma caixa de bombons.

Tudo volta a ficar bem com “Cinema Paraíso”. São vários os motivos pelos quais este filme consta da lista de preferidos de tanta gente: é sobre amor e amizade, sobre família e a importância do lugar onde nascemos e é também sobre a importância do cinema na vida das pessoas. Não sei se há alguma vez houve um cinema que projetasse tanta variedade de filmes. Giuseppe Tornatore parece referir todas as suas influências cinematográficas: filmes de Kurosawa, de Charlie Chaplin, westerns de John Ford com John Wayne e vários dramas de Hollywood em que homens e mulheres olham apaixonadamente um para outro, aproximam-se e quando estão prestes a beijar-se há um corte no filme, por censura do padre da aldeia. Percebemos que para o jovem Salvatore que passa os dias no cinema, o poder do ecrã compensa uma vida de privação mas que ambiciona a mais no mundo dos filmes. Qualquer pessoa que adore filmes não fica indiferente à cena em que Salvatore volta à aldeia em adulto para encontrar uma fita que Alfredo lhe tinha deixado com todos os cortes feitos pela censura, tudo ao som de uma banda sonora de Ennio Morricone.

Provavelmente a primeira obra de Scorsese que vi foi Tudo Bons Rapazes mas o filme do realizador de Taxi Driver e Ranging Bull que mais me marcou foi A Idade da Inocência. Claro que tinha a Winona Ryder que era o ídolo de todas as adolescentes da altura mas também tinha os incríveis Daniel Day Lewis e Michelle Pfeiffer. “It was the spirit of it – the spirit of the exquisite romantic pain. The idea that the mere touching of a woman’s hand would suffice. That idea that seeing her across the room would keep him alive for another year.” Como se eu pudesse resistir a um amor impossível…Scorsese afirmou que este era o seu filme mais violento, porque é possível haver violência e paixão numa sociedade de Nova Iorque de 1870 onde dominam a regras do decoro. “They all lived in a kind of hieroglyphic world. The real thing was never said or done or even tought, but only represented by a set of arbitrary signs”. Scorsese diz que ao ler o romance de Edith Warthon ficou sempre a pensar na brutalidade por detrás das boas maneiras: “people hide what that mean under the surface of language. In the subculture I was around when I grew up in little Italy, when somebody was killed, there was a finality to it. It was usually done by the hands of a friend. And in a funny way, it was almost like ritualistic slaughter, a sacrifice. But New York society in the 1870’s didn’t have that. It was so cold-blooded. I don’t know which is preferable.” Eu também não sei.

Foi nesta altura que quis ver tudo o que Scorsese tinha feito ou ia fazer, tudo de Hitchcock e tudo de Kubrick que me tinha impressionado anos antes com The Shinning. Devia ter uns oito anos quando o vi pela primeira vez na casa dos avós com os meus primos. Que medo sentimos! Nunca me vou esquecer da sensação de arrepio que senti na altura e acho tenho todos os frames gravados na minha cabeça.

Foram estes filmes que me educaram para, quando saí da ilha para a faculdade, deixar entrar na minha vida Jacques Tati, Godard, Tarantino, Fellini, Bergman, Truffaut, Coppola, Woody Allen, David Fincher, Sidney Lumet, Fritz Lang, David Lynch, Wes Anderson, Irmãos Coen e tantos outros.

Imagem do filme “To Have and Have Not“, dir. Howard Hawks (1944)