Auroras

Os lençóis engelhados na cama, as nucas transpiradas, os músculos da cara completamente relaxados que fazem o queixo descair e a boca ficar, inteiramente, aberta. Sem posição estereotipada, o corpo, num descanso profundo. São assim as auroras dos dias de viagem, todos, sem exceção!

A vida previsível todos os dias. Pelo menos no exterior. Dentro dela uma revolução avançava. Respirar, viver, ser feliz. Deixar de gerir os dias em função dos compromissos. O despertador implacável. Os cinco minutos no duche gerindo os jactos de água com parcimónia por motivos ambientais, o barulho dos miúdos mais novos, a cara de maldisposta da mais velha, o beijo distraído do marido que sai mais cedo de casa, deixando à frente do pequeno exército que geraram em conjunto.

Quando eu era pequena vivia num pequeno oásis lisboeta, circundado de choupos de copas gigantes, com campos relvados do mais verde que há e arbustos com flores tipo confetti, que eu e o meu bando adorávamos arrancar e atirar uns aos outros.

A quarentena tem destas coisas. Livros, CDs, filmes e documentários sempre adiados ganham tempo e espaço para, finalmente, entrarem na nossa vida. Uma das minhas escolhas foi Dennis McShade, pseudónimo de Dinis Machado (1930-2008).

Aquele sítio distante, onde íamos uma vez por ano, nas férias grandes, num autocarro sem ar condicionado que saía do Campo Pequeno às sete da manhã e chegava a Chaves já depois do lusco fusco das sete da tarde. Eram viagens intermináveis, quase tão longas quanto a Odisseia de Ulisses.

Viagem a uma ideia da América e o fora cá dentro

Muitos de nós terão presente no seu imaginário uma noção da América- como informalmente nos referimos aos Estados Unidos da América, e como eles próprios escolhem apresentar-se, o que não deixa de ser indicativo da própria psique nacional que reclama para si a denominação continental – largamente baseada no seu excepcionalismo como nação. O sonho americano – a noção de que qualquer pessoa consegue ser bem sucedida desde que se dedique a esse propósito – é tão endémico como tarte de maçã.

Sou latino-americana, mas o que significa isso?

Até a minha adolescência, meu pertencimento à latino américa era titubeante, sentia que a civilização estava na Europa e que nós, abaixo da linha do Equador, éramos terceiromundistas, precisávamos caminhar na direção das luzes para estar próximo ao mundo desenvolvido. O iluminismo estava aí para nos mostrar que, com a modernidade, tínhamos sido divididos em antes e depois: estávamos nós ainda no antes, seres mágicos e míticos, sem uma cultura com envergadura, envoltos em crendices e dialetos, tendo como bússola o norte.